Catedral da Sé, em Velha Goa, apresenta uma arquitetura tipicamente jesuíta
“Na madrugada de lágrimas e esperança, Teu pranto é o meu.
De ti me vem um apelo, Dolorido e ancestral.” (do poema “Goa”, de Vimala Devi, poeta goesa)
Uma senhora de 83 anos que vendia frutas no mercado de Velha Goa foi a única falante de português que encontrei. Em meio a um calor de mais de 40 graus e aos aromas de frutas trazidas pelos portugueses há mais de quatro séculos, como abacaxis e mamões, além das mangas, nativas do subcontinente indiano, conversamos sobre alguns costumes herdados dos lusitanos. No final, ela me disse: “Hoje somos muito poucos os falantes de português. A língua vai desaparecer por aqui”.
Assim como em Macau, China, encontrei a língua de Camões em nomes de ruas, hospitais e em alguns prédios do governo nas cidades de Panaji e Velha Goa. Saboreei a culinária portuguesa em padarias e restaurantes que mantêm a influência dos antigos colonizadores. Dos 1,5 milhão de habitantes de Goa, restam cerca de 10 mil falantes do português, praticamente todos de idade bastante avançada. Tudo indica que a senhora com quem conversei tenha razão.
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Vasco da Gama levou a fama de conquistador da Índia, mas o que ele fez foi descobrir o caminho marítimo desde a Europa, em 1498. O verdadeiro conquistador foi Afonso de Albuquerque, que comandou a brutal invasão de Goa em 1510, iniciando 450 anos de colonização. Apesar disso, o legado arquitetônico e urbanístico, bem mais que lusitano, é tipicamente jesuíta. Nas igrejas, ruas e praças, a impressão foi de estar na região das missões do sul do Brasil e do nordeste argentino.
A explicação está de certa forma materializada na bela Igreja do Bom Jesus. Desde 1553, o corpo incorrupto de São Francisco Xavier (1505-1552) jaz em uma redoma de vidro e prata encomendada pelos Médici de Florença, com um alto pedestal de mármores policromáticos de várias partes do mundo. Xavier foi cofundador da Companhia de Jesus com Inácio de Loyola e, aos 35 anos de idade, foi enviado pelo rei português João III para catequizar o Oriente.
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Após 13 meses de viagem, que incluiu uma estada em Moçambique, Francisco passou cinco anos em Goa, antes de seguir viagem para o sudeste asiático, Japão e China, onde faleceu de pneumonia aos 47 anos. Seu corpo foi enviado para Goa em 1553. Com uma vida de caridade e amor ao próximo, o missionário basco foi canonizado em 1622. Em Goa, o Colégio e Seminário de São Paulo, fundado por ele, servia como base dos jesuítas na Ásia.
A Igreja católica deixou um legado de educação, desenvolvimento e arquitetura em Goa, mas também cometeu seus pecados. De 1560 a 1812, Goa teve o único tribunal da Inquisição portuguesa no além-mar. Cerca de 16 mil pessoas foram julgadas, e centenas de penas de morte foram aplicadas, principalmente aos convertidos do hinduísmo e islamismo que praticavam suas religiões originais em segredo. Entre as poucas medidas socialmente progressistas atribuídas ao tribunal esteve a proibição do Sati, ritual no qual as esposas eram queimadas vivas na pira funerária dos maridos.
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Em 1550, Goa já era uma metrópole vibrante para a época, sob o governador da Índia Martim Afonso de Souza, personagem recorrente nos livros de História do Brasil. Com mais de 200 mil habitantes, Velha Goa era maior que Lisboa ou Londres, com palácios, igrejas, hospitais e escolas. Denotando a importância da região, ali ficava a sede do vice-reinado português de todo o Oriente.
Passados quatro séculos, o estado de Goa, criado em 1987, tem uma das arrecadações mais altas da Índia, impulsionado ironicamente por uma atividade que São Francisco Xavier combatia: os jogos de azar. Cassinos são permitidos se forem flutuantes ou em determinados hotéis de luxo em terra firme. O turismo saltou de menos de 200 mil visitantes por ano, até 1995, para mais de 3 milhões em 2025.
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Entre os lugares que mais me impressionaram está o Forte de Aguada, imponente e estrategicamente posicionado. A fortaleza abriga uma antiga prisão e o Museu da Libertação. Na cidade, a Catedral da Sé é a maior igreja da Ásia e supera, em dimensões, qualquer templo de Portugal. A arquitetura de Panaji (Nova Goa) repete o padrão urbanístico da colonização portuguesa, presente, por exemplo, em Macau, Salvador, Maputo ou Luanda.
A Índia nunca cansa de surpreender. No chamado subcontinente, há mais pessoas que em toda a África. Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar e os últimos a deixar o país, em dezembro de 1961. Contudo, a cultura milenar da região fez com que a identidade, as tradições e a língua Konkani jamais tenham se perdido. Uma permanência fascinante, que convida à reflexão sobre nossas origens e sobre o legado deixado pelos antepassados.
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