Corre o ano de 1883. Daqui a uma semana, o navio Bahia irá zarpar rumo ao Brasil. Capitaneada pelo comandante Poschmann, a embarcação partirá de Hamburgo no dia 22 de março, com previsão de chegada ao Rio de Janeiro antes de completadas as três primeiras semanas de abril. Na lista de passageiros, o nome de Eduard Kämpf. Eduard, um jovem de 24 anos, residente em Leipzig, registrado como carpinteiro, deixaria a Alemanha motivado pela exuberância natural de um destino onde poderia desenvolver a “cura natural”.

Todavia, em meio aos preparativos da viagem, uma imagem não sai da mente de Eduard, a de Hedwig Engel, sua noiva, um ano mais jovem, também nascida em Leipzig. Embarcaria sem ela. Chegaria no país do futuro sem ela. Mas sabia. Haviam combinado tudo. Tão logo ele estivesse razoavelmente instalado, ela viria ao seu encontro.

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Lembremos que Leipzig era conhecida por sua pujança comercial, cultural e por acontecimentos referenciais. Desde 1409 a cidade dispunha de uma universidade. Tornaram-se célebres os debates de 1519 entre Martin Luther e seus interlocutores. Em 1765, o escritor Johann Wolfgang Goethe, que revolucionaria a literatura, se mudara para Leipzig para estudar Direito e acrescentar conhecimentos na área da filosofia, medicina e desenho.

Se culta, também palco fatal. Por ocasião da “Batalha de Leipzig”, em 1813, mais de cem mil pessoas pereceram, sendo Napoleão e seu exército derrotados. Também a hidroterapia encontrara em Leipzig campo fértil. Mencione-se que as origens da hidroterapia remontam aos tempos dos povos antigos, como os egípcios, que já se valiam da intercalação dos banhos quentes e frios. Eduard pretendia ir além, inclusive de sua originária Leipzig e da própria trajetória. Para isso, preparava-se para encontrar um lugar de excelência em águas límpidas, ares puros e ensolarados.

Assim, ao tempo em que o cenário familiar, da cidade e do percurso de vida ocupavam boa parte de seus pensamentos, havia questões práticas a serem resolvidas, como a revisão da documentação e estar a tempo no porto de Hamburgo. Uma semana, especialmente quando se anuncia transformadora, se vale de dois relógios, o do tempo que acompanha veloz as providências finais e daquele que parece estacionar nas lembranças.

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Também Hedwig preparava seu enxoval. Precisava estar pronta para o aceno da partida, que desejava acontecesse logo.

Fôssemos nós os passageiros, como cada um de nós, transportados para março de 1883 se comportaria, havendo decidido mudar de país, ares e perspectivas? Como trabalharíamos em nossa intimidade a partida individual para, logo adiante, nos unir, como casal, em propósitos conjuntamente pretendidos? Transpostos os 143 anos que se interpõem entre os preparativos do casal Hedwig e Eduard e os dias atuais, também nos movemos, respeitosamente, na revisão e ampliação do livro Vida Nova, a história do Sanatório Kaempf, que pretendemos relançado nos próximos meses. Assim, sob a editoria do Romar Beling e em sintonia com Jones Alei da Silva, estamos revendo documentos, selecionando novas imagens, consultando pessoas e registros de atendimentos.

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Hedwig e Eduard, que o dedicado amor de vocês nos inspire. O amor, tão múltiplo em suas formas e expressões, mas sempre o amor, o mesmo que faz você, de todos os lugares e origens, suspirar.
Aliás, a data de embarque de Eduard para um mundo novo coincide com o dia de aniversário da amorosa Vera.

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Guilherme Andriolo

Nascido em 2005 em Santa Cruz do Sul, ingressou como estagiário no Portal Gaz logo no primeiro semestre de faculdade e desde então auxilia na produção de conteúdos multimídia.

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