Um banqueiro tradicional, experiente, me diz que gente como Vorcaro não é nem estagiário de banqueiro; é apenas um aventureiro bobo tentando entrar no mercado financeiro. Agora que todos podemos ver como vivia Vorcaro, o que se destaca no aventureiro é que, como pessoa, é um bobo. Agora numa cela exígua que contrasta com a vida de luxo que inventou para si, um bobo infeliz. Vida de rico. De novo-rico – e aqui fica mais forte a expressão original: nouveau riche. Raspadas no presídio a melena e a barba feitas por coiffeurs bem pagos, restou a cara original, atrás da maquillage (que em francês significa disfarce), cara de adolescente perdido na vida e achando que o mundo se faz em um dia.
Pelos diálogos de pombinhos com Martha Graef revela-se o namoro adolescente; pela festa de noivado na bela Taormina, entre o príncipe e a princesa, desvela-se a breguice, o exagero de novo-rico expõe mau gosto original. Os 200 milhões de reais jogados na fumaça do vizinho Etna revelam o dinheiro fácil, tirado de fundos de previdência de funcionários públicos, graças à compra de dirigentes venais. Os artistas contratados cobraram milhões de dólares e euros – portanto famosos e caros. O único que conheço, Andrea Bocelli, cobrou 981 mil dólares. Poverino, bambino Vorcaro…
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Seu avô, pastor protestante, veio da Itália; o pai de Daniel Bueno Vorcaro era corretor de imóveis. A irmã é pastora da Igreja Evangélica Lagoinha, assim como o marido dela, Fabiano Zettel – o dos braços assustadoramente tatuados, também preso, como operador de negociatas. Vorcaro disse a Martha que seu primeiro emprego fora aos 15 anos, como guia na Disney. Aos 19 anos já estava em negócios: livros, depois imóveis. Com 24 anos, formou-se em mercado de capitais. Em 2018, adquiriu a opção de compra do Banco Máxima, quando seu dono foi inabilitado pelo Banco Central. O Máxima virou Master, e, a partir de então, descobriu que podia ser o master de venais. Com a cumplicidade do cunhado pastor, passou a tanger um rebanho pago a seu serviço. Todos cúmplices das espertezas que exploraram ambições e fraquezas de mal-formados.
O pobre menino se tornou dono de consciências e de bilhões. Fez festas em Trancoso, Brasília, na Europa, Estados Unidos, Mundo Árabe. Pagou degustação de uísque em Londres. Em Nova Iorque, posou de filantropo: Flávia, mulher de seu sócio Augusto Lima (ex-Arruda, ex-ministra de Bolsonaro), doou um cheque de 5 milhões de reais para os desabrigados das cheias no Rio Grande do Sul. O equivalente a 2,5% da festa de noivado em Taormina ou a 3,8% do contrato de 129 milhões com o escritório de advocacia da família Moraes. Aliás, esse foi seu pior negócio. Primeiro, porque pagou um preço exorbitante, inclusive pela suprema ironia: 34 páginas de um código de ética; segundo, porque não teve a contrapartida: foi preso assim mesmo, ainda que tivesse trocado muitas mensagens com Moraes no dia da primeira prisão, antes do pretendido voo para Dubai.
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Enfim, 40 dias depois, sua procuradora Viviane Moraes estava em Dubai – acompanhada pelo marido, para não deixar a mulher sozinha num país árabe. Talvez tenha, como representante legal, feito o que Vorcaro pretendia fazer e não pôde. Talvez. Ou a viagem foi simples curiosidade de saber se Dubai é uma festa. Não valeu 129 milhões. Agora dorme em cama de concreto, numa cela de 9 metros quadrados. Como um Midas, converteu em ouro todos em que tocou. Essas vidas áureas, em alquimia reversa, estão contaminadas e podem virar pó.
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