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Otto Tesche: “O cadeado e o silêncio da colônia”

No saguão da antiga escolinha do interior de Três de Maio (RS) onde dei meus primeiros passos, um painel emoldurado em madeira ainda tenta resistir ao tempo e à burocracia: “Nesta escola no campo viajamos através do conhecimento em harmonia com a natureza!”. A frase, pintada com o esmero de quem acreditava no amanhã, continua lá, firme como uma sentinela de afeto. O problema é que o destino dessa viagem foi alterado por um decreto municipal. O portão de acesso na colônia permanece aberto, num convite quase fantasmagórico, mas a porta principal está trancada. Onde antes vibrava o alarido das crianças no recreio, hoje sobrou apenas o silêncio retumbante das salas vazias.

O cenário vivido na terra onde nasci não é diferente do que se observa nas últimas décadas em Santa Cruz do Sul e na região do Vale do Rio Pardo. A desativação de uma escola rural é um fenômeno que a burocracia insiste em tratar com a frieza de quem atua numa planilha de Excel. Para o gabinete oficial, trata-se apenas de 19 ou 23 alunos – a contabilidade varia conforme a conveniência de quem precisa justificar o corte de custos, tomando como exemplo a escola de Três de Maio. Mas, para a comunidade local, o fechamento de uma sala de aula no interior não é um simples ajuste numérico. É a amputação de um membro vital.

A escola da colônia nunca foi um mero CNPJ educacional. Ela é o coração de um organismo vivo que inclui a igrejinha, o pavilhão comunitário e a quadra de esportes. Sem a escola, a vida comunitária fica bamba, perde o rumo. É ao redor do pátio escolar que as famílias se encontram desde os primórdios da colonização na região, entre celebrações religiosas, festas comunitárias e reuniões políticas.

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Dói ver a primeira escola da vida ser “fechada” – uma voz passiva que esconde uma violência muito ativa. É como se um gestor público passasse um apagador sujo sobre um quadro-negro repleto de histórias, deixando para trás somente rastro de pó de giz e nostalgia. Costuma-se dizer que fechar uma escola é como tirar o doce da boca de uma criança. No caso da zona rural, a crueldade é maior: é tirar a criança do seu chão e atirá-la no asfalto.

A justificativa oficial atende pelo indefectível mantra da “redução de custos” e da “qualificação do ensino”. Sob o pretexto de oferecer uma estrutura supostamente superior na zona urbana, obriga-se o filho do pequeno agricultor a enfrentar a maratona diária de estradas de chão para estudar em salas centrais e superlotadas. É a famosa lógica da “nucleação”, que confunde amontoar alunos com formar cidadãos.

Trata-se de uma aritmética curiosa. Para economizar o salário de um professor e a manutenção de um teto simples, gasta-se depois muito mais em logística. Onde antes bastava um veículo local, agora serpenteiam peruas e ônibus queimando combustível para levar pequenos estudantes ao Centro. É a economia que sai caríssimo, regada a óleo diesel, poeira e cansaço infantil.

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Manter a escola no campo é uma questão fundamental de dignidade e sobrevivência econômica. O jovem que é aculturado pela rotina urbana desde os primeiros anos dificilmente voltará para dar continuidade ao trabalho dos pais na lavoura. Sem escola, o distrito enfraquece; sem jovens, o campo envelhece; sem sucessão, a economia agrícola que sustenta o município vira uma triste monocultura de saudades.

O Brasil encerrou mais de 100 mil escolas rurais nas últimas duas décadas. Uma região que nasceu e prosperou pela força de colonos que erguiam escolas antes mesmo de ter prefeituras não pode aceitar passivamente essa estatística do abandono. E por que não inverter o processo: levar alunos da cidade para estudarem em escolas da área rural? Será uma experiência interessante para aumentar o conhecimento sobre a realidade de qualquer município. Resta a esperança de que os gestores resgatem a sensibilidade sobre o valor do ensino no interior. O conhecimento, para frutificar, precisa de terra fértil e proximidade.

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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Lavignea Witt

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