O Dia Internacional da Mulher (8 de março) se aproxima ensombrecido pela violência de gênero. Não passa um dia sem termos notícia de que, em algum recanto do Brasil, um homem matou a companheira ou ex-companheira porque “não aceitou o fim do relacionamento”.

Nunca é demais salientar os números: 2025 foi o ano com maior número de feminicídios desde que tal crime foi tipificado, em 2015. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam que 1.470 mulheres foram assassinadas nessas circunstâncias no ano passado. A média é de quatro mortes por dia. No Rio Grande do Sul, houve 20 casos só nos dois primeiros meses de 2026.

Enquanto prossegue a rotina macabra, muito se discute sobre as causas. Há certamente uma percepção de impunidade decorrente de leis pouco eficazes, com agressores que entram e saem da prisão e, ao sair, voltam a atacar. Os exemplos são inúmeros. Mas há algo ainda pior: a legitimação da violência e a culpabilização das vítimas.

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Enquanto muitos se revoltam com a covardia dos feminicidas, não falta quem considere tal crime “justa reação” a uma ofensa irreparável, como uma traição. Ou nem isso. Um caso ocorrido no mês passado em Itumbiara (MG), e que ganhou as manchetes nacionais, ilustra bem essa lógica perturbadora.

Foi um duplo infanticídio, não um feminicídio, mas o alvo principal era a mãe. Thales Alves Machado matou a tiros os próprios filhos enquanto eles dormiam, depois suicidou-se. Teria descoberto uma traição da esposa, com quem era casado há 15 anos, e decidiu que essa seria a forma “justa” de puni-la.

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O que causa estarrecimento, além da óbvia crueldade, foi a reação de parte significativa da chamada opinião pública: culparam a mãe pelo destino das crianças, como se ela tivesse puxado o gatilho. O matador foi apenas outra vítima.

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Assassinar crianças seria, então, uma consequência “natural” de ser traído? Nesses momentos, percebe-se que “civilização” é uma ideia incompreendida no Brasil. Este é um país em grande medida afundado na barbárie, disso não resta dúvida. E é esse consentimento tácito ou explícito, essa disposição nada incomum de justificar crimes hediondos que leva à repetição exaustiva dos mesmos absurdos.

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Se isso significa ser humano, talvez seja hora de nos transformarmos em outra coisa, menos abjeta. Uma árvore, quem sabe. No romance A vegetariana, da sul-coreana Han Kang (Nobel de Literatura em 2024), uma mulher infeliz deixa de comer carne e, aos poucos, vai se afastando de sua condição humana. Como se buscasse pertencimento no mundo vegetal.

Talvez fosse a sua maneira de dizer: não suporto, não quero mais isso. Chega.

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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