O registro conhecido mais antigo sobre uma fronteira remonta a 2400 a.C., gravado num pilar de calcário cristalino com meio metro de altura. Ele relata uma disputa entre duas cidades da Mesopotâmia por campos de cevada, no atual deserto do Iraque. Durante 150 anos, esses campos mudaram de dono, na maioria das vezes de forma violenta.
Fronteiras são barreiras arbitrárias e, por vezes, definidas à distância. O turbulento Oriente Médio, por exemplo, foi retalhado em gabinetes de Londres ou Paris, de acordo com interesses alheios às nações demarcadas. Essa arbitrariedade não é apenas histórica, e se manifesta diariamente nas fronteiras contemporâneas.
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Os aeroportos dos Estados Unidos representam, possivelmente, a maior diversidade de experiências migratórias, com tratamento que, na maioria dos casos, depende da nacionalidade do indivíduo que cruza a fronteira. Entrei no país mais de 300 vezes, usando diferentes combinações de passaportes (Brasil, Itália e EUA) e várias modalidades de imigração: turismo, vistos de trabalho, residência permanente (green card) e, nos últimos 15 anos, como cidadão estadunidense.
As primeiras entradas não representaram problema algum. Foram viagens de turismo nas quais eu apresentava o passaporte europeu, que dispensa visto e não envolve mais do que uma ou duas perguntas simples dos agentes. No ano 2000, a empresa em que eu trabalhava no Brasil me transferiu para os Estados Unidos e recebi um visto de trabalho no passaporte brasileiro. Foi um período em que fui obrigado a enfrentar a rispidez da imigração americana, especialmente após o onze de setembro. Em algumas entradas, passei horas em salas de inspeção secundária. Nesses locais, as perguntas são frequentemente agressivas e provocativas, e neles assisti também à humilhação de inúmeras pessoas, por vezes idosos ou adultos com crianças, que chegavam ao país sem falar inglês.
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Pouco tempo depois, recebi a residência permanente (“green card”). A partir daí, o processo e o tratamento melhoraram significativamente. Mais adiante, como cidadão estadunidense, os procedimentos se tornaram automáticos, por verificação eletrônica, biometria e sem passar por agentes. Na última entrada, há poucos dias, nem sequer foi necessário retirar o passaporte do bolso, com o processo de imigração inteiramente controlado por reconhecimento facial.
Os perrengues também podem acontecer na saída de um país. Por exemplo, em uma das viagens de trabalho à Nigéria, eu deixava o país pelo precário aeroporto de Port Harcourt, no interior da nação africana. Durante toda a estadia, fui escoltado por seguranças armados, que me acompanharam até o local do procedimento de saída no aeroporto. Daquele momento em diante, a situação degringolou.
Do agente de imigração até os vários funcionários da segurança do aeroporto, todos, sem exceção, solicitaram auxílio monetário, quase sempre de forma ostensiva e ameaçadora. Em cada investida, eu sorria e fingia não ter entendido o recado. Por sorte, escapei ileso.
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O antigo pilar da Mesopotâmia, colocado na fronteira entre as cidades, explicava a origem da linha que demarcava: teria sido traçada pelo pai de todos os deuses, no início dos tempos e, portanto, demarcava uma fronteira eterna.
O fato de o marco ter sido arrancado do solo e ter ficado sob as areias durante milênios antes de finalmente chegar aos depósitos do Museu Britânico, sugere o contrário. Traduzido somente em 2018, a inscrição capta a verdadeira natureza das fronteiras. Antes de serem mapeadas, desenhadas ou marcadas, elas começam como uma ideia. Nenhuma fronteira política simplesmente existe. Ela é criada e narrada. Fronteiras não são nada mais do que a materialização de uma história.
No terceiro e último artigo desta série, exploraremos o mundo pitoresco e por vezes bizarro das fronteiras terrestres.
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Passar por uma fronteira internacional pode ser uma experiência tranquila ou extremamente dramática, e cada um tem suas próprias vivências. Com base na minha experiência, seguem algumas dicas para reduzir o risco de complicações com agentes de imigração:
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