Um dos temores de quem vai fazer concurso é se deparar com a necessidade de escrever uma redação. Há dois grandes desafios: conhecer o tema e saber escrever. É muito comum os professores serem invocados como profetas para tentar sugerir ou supor qual será o tema da redação do vestibular, do Enem ou de qualquer outro certame. Esse desejo perpassa milhares de salas de aula e, eventualmente, em alguma delas o tema chegou a ser abordado, o exercício foi realizado, o que tornou o sonho um pouco mais próximo de um bom resultado.
Por algumas décadas, coordenei a equipe de avaliadores de redação do vestibular da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Duas diretrizes fundamentais nos governavam: o domínio sobre o tema e o desempenho linguístico. Conhecer o assunto, ter algo relevante a dizer sobre ele, argumentar com consistência e coerência e apresentar bom domínio da língua é que balizavam o texto de excelente a péssimo.
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Dificilmente alguém que dominava com segurança o assunto, escrevia mal. O domínio do assunto vem da leitura, do interesse em acompanhar os mais diversos debates da atualidade, um mínimo senso crítico que ultrapasse as banalidades rasteiras das redes sociais, a difícil aprendizagem de sair julgando tendo ouvido apenas um lado, enfim, interessar-se por questões que vão desde a mortandade de peixes do riacho da aldeia até os grandes dramas das guerras e das fomes universais. Dom Quixote é que dizia que se interessava por ler qualquer papel que encontrasse na rua. Assim deve ser.
O bom desempenho linguístico provém do estudo da língua, da leitura atenta de textos bem escritos e, acima de tudo, de muito exercício. Quem praticamente pouco ou nada exercitou nesse sentido, não é na hora da redação do concurso que, num passe de mágica, vai se salvar. Para um bom avaliador, a primeira frase de um texto já prenuncia o vazio ou a consistência que se seguirá. Quem nunca se preparou para correr dez quilômetros, aos cinquenta metros se dá conta de que só o fracasso lhe restará.
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Na escola, os temas propostos não precisariam apenas da indicação dos professores de Português. Por que as demais áreas não podem sugerir e munir os estudantes com conteúdo para escrever? Ricas propostas podem advir da Biologia, da História, da Geografia, da Química, contribuindo para um aprofundamento dos assuntos, provocando valiosas reflexões, tornando assim a redação não apenas um exercício vazio, porém uma forma de consolidar conhecimentos, de proporcionar ao aluno a autoridade de autoria do que está escrevendo.
Nesse debate sobre redação, não podem estar ausentes o equilíbrio e o bom senso na avaliação. Se, por exemplo, o aluno escreve um texto qualificado, no entanto com dois ou três erros de grafia, de regência ou pontuação, que predomine com absoluta primazia o primeiro aspecto. O avaliador não deve ser um caçador de erros, mas um parceiro na busca do melhor e mais consistente dizer.
Depois de muito tempo de magistério, descobri que o mais precioso que se pode deixar na lembrança do aluno é que com o professor aprendeu a ler e escrever, em qualquer disciplina, cada passo em seu nível. Na vida profissional futura, nenhum aluno escreverá redações, mas seus textos, em qualquer área, serão bem escritos porque na escola alguém ensinou a redigir.
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