Após passar 24 anos na corte oriental de Kublai Khan, o império mais poderoso do século 13, Marco Polo retornou à terra natal, a poderosa República de Veneza. Rico de recursos e sabedoria adquiridos em território chinês, no seio da dinastia mongol Yuan, o veneziano viu-se subitamente envolvido em uma guerra com outra grande cidade-estado, a República Marítima de Gênova. Capturado e encarcerado em terras inimigas, narrou suas aventuras e descobertas a um companheiro de cela, Rustichello de Pisa.
Do lado ocidental e oriental da península itálica, os mares da Ligúria e o Adriático dominavam as efervescentes rotas comerciais do Mar Mediterrâneo, em uma Europa ávida pelas especiarias vindas do oriente. Além disso, as rotas religiosas das cruzadas – diante da dificuldade de percorrer por terra o caminho para a Terra Santa – dependiam dos portos estratégicos e da capacidade de construção naval que Gênova e Veneza ofereciam.
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A República de Gênova, fundada no século 10, foi uma pujante república parlamentar por sete séculos. Atingiu seu apogeu entre os séculos 13 e 15 e perdurou até 1797, quando o norte italiano se tornou território vassalo da França e da Áustria durante as Guerras Napoleônicas.
Assim como Veneza, o segredo do sucesso econômico da atual capital da Ligúria esteve em colocar o interesse comercial acima de disputas religiosas, tratando tanto o mundo islâmico como o Império Bizantino como parceiros preciosos. Para garantir as lucrativas rotas, Gênova manteve colônias que se estendiam do Mar Egeu até a Crimeia – hoje ocupada pela Rússia e disputada pelos ucranianos.
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O genovês mais famoso é, sem dúvida, Cristóvão Colombo, pioneiro da técnica revolucionária de navegação que permitiu os grandes descobrimentos: graças ao cálculo estimado da posição marítima baseado em velocidade, direção e tempo percorrido a partir de um ponto conhecido, Colombo viria a “descobrir” a América, ainda que de forma parcialmente acidental. A casa onde o navegador passou a infância está ao lado da majestosa Porta Soprana, parte da citadela construída no século 12 para proteger a república do expansionismo de Frederico Barbarossa, líder do Sacro Império Romano.
Outra prova do poder genovês de outrora está no país em que hoje resido. A bandeira da República de Gênova, com a cruz vermelha de São Jorge sobre o fundo branco, foi adotada pela Inglaterra em 1190, durante as cruzadas, como forma de proteção marítima no Mediterrâneo e mediante pagamento de um tributo anual à cidade-estado. Trata-se de um fato pouco lembrado pelos ingleses que atualmente utilizam a bandeira como símbolo ultranacionalista.
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Gênova dominava o comércio do Mediterrâneo ocidental, e o gigantesco afluxo de capital levou à criação de bancos e seguradoras nos moldes que conhecemos hoje. Permanecem vivas as marcas deixadas por famílias poderosas como os Grimaldi e Doria. O Cemitério Monumental de Staglieno, com suas divinas esculturas, é outra evidência da opulência que ainda se fazia presente no século 19. Não é à toa que Nietzsche escolhia o local para suas caminhadas diárias.
Gênova é apenas a vigésima cidade italiana em número de visitantes – uma dádiva para quem deseja explorar com relativa serenidade suas vielas charmosas e sua arquitetura espetacular. A cidade é também um tesouro cultural. A Feira do Livro de Gênova celebrará seu centenário em 2026. Embora dure apenas três semanas por ano, uma versão sucinta da feira é permanente na Galeria Giuseppe Mazzini – o genovês Mazzini foi parceiro de Giuseppe Garibaldi na luta pela Unificação Italiana.
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No porto antigo, de onde partiram milhares de italianos rumo às Américas no final do século 19, a arquitetura da época permanece preservada, agora enriquecida pela modernidade do maior aquário da Itália, projetado pelo arquiteto genovês Renzo Piano. À beira do cais, o belíssimo Palácio de São Jorge foi construído no século 13 como sede do governo local. Em 1407, passou a abrigar o Banco de São Jorge, o mais antigo banco governamental do mundo. Atualmente, o edifício sedia a administração do principal porto da Itália.
Minha primeira visita a Gênova, há exatos 35 anos, tinha uma intenção principal: encontrar a derradeira visão que meus antepassados italianos tiveram da terra natal e caminhar pelas ruas onde deram seus últimos passos em solo pátrio. O Palácio de São Jorge pode ter sido a lembrança mais marcante para aqueles emigrados. Muito além disso, porém, encontrei uma cidade extraordinária, à qual voltei muitas vezes, e que espero continuar conhecendo melhor a cada novo retorno.
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