Professor de História na Unisc, o porto-alegrense Mozart Linhares da Silva faz sua estreia em narrativa ficcional
Apoiado em sua ampla formação em História, como pós-doutor na área, o professor e historiador Mozart Linhares da Silva já assina quase duas dezenas de obras de cunho acadêmico ou ensaístico. Agora, o público vai conhecer outra faceta desse escritor: a de ficcionista. Com Em Santa Egivides, uma história brasileira, convida os leitores a uma viagem ao passado.
O enredo de seu primeiro romance está ambientado na segunda metade do século 19 em uma pequena cidade fictícia do interior de Minas Gerais, nas imediações de Ouro Preto, então a capital daquela província. O jovem Martins, um escravo que fora alforriado, retorna a Santa Egivides já formado em Direito, em Recife. E sua chegada causa apreensão: ocorre que seu irmão Ernesto segue cativo de uma família local, e ele sinaliza que está decidido a libertá-lo, bem como saber do paradeiro da mãe, Francisca, vendida para o Sul do País.
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Como a sinopse evidencia, vigoram as regras da escravidão, mas uma reação se impõe em diversas esferas da sociedade. Com os conhecimentos adquiridos, Martins assume a missão de reparar danos e erros ainda passíveis de corrigir, e de, até onde for viável, promover justiça. Haverá aliados, mas também haverá muitas forças em contrário, determinadas a tudo para manter o conveniente status quo.
Resta compreender até que ponto aquele modo de pensar e agir ficou no passado, ou não estende reflexos ao presente. A obra, de 120 páginas, a ser lançada pela Bestiário, pode ser adquirida em pré-venda no site da editora (bestiario.com.br), por R$ 52,00.
Leia com exclusividade trechos de Em Santa Egivides, uma história brasileira, primeiro romance de Mozart Linhares da Silva, lançamento:
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A porta do sobrado se abriu para recebê-lo. Quem atendeu às batidas na placa de metal fixada à porta foi a senhora Isabel, não Ernesto, como era de costume. Ao adentrar o hall, Martins cumprimentou a senhora Isabel e foi convidado à sala-de-estar, onde avistou o irmão, de olhos baixos e mãos cruzadas abaixo da cintura. Ele olhou para sua senhora como quem pede autorização para se aproximar. Então se abraçaram demoradamente. Martins conteve as lágrimas, Ernesto, não. As mãos de Ernesto tremiam e suavam. Martins afrouxou o abraço e segurou o irmão pelos ombros, afastando-se apenas o suficiente para encará-lo. O tempo, as ausências e o silêncio entre eles haviam cavado um fosso que nenhuma palavra parecia capaz de preencher. Ainda assim, ali estavam – carne e memória, frente a frente.”
“Martins era um menino criado no seio da escravidão, experimentou da violência e do desespero ao ver sua mãe afastada de si e do irmão. Foi criado entre as bofetadas que a mãe recebia de Dioclécia, sem ter nenhuma clareza dos motivos. Já havia sentido os vergões da vara de marmelo ainda na infância. Sua mente infantil já se deliciara com ódios e sentimentos de vingança. Festejou em silêncio a morte de Dioclécia. Dela ficariam as terríveis lembranças impressas nas cicatrizes que carregava no corpo e na memória. Seu fantasma jamais desapareceria por completo. A violência era naturalizada nesse mundo. Essa vida não era uma singularidade do menino Martins, era a vida que compartilhava com muitos como ele em um Império construído sobre vidas precarizadas e não enlutáveis.”
“Os horrores da noite não se encerravam ali, no pelourinho. Garcia se recolhia ao seu gabinete, decorado com pinturas religiosas e pequenos versículos em latim escritos na parede. Sobre a mesa central, frascos e taças de vidro, crucifixos e um conjunto de ventosas. Após dizer alguns versos em latim, permitindo-se entrar em pequeno transe, deixava a sala macabra e voltava aos cativos. Juntava chumaços de algodão, embebidos em água ardente ou bagaceira, dentro de ventosas e, então, iniciava o ritual.”
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É o jornalista, professor e escritor Juremir Machado da Silva quem, em prefácio, aponta para alguns dos embates que permeiam o primeiro romance de Mozart Linhares da Silva. “Que tal irmão contra irmão num conflito em torno de uma mulher, de um escravizado e de um quilombo?” Além da complexidade social do período histórico no País, salientam-se também uma história de amor e o papel do esclarecimento em favor da inclusão e da autonomia.
Tudo isso conduzido com mão firme e certeira, numa prosa fluida, despojada, por um historiador que se aventura na ficção. Em entrevista à Gazeta do Sul, Mozart manifesta sua satisfação diante do poder da literatura: quando o suposto rigor e a objetividade de um resgate histórico esbarram em limites, a ficção permite pensar além, propondo soluções.
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Acaba por questionar os próprios mecanismos da historiografia, que se pretende a verdade, quando por essência é também relato, e como tal subjetiva, uma vez que implica em selecionar o que se quer dizer ou registrar (e num olhar do presente para o passado).
Aos 58 anos, Mozart, que nasceu em Porto Alegre, há 28 anos reside em Santa Cruz do Sul. Graduou-se em História pela PUCRS em 1993, seguindo com mestrado, em 1996, e doutorado, em 2001, pela mesma instituição (com extensão na Universidade de Coimbra). Começou a lecionar em 1994 na Faculdade João XXIII, na capital; teve passagem pela PUCRS, e em 1998 chegou à Unisc. Hoje atua na graduação, no curso de licenciatura em História, e no programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) em Educação.
Coordena ainda o Grupo de Pesquisa (CNPq) “Identidade e Diferença na Educação” e o “Observatório de Educação e Biopolítica (OEBIO)”. Na ficção, suas experiências anteriores foram participações com textos na antologia Nem te conto.
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