A madrugada de 29 de março deste ano ficou marcada como um divisor de águas na vida de uma família. A tragédia ocorreu no quilômetro 11 da ERS-409, no trecho que liga Santa Cruz do Sul a Vera Cruz. Uma motocicleta Twister colidiu contra um pedestre nas imediações de uma ponte, resultando na morte instantânea da condutora, Andressa Thaís Sehnen, de 21 anos. Na carona estava uma jovem de 18 anos, que foi arremessada do veículo e resgatada em estado gravíssimo.
Jogada a cerca de cinco metros do ponto de impacto, a passageira foi projetada em meio à vegetação às margens da via — um obstáculo natural que, segundo a família, ajudou a amortecer a queda e salvar sua vida. O socorro foi prestado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que a encaminhou ao Hospital Santa Cruz (HSC).
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A partir daquele momento, iniciou-se uma longa jornada pela sobrevivência. Nos primeiros instantes da internação, o cenário apresentado à família era de desespero e incertezas. A mãe da jovem relata ter vivido horas de angustiante falta de informações até conseguir compreender a dimensão do quadro clínico da filha.
A gravidade do politraumatismo exigiu intervenções cirúrgicas de emergência. A paciente sofreu lesões viscerais graves, que culminaram na retirada do baço (esplenectomia) para conter uma hemorragia interna, além de necessitar de drenagem no pulmão devido a um pneumotórax. No âmbito neurológico e ortopédico, a jovem enfrentou traumatismo cranioencefálico, fratura exposta no braço direito e graves ferimentos também expostos na perna.
Durante os 14 dias em que esteve internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) — de um total de 30 dias de hospitalização no HSC —, as chances de sobrevivência relatadas pela equipe médica eram mínimas. Contudo, contra os prognósticos mais severos, a paciente respondeu gradativamente aos tratamentos.
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Após a fase crítica no Hospital Santa Cruz, a jovem foi transferida para o Hospital Beneficente Sinimbu para dar seguimento ao processo de reabilitação. Foi no ambiente de cuidados continuados que os primeiros sinais de recuperação funcional começaram a surgir. Com o apoio de fisioterapeutas e dedicação integral da família, a jovem voltou a se movimentar e pronunciou suas primeiras palavras durante o mês de maio, no Dia das Mães. A alta hospitalar ocorreu no início de junho, permitindo o retorno para casa.
Para garantir os cuidados exigidos na rotina de reabilitação, a mãe abdicou da própria rotina, dedicando-se exclusivamente à filha, que segue necessitando de acompanhamento contínuo e uso diário de medicações para controle da dor.
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Apesar dos avanços na recuperação neurológica e motora, uma nova complicação passou a afligir a família. O braço direito da jovem, que recebeu implantes de placas e parafusos metálicos (platina) para a correção da fratura, passou a apresentar secreção, feridas e sinais de infecção óssea. Segundo relato da mãe, há suspeita de rejeição ao material sintético e propagação do processo infeccioso, o que causa dores intensas na paciente e gera o receio de complicações mais severas, como a perda do membro.
A família busca a realização de uma cirurgia de raspagem (desbridamento) e avaliação especializada para conter o problema. A paciente passou por consulta no Ambulatório de Traumatologia no final de junho, onde foi diagnosticada a necessidade do procedimento. Contudo, a família aguarda o agendamento da internação. Por motivos de segurança e preservação, a identidade da jovem e de seus familiares é mantida em sigilo nesta reportagem.
A Secretaria Municipal de Saúde de Santa Cruz do Sul informou que a paciente foi avaliada no Ambulatório de Traumatologia em 30 de junho, ocasião em que foi emitida a Autorização de Internação Hospitalar (AIH) e solicitada a vaga via Central de Regulação. A solicitação ingressou no sistema regulador em 7 de julho e retornou ao Hospital Santa Cruz no dia 9 de julho, com classificação de urgência.
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A secretaria ressaltou que, conforme as diretrizes do Estado do Rio Grande do Sul, a gestão da fila de espera para esse tipo de procedimento é de responsabilidade dos hospitais habilitados, que operam dentro de um teto contratualizado de procedimentos de média e alta complexidade. O órgão destacou que segue acompanhando o caso junto à instituição hospitalar.
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Por sua vez, a assessoria do Hospital Santa Cruz explicou que, após a emissão da AIH, o documento é inserido no sistema Gerint (Sistema de Regulação Estadual), que organiza os pacientes que aguardam procedimentos eletivos e de urgência do Sistema Único de Saúde (SUS). O hospital reiterou que a convocação dos pacientes respeita a capacidade operacional e o volume mensal de procedimentos contratualizados.
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A instituição esclareceu que o tempo de espera do caso em questão decorre da alta demanda de procedimentos oriundos da porta de entrada, semelhantes ao primeiro atendimento prestado para a paciente em questão, e que extrapolam os quantitativos contratualizados com o hospital, bem como do fluxo de outros pacientes que também aguardam cirurgias diariamente na unidade. Por fim, o HSC informou que seu Núcleo Interno de Regulação (NIR), juntamente com a equipe médica, está empenhado em viabilizar o procedimento cirúrgico da jovem com a maior brevidade possível, considerando a classificação de risco e a disponibilidade assistencial, e colocou-se à disposição para acolher a família.
Paralelamente à recuperação da vítima, as investigações sobre as causas do acidente foram concluídas pela Polícia Civil. O inquérito policial apontou que o atropelamento do pedestre ocorreu em razão de uma discussão no meio da pista durante a madrugada.
O pedestre envolvido e sua companheira foram indiciados pelos crimes de homicídio culposo (quando não há intenção de matar) e lesão corporal culposa no trânsito. A conclusão policial entendeu que a conduta de transitar e discutir sobre a rodovia criou uma situação de risco determinante para a colisão da motocicleta. O processo foi remetido ao Poder Judiciário e ao Ministério Público para o prosseguimento das medidas legais, enquanto os indiciados respondem ao processo em liberdade.
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