São 20h17 do dia 18 de janeiro de 2026. Quarto 46 da Ala Tipuanas do Hospital Ana Nery, em Santa Cruz do Sul. Escrevo estas palavras sentado em um sofá, ao lado do leito onde está meu pai, Marco Antônio Brocardo Malheiros. Pela manhã sofreu uma hemorragia severa devido a um câncer. Agora, descansa, enquanto o observo – e escrevo. Recordo com tristeza e tranquilidade o que vivemos e o que não vivemos. É um pedaço de mim, da minha história; coisas que só ele viu e tem as respostas, vai deixar esse plano. Já sinto o sufocante vazio.

Mesmo que a morte seja inevitável, ninguém está preparado para a materialização desse momento. Não é possível prever o que irá sentir. E estou tentando lidar com isso aqui, agora.

Ele fala algumas palavras, eu paro o texto e vou ver o que é. Ele me olha assustado, como um estranho. Volto ao sofá. Ele recomeça. Percebi que conversava, mas não comigo. Parei de “atrapalhar”. Fico observando, triste.

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20h25: nova hemorragia e acompanhei resiliente os últimos minutos do meu pai neste plano. Foi duro. Pouco depois, tudo findou. Ainda não consegui assimilar o que vi, os sons, a sensação, o silêncio. Não houve tempo.

Três dias depois da despedida, a irmã dele, Lidia Helena Brocardo Malheiros, sofre uma fratura devido à metástase de um câncer. A situação se agravou muito. Quase um mês de hospital e muita correria. Após a partida do meu pai, sou o único parente vivo dela. Temos uma longa história familiar. Aliás, pelo parentesco sanguíneo, só me restaram ela e minha mãe.

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São 17h28 do dia 4 de junho, feriado. Estou novamente no Hospital Ana Nery. Sentado no sofá, enquanto assisto, triste, mais um pedaço da minha história se preparando para deixar esse plano. É duro. Muito duro. O rondar da morte nos faz repassar a vida e ressignificar memórias e atitudes. Não cabe nessas linhas o tamanho daquilo que sinto e passo desde o dia 16 de março, quando meu pai deu entrada na casa de saúde. 

Aproveito e agradeço publicamente à direção do Hospital, Dr. Eduardo Sonda, Mario Weber e Mariana Motta pelo acolhimento. Um time qualificadíssimo na enfermagem, desde o PA até as alas Jacarandá e Tipuanas. Assim como minhas amigas cuidadoras que são fundamentais nesse processo, para que eu pudesse, minimamente, trabalhar; assim como a direção da Gazeta e ouvintes que têm sido sensíveis a minha ausência. Gratidão a todos. Agora são 20h50 do dia 5 de junho e sigo aqui, segurando a mão dela.

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Lucas Malheiros

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Lucas Malheiros

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