Segunda-feira, 5 de janeiro. Vejo muitos comentários sobre o cão Orelha, morto de maneira sádica no dia 4 de janeiro, em Florianópolis. Há uma comoção inevitável nos fóruns de debates, mas nem todos se deixam impressionar.

Alguns acham que a divulgação do caso é uma forma de “desviar o foco” de coisas mais importantes, como, por exemplo, a fraude no Banco Master. A “mídia comprada”, para variar, nada faz além de produzir uma cortina de fumaça para iludir a sempre burra e manipulável população.

Pois bem. Depois de ler algo assim, só por curiosidade, abro os portais da Folha de S. Paulo, G1 e Estadão. E não é que nessa data, 2 de fevereiro, as manchetes dos três veículos – todas elas – eram sobre o Banco Master? Até para criticar a imprensa, enfim, é necessário acompanhá-la de vez em quando. Do contrário, como saber do que ela está falando ou não?

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Outros questionavam: não é mais importante se preocupar com o sofrimento humano? Tanta indignação por um animal, mas e as pessoas que morrem de forma violenta todos dia? Um influenciador criticou o fato de muitos chorarem por um cachorro, mas ignorarem o massacre de cristãos no Sudão. Por que ninguém fala do Sudão?

Parei para pensar. Imaginei multidões tomando as ruas das capitais brasileiras em protesto contra a violência no Sudão. E na mesma hora previ os comentários nas redes sociais: por que esse povo não se preocupa com os problemas do próprio país? Por que não vão lavar uma louça?

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A verdade é que essas pessoas não querem falar sobre nada. Qualquer tipo de mobilização vai aborrecê-las. A turma do “foco desviado”, por exemplo, vê o cérebro humano como algo extremamente subdesenvolvido. É tão pequeno que qualquer informação nova, automaticamente, tira o espaço de todas as outras. Joga-as no limbo.

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Se eu passar o dia pensando em política nacional e, no outro, importar-me com qualquer outro tema em pauta na mídia, vou esquecer a política para sempre. Porque – veja só – os miseráveis desviaram meu foco! Que bobajada.

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É perfeitamente possível falar do cão Orelha e de tudo mais, inclusive da violência contra crianças. No último domingo, 1, em São Paulo, um bebê de 11 meses foi atacado e morto por um pitbull em casa. O cão era da própria família. Mas, segundo a polícia, a vítima já havia sofrido agressões antes do ataque – talvez dos pais. Mais um retrato do desprezo pela infância no Brasil. Por que ninguém fala disso?

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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