26 de Abril é o DIA DO GOLEIRO. Aqui, uma lembrança relativa à data, reciclada de um texto antigo, de um livro esgotado há décadas:
Não é de hoje a paixonite das garotas pelos jogadores de futebol. Vencedores, corpos sarados, roupas da moda, esses rapazes são vistos como belos e inteligentes, embora nem sempre se possa comprovar isso diante de um espelho ou por algum lampejo do olhar. Porém, os amores platônicos são muito generosos.
Na pequena cidade onde eu vivia então, havia dois times de futebol, quarta ou quinta divisão, mas, para nós, mais importantes que Grêmio ou Inter.
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Aos domingos, era Missa pela manhã, e futebol depois do almoço. Eu torcia por um clube e meu irmão pelo outro, de modo que, aos sabores domingueiros, acrescentávamos discussões e mesmo brigas feias, que faziam nosso maninho pequeno chorar, já que ele nem sabia, ainda, falar.
A certa altura do campeonato, o meu clube contratou um goleiro de fora, da terceira divisão, talvez. Foi o primeiro, na cidade, a atuar com luvas. Chamava-se Solano e era espetacular: após uma bela defesa, dava cambalhotas, duas ou mais, segundo a dificuldade da jogada.
Defendia bolas que até Deus – ali representado pelo padre José – chegava a duvidar. Lá onde a coruja dorme, eis o lugar preferido de Solano para salvar-nos dos golos inimigos. Foi assistindo a tais malabarismos que aprendi, por exemplo, o que era uma linha oblíqua, embora a professora de Desenho tivesse tentado me explicar, bem antes.
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Pois o Solano, perfeito em campo, era também lindo. De modo que eu e minhas melhores amigas nos apaixonamos por ele, tornando-se, Solano, nosso assunto predileto. Meu irmão, apoiado por seus despeitados colegas de clube, dizia que ele tinha barriga, que era “frangueiro” e mais todo o tipo de calúnia. Em vão.
Nas noites de domingo, cheirando a banho e sabonete, íamos até à frente do cinema só para ver Solano chegar, com suas roupas elegantes e os cabelos cobertos de brilhantina. Ele andava, antes de entrar, andava de um lado para outro, exibindo sua figura, aquele gato. Nós, meninas quase invisíveis, esperávamos que ele miasse para nós.
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Jamais aconteceu.
Obrigada por me lerem.
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