Em Tango para homens velhos, Altair Martins aborda temáticas atuais, como os feminicídios e a onipresença digital | Foto: Liane Tonelotto/DivulgaçãoGS
Em meados do século 20, o crítico húngaro Martin Esslin (1918-2002), então radicado na Inglaterra, cunhou a expressão Teatro do Absurdo para conceituar a tendência de textos dramáticos que, nos anos anteriores, tematizavam o vazio da existência na sociedade do pós-guerra. Em pleno século 21, um volume de três peças assinadas pelo escritor gaúcho Altair Martins faz lembrar daquela definição, e mostra o quanto ela se mostra atual, diante dos temas que o autor propõe, e que escancaram o absurdo contemporâneo.
É um absurdo que, décadas adiante em relação à época em que Esslin escrevia, desvela uma sociedade em crise, sem rumo, exposta a hipocrisia, violência, insensatez. Tango para homens velhos, o título do livro, em que Martins reúne a peça de mesmo nome e outras duas (A nuvem vigilante e Amém), foi lançado pela editora Casa de Astérion, de Porto Alegre, e assume uma desconcertante força premonitória, tocando em feridas e descaminhos no modo de ser e viver em tempos de internet e de redes sociais. Com 220 páginas, a obra custa R$ 79,00.
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Os textos, frisa Altair, estão prontos há algum tempo, e teriam saído antes não fosse o advento da pandemia. Assim, em Tango para homens velhos, a peça que abre o conjunto, os personagens Sérgio, um juiz de Direito arrogante (“juiz de Direito arrogante? Pode isso?”, alguém poderia ironizar), e Alcides, um pintor de paredes, cumprem condenação por feminicídio. Estão encarregados de confeccionar uma bandeira, e insistem em atribuir a ratos a culpa pela morte de suas esposas. Foram os ratos, dizem.
Se nessa peça quem testemunha suas argumentações é o espectador (ou o leitor, no caso do texto), em A nuvem vigilante, a segunda, a onipresença em cena é mesmo da nuvem (cor-de-rosa) referida no título. É ela que, entre um salão de beleza e uma pet shop, testemunha, em meio a outros personagens, o pedido de socorro de Alberto, acometido de raiva, e a opção do Escravo Achilles, que atende na pet e prefere de maneira consciente a escravidão.
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Por fim, Amém reproduz a proposta de live de internet: cada um em sua tela, um Banqueiro, Robinson Crusoé (personagem de Daniel Defoe que passou 28 anos em uma ilha), a Mulher-Maravilha, um par de Meias Amarelas e um Olho oculto atrás de um cartaz. Novamente, a lógica da exibição, da exposição, do monitoramento e do voyeurismo como ideal de vida.
Um aspecto que se salienta no conjunto das três novas peças publicadas por Altair Martins é a sua capacidade de transpor para a dramaturgia temáticas, ambientes e recursos da vida contemporânea. Ou seja, um dos mais tradicionais gêneros literários incorpora, com vitalidade, o modo de ser e de viver na sociedade atual, demonstrando-se capaz de acomodar no palco (ou no debate, no caso da publicação dos textos) problemáticas que instigam o espectador/leitor na tomada de consciência sobre comportamentos do mundo que o cerca.
Em Tango para homens velhos, uma advertência sobre relações de gênero. Em A nuvem vigilante, o “enquadramento” em tempos digitais. Em Amém, quem ainda consegue se isolar em uma ilha em tempos de live?
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O novo livro de Altair Martins, Tango para homens velhos, reafirma a vitalidade da dramaturgia gaúcha, e a fortalece na cena teatral brasileira como um todo. Um dos primeiros e mais tradicionais gêneros da literatura na história, ao lado da poesia, passou a ter forte concorrência da narrativa com o advento do romance (de variada extensão). Mas jamais deixou de mobilizar e de encantar leitores (e plateias). Em livros, peças tornaram-se clássicos, e bastaria lembrar de Shakespeare ou Molière.
Martins desde cedo teve envolvimento com teatro, como explica em entrevista para a Gazeta do Sul. Inclusive, apresentou-se em Santa Cruz com grupo que integrava. Antes da obra que agora compartilha com os leitores, lançara duas peças: Hospital-Bazar, em 2022, e Guerra de urina, em 2025, ambas pela editora da PUCRS.
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Em Tango para homens velhos, um prefácio do professor Paulo Ricardo Berton, das áreas de graduação em Artes Cênicas e pós-graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), igualmente autor dramático e diretor teatral, situa esse conjunto específico de Altair na dramaturgia. As três peças, observa, “atacam de forma impiedosa tanto a ideia positivista da humanidade como um gradual e evolutivo processo, quanto a pompa e arrogância da pós-modernidade, que celebra a euforia de um eterno presente hedonista, desprezando as lições do passado e negligenciando os possíveis cenários nada animadores do futuro”.
Em A nuvem vigilante, a segunda e mais longa das peças, qual é o único antídoto que pode salvar a humanidade? A raiva.
Tens lançado livros com novas peças com regularidade. Segues escrevendo nesse gênero? Há mais por chegar aos leitores? Tango para homens velhos, com as três peças, cumpre um conjunto de cinco textos teatrais publicados. Tenho um esboço de peça nova, ainda sem título, na qual estou trabalhando. O bom da dramaturgia é que podemos trabalhar com ilhas cênicas e ir formando (e entendendo) a relação epistêmica que o texto estabelece com a nossa realidade.
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