Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil
Na residência da auxiliar de saúde bucal Aline Vargas, de 36 anos, a virada de ano é motivo de preocupação. Para a moradora do Bairro Capão da Cruz, os festejos ocorrem com uma certa normalidade até pouco antes do relógio marcar meia-noite. Isso porque o seu filho, Miguel Vargas Unser, de 11 anos, é severamente afetado pelo barulho. Diagnosticado com transtorno do espectro autista (TEA), ele precisa se isolar no quarto para escapar do ruído.
Aline conta que, em 2017, o filho teve uma forte crise ao escutar os fogos. “Não conseguimos nem cear com os familiares, pois acabamos indo para casa, pois era onde ele se sentia mais seguro”, conta. Desde então, a família tem optado por não ir a locais ou eventos que tenham fogos de artifício com estampido.
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Apesar do uso de artefatos assim ser proibido no Rio Grande do Sul desde 2020, os sons das explosões continuam a ser ouvidos na virada do ano. Aline pede àqueles que queimam fogos para pensarem nas consequências e terem compaixão das crianças e famílias atípicas. “Só quem é mãe atípica, assim como eu, vai saber como é triste ver o seu filho sofrendo e você não poder fazer nada, além de tentar acalmá-lo naquele momento”, afirma.
Éder Lemos, presidente da Luz Azul Associação Pró-Autismo, ressalta que muitas pessoas optam pelo uso de abafadores para amenizar os impactos dos estampidos. No entanto, nem sempre o equipamento é suficiente para minimizar as consequências. Por isso, a grande maioria das famílias se retira durante a celebração, festejando em um lugar mais isolado.
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Apesar de não ser contra os artefatos, Lemos pede que sejam utilizados de maneira controlada, ou sem estampido. Na tentativa de conscientizar a população, seu filho, João Afonso, de 12 anos, posou para uma foto segurando um cartaz no qual pede para não soltar fogos.
A psicóloga Tainan Garcia, especializada em desenvolvimento neuroatípico de crianças e adolescentes, explica que o barulho dos fogos pode causar crises intensas em indivíduos neuroatípicos. Isso inclui pessoas autistas que, muitas vezes, apresentam sensibilidade sensorial. Conforme a especialista, o som é percebido como ameaça real para alguns, gerando medo, desorganização, choro intenso, fuga e crises sensoriais.
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“Não é frescura, não é exagero. É o sistema nervoso reagindo a um estímulo que ele não consegue filtrar”, salienta ao reforçar a importância de respeitar as particularidades. Para evitar transtornos na virada do ano, Tainan sugere que as famílias se antecipem e expliquem o que vai acontecer. Menciona também o uso de abafadores de som e a criação de um espaço seguro, além de respeitar os limites das pessoas sensíveis. “É importante lembrarmos: empatia também é uma forma de comemorar.”
Os animais de estimação também são afetados pelo som dos fogos de artifício. A veterinária do Hospital Veterinário da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Ana Paula Backes Lisboa, detalha que cães e gatos possuem uma audição melhor que a dos humanos para as frequências mais altas e baixas. Assim, o estampido dos artefatos provoca estresse, de modo que eles podem interpretar o som como se fosse um ataque.
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Segundo Ana, alguns animais costumam ficar em um estado de crise de pânico. Outros podem permanecer parados em um canto da sala, enquanto há casos nos quais podem apresentar tremores, aumento na frequência cardíaca e até hiperventilar. Também são comuns as tentativas de fuga, o que pode gerar ferimentos. “Alguns animais podem se automutilar ou começar a vocalizar excessivamente”, afirma.
Já os pets com histórico de crise epiléptica podem sofrer convulsão, enquanto os que possuem alguma alteração cardiopata podem descompensar. No caso dos gatos, conforme a duração dos fogos, eles podem se esconder ou parar de se alimentar.
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Para evitar transtornos, a profissional sugere deixar os animais em um ambiente fechado, sem janelas ou grades, que proporcione segurança e conforto. Outra dica é colocar algodão dentro das orelhas para reduzir os estímulos sonoros. Ela sugere ainda deixar a televisão ligada com um som para distrair cães e gatos durante a virada do ano. Caso os bichinhos se escondam, Ana aconselha que os donos não tentem forçar uma interação. O uso de rastreador de localização também é recomendado, contribuindo nos casos de fuga.
Segundo a veterinária, existem medicamentos que podem ser utilizados. No entanto, ela recomenda que isso não seja feita sem a orientação de um profissional.
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