Quando se vive muito tempo da mesma forma, é difícil enfrentar uma realidade diversa. Até mesmo nos casos em que havia uma rotina tóxica e de privações, libertar-se é um longo processo, que não acontece sem deixar resíduos ou sequelas. É como o prisioneiro que luta para romper sua corrente e, quando consegue, ainda mantém um pedaço dela preso ao corpo. Porque de tudo fica um pouco, como dizia Drummond.
Um cárcere pode ser internalizado se ele se prolongar por tempo demais. Pode se transformar em algo natural, inerente, fato inevitável da vida. Cachorro Velho, personagem de um romance da autora cubana Teresa Cárdenas, sabe como é isso. Ele é um negro escravizado em engenho de açúcar, cativo já antes de nascer, separado da mãe após o parto e assim denominado – Cachorro Velho – por seu patrão.
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Nunca conheceu outro mundo além daquele limitado pelas cercas do engenho. Agora está velho e nada espera além de encerrar seus dias, mas um fato novo altera a rotina. Uma menina de 10 anos, também escravizada, procura sua ajuda para fugir – ele, que não tem coragem.
Uma oportunidade para o próprio Cachorro Velho que, num instante crucial, tem a chance de sair da fazenda, mas fica paralisado. É incapaz de dar um passo além do cativeiro, único mundo que conhece. O desconhecido assusta-o mais do que a prisão. Talvez porque a vida já se aproxima do fim, julga ser tarde demais para arriscar. Ele é um prisioneiro; sempre foi assim e continuará assim.
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E se a vida ainda estiver no começo? No romance de ficção científica Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, um grupo especial de jovens é educado e preparado para enfrentar um destino terrível quando adultos. O cenário é uma Inglaterra distópica, onde o uso de seres humanos exclusivamente como “meios” foi levado às últimas consequências.
O que causa estranheza é a forma como eles aceitam seu futuro. Não tentam fugir, não se revoltam; no máximo, buscam dialogar com as autoridades responsáveis, dentro das regras estabelecidas naquela sociedade. Pois não há, para eles, outra sociedade. Isso não lhes ocorre.
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A literatura está repleta de heróis, mas também de figuras resignadas e sem heroísmo, que sacrificam a própria felicidade para se ajustar a padrões sociais e outros condicionamentos. Mesmo que o mundo estimulado e cimentado por esses padrões faça mais mal do que bem.
Não se sabe, por exemplo, quem ganha com a intensificação de guerras pelo planeta. Pouquíssimos, mas quem dita as regras tem uma mensagem clara: sempre foi assim e um outro mundo não existe. Libertar-se dessa corrente não será de um dia para o outro.
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