Cultura e Lazer

Os segredos de Teresa Vitória: atriz Isabél Zuaa, de ‘O Agente Secreto’, conversa com a Gazeta

Neste domingo, 15, o cinema entra em festa durante a cerimônia do 98º Oscar. E pelo segundo ano consecutivo, o Brasil vai agitar a maior premiação da sétima arte, evidenciando o talento dos cineastas e dos artistas brasileiros. Cheio de pirraça, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco (Gabriel Domingues) e Melhor Ator (Wagner Moura).

O longa-metragem será representado por uma comitiva formada por mais de 30 profissionais que trabalharam na produção, incluindo equipe e elenco. Integra o grupo a atriz portuguesa Isabél Zuaa, responsável por dar vida à Teresa Vitória. Apesar de a personagem ter nascido em Moçambique, na África, ela passou boa parte da vida em Angola, e precisou abandonar o país diante dos conflitos políticos. Refugiada, ela buscou acolhimento ao lado do marido, António (Licínio Januário), em Recife.

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A personagem evidencia a narrativa subjetiva de Mendonça Filho, em que há um receio, diante da ditadura, de revelar a verdade. O espectador pouco sabe sobre o passado de Teresa (sequer seu verdadeiro nome). No momento em que ela é apresentada para Marcelo (Moura), o protagonista a questiona sobre a situação de Angola. Sofrendo com fortes dores de cabeça, ela pergunta se ele está com tempo para ouvir, convidando-o para conversar a respeito. Entretanto, nunca saberemos se a conversa aconteceu ou o que foi dito pela personagem.

Somente quando Marcelo revela ser na verdade Armando, a personagem admite que Teresa Vitória é o nome de uma tia. “Na verdade, sempre quis ser Teresa Vitória. Eu gosto de nome composto”, admite. No embalo, conta ainda que ela e António estão prestes a sair do Brasil para um destino desconhecido, sendo repreendida pelo marido por falar demais.

E admite que não gostou de Recife. 

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Embora a jornada da refugiada seja repleta de mistérios, Isabél usa seu talento para quebrar o silêncio, expressando as angústias e as dores de Teresa Vitória com o corpo, a face e o olhar intenso. Assim, rouba a cena sempre que aparece na tela.

Nascida em 5 de abril de 1987, em Lisboa, Portugal, a atriz iniciou a carreira em 2012. Desde então, apareceu em 44 filmes e séries. Há outros seis trabalhos que estrearão em breve. Antes de viajar para Los Angeles para celebrar a maior festa do cinema, Isabél conversou com a Gazeta do Sul sobre a sua memorável participação em O Agente Secreto e trouxe revelações a respeito de Teresa Vitória.

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Entre gargalhadas e tensão, Teresa (à direita) roubou a cena em que os refugiados do Edifício Ofir, incluindo Marcelo (Wagner Moura), fazem uma festa. É o momento em que ela revela a origem do seu nome

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Entrevista

Isabél Zuaa
Atriz de O Agente Secreto

  • Gazeta do Sul – Gostaria de começar a entrevista dizendo que, caso esteja com dor de cabeça, tenho um analgésico aqui. Poderiam ter lhe entregue uma dipirona para a personagem no início do filme…
  • Isabél Zuaa – (Risos) Obrigada pelo remedinho. Nós temos duas teorias [a respeito da dor de cabeça]: que ela está com ressaca ou que é uma dor de cabeça também de alguma forma emocional, por conta de tudo o que estava acontecendo no país dela e fez com que ela tivesse que ir para o Brasil.
    Em maio de 1977, houve em Angola um acontecimento muito complexo dentro dos partidos políticos e depois alguns assassinatos de pessoas muito importantes. Então, acho que a dor de cabeça é um pouco emocional e um pouquinho de ressaca.
  • Como você se sente ao integrar a comitiva formada por mais de 30 profissionais que acompanhará a cerimônia do Oscar?
  • É uma adrenalina e alegria muito grande. Uma felicidade imensa. Apesar de eu estar imersa em muito trabalho, filmando até o último dia antes de viajar, estou recebendo um feedback que também me ajuda, de alguma forma, a ter essa consciência do momento que estamos vivendo. É um privilégio muito grande poder fazer parte dessa comitiva.
  • Agora é torcer pelo Oscar. Quais são as tuas apostas?
  • Espero que ganhemos todos, mas eu acredito que melhor filme internacional, com certeza, e melhor elenco.
  • Quando recebeu o convite para participar de O Agente Secreto?
  • Foi de um dia para a noite. Acho que estavam prospectando uma outra atriz que nunca apareceu. Haviam me falado que era uma atriz de Moçambique. E aí me ligaram e perguntaram: “você poderia vir para o Brasil amanhã?”
    Havia acabado um longa-metragem em Portugal, era meu primeiro dia de folga. Mas eu falei: “Para fazer um filme do Kleber Mendonça Filho? Sim, claro!”
    Precisei entender qual era a personagem. E foi muito potente, porque dentro da minha pesquisa pessoal e coletiva eu pesquiso muito sobre mulheres africanas, ou negras, que foram importantes para a luta de libertação dos países africanos contra o Império Português, no contexto das guerras coloniais. Mulheres que formaram partidos, que lutaram por uma nova formação decolonial, que criaram escolas, e é uma pesquisa que tenho para cinema, série e teatro no meu coletivo, a Aurora Negra.
    A Teresa Vitória é uma representação dessas mulheres. Não sabemos se ela é angolana por conta dessa deturpação para a proteção da identidade dela. E ter essa possibilidade de representar essas mulheres que lutaram para a libertação de um povo, de uma comunidade e um país é muito potente para mim. Me identifico muito com elas e estou aqui hoje, de alguma forma, honrando-as. Muitas delas deram a vida para que os seus países fossem mais livres.
  • Como foi o processo de construção de Tereza Vitória: você partiu mais do roteiro ou criou um histórico próprio para entender quem ela é?
  • Ao chegar, o Kleber falou comigo, juntamente com a galera da equipe e o preparador de elenco, o Léo Lato, e fomos falando sobre as coisas. Mas eu fui criando também memórias afetivas e de traumas. A minha mãe é de Angola, ela viveu guerras antes de vir para Portugal. Ela, assim como outras mulheres, apesar de ter nascido no país africano, tinha que estudar em Portugal. Então, o sotaque era uma questão. Como seria o sotaque dessas mulheres?
    A Teresa Vitória é uma personagem que o próprio Kleber conheceu, uma amiga da mãe dele, e conta histórias que a mãe do Kleber também contava. Então, há muitas coisas que não são ditas, mas são muito importantes para essa personagem. E também quando é recebida na cidade do Recife, e isso tem a ver também com, de alguma forma, alguns preconceitos que uma mulher negra, de pele escura, passa em muitos lugares do mundo.
    A personagem fala que não gosta dessa cidade. Algumas pessoas me escreveram perguntando se era a respeito disso, e eu acredito que sim também, pois já estava no roteiro, e o Kleber tem essa sensibilidade de trazer no detalhe.
Teresa Vitória é uma das refugiadas em Recife
  • O que mais te chama atenção no método de direção de Mendonça Filho?
  • Olha, o que mais me chamou atenção é a gentileza e a sensibilidade do Kleber. E com sensibilidade, acredito que ele pode tirar tudo de qualquer ator. Existe uma hierarquia no cinema que não se nota no filme do Kleber. Ele tem uma sensibilidade, um respeito por cada pessoa, cada indivíduo que está ali, cada setor, cada parte da equipe técnica e da equipe criativa. E isso se reflete no filme.
    Comento muito isso para as pessoas porque talvez algumas achem que isso é um dado adquirido. E não é. Sentir essa gentileza, essa humanidade, esse respeito por parte de todos os setores faz com que o filme e a sua personagem ganhem mais também. Acredito que cada personagem aprofunda mais o papel de Wagner Moura, nosso protagonista soberano. Isso é muito potente dentro da dramaturgia de um filme. Enquanto artista, é nisso que eu acredito.
    Quando assisti o filme pela primeira vez em Cannes, falei: “a montagem é superdemocrática”. Porque achava que ia fazer só uma pequena participação. E realmente é. Mas é uma participação muito profunda. Cada personagem que aparece, apresenta sua personalidade e um pouco do seu universo. E achei isso uma das coisas mais incríveis. Dá vontade de adentrar e fazer um spin-off de cada personagem.
  • O sentimento é esse mesmo. Gostaria de assistir a um filme sobre a história de Teresa Vitória e António. A obra nos deixa querendo saber mais sobre o passado, o presente e o futuro dos personagens…
  • Isso realmente é muito interessante. O Licínio Januário, que faz o meu companheiro, também é  um ator incrível. Ele nasceu em Angola e mora no Brasil há muito tempo, e falou bastante sobre essa época, que é muito dolorosa, mas também de garra e coragem, de mudar o rumo da história e fazer com que os países se tornassem independentes lutando.
    Esse caminho são caminhos de pessoas que se tornaram líderes importantes, como Amílcar Cabral, Lili Cabual, Carmen Pereira, Irene Cohen e Deolinda Rodrigues. A Deolinda é a mais próxima para mim de Tereza Vitória, pessoas que vinham para Portugal, estudavam, entendiam o mecanismo que estava acontecendo, entendiam que a maior parte dos portugueses estava triste e frustrado com essa guerra e tinham que fazer alguma coisa. Eles formavam partidos políticos e davam suas vidas para a libertação do seu povo, e isso é muito forte.
    A Tereza Vitória, dentro desse exemplo, para se salvar com o seu companheiro, torna-se uma exilada no Brasil. E essa mulher existiu mesmo, isso é muito potente.
  • O que você acredita que a sua personagem revela sobre o universo do filme, a perda da memória e o não dito?
  • Eu acho que essa dor de cabeça que falamos tem a ver com a memória dolorosa sobre o trauma da guerra. Sou filha de duas pessoas que passaram por traumas de guerra, de lugares diferentes. É uma violência muito grande, e é muito perto da gente.  Então, obviamente que ela vai ter momentos em que vai estar afundada nesses sentimentos, nessas lembranças e nesses traumas.
    Quando eu, Kleber e o Léo Lato estávamos falando em uma direção, depois fomos para outra. O set de filmagem de O Agente Secreto é muito vivo. Acho que isso transparece no próprio filme. Temos uma direção mas às vezes, em alguma instância, o personagem pode ir para outro caminho. Dentro de uma baliza, obviamente. O roteiro está muito bem escrito, e dá para podermos de alguma forma existir e resistir dentro dele.
A atriz na turnê de divulgação do longa nacional
  • Uma das cenas mais memoráveis é a festa na casa de Dona Sebastiana. Quais lembranças você tem das gravações?
  • Realmente foram momentos intensos, mas de muita alegria. Lembro de nós, entre takes, darmos gargalhadas com o plano de sequência acontecendo. Demos gargalhadas com coisas que surgiam. Tinha cachorro latindo, a gata passando. Foi uma diversão, apesar de ter sido uma filmagem noturna e eu estar com jet lag, foi muito bom, potente. E conhecer aqueles atores, ficamos numa simbiose. Enquanto esperávamos, sentávamos no sofá, uns cochilando, outros falando, rindo, com um carinho muito grande, com um prazer muito grande de estar lá fazendo história, fazendo parte da história do cinema brasileiro e mundial.
  • O que O Agente Secreto representa para você na sua trajetória como atriz?
  • É um filme do qual me sinto muito orgulhosa de fazer parte. Um filme que está mundialmente conhecido, com uma projeção e expansão muito grande, e me sinto orgulhosa. Recebo mensagens de vários lugares do mundo falando sobre a minha personagem. E isso é uma potência muito grande, porque o filme chega a lugares que eu nunca pensei que fosse chegar e isso é incrível. Me sinto muito feliz de fazer parte desse momento.
  • Por que você acredita que conseguimos furar essa bolha e conquistar o mundo com este filme? O que há de tão poderoso em sua mensagem que fez com que pessoas de diferentes partes do mundo entendessem a proposta?
  • Acho que tem a ver com aquilo que chamamos de clássico. O clássico tem a ver com alguma coisa específica em um determinado contexto que algumas pessoas vão se identificar.
    É uma coisa que está longe do teu lugar, um microcosmo, uma circunstância, mas com que as pessoas se identificam pela humanidade e trajetória do próprio protagonista. Acho que tem a ver com isso: nos identificar com os filmes que temos visto nos últimos anos. Parasita é um microcosmo, mas nos identificamos de alguma forma com aquela história. Acho que tem a ver com a simplicidade e complexidade do próprio filme, e isso é das coisas mais sofisticadas que tem. É um filme sofisticado.

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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