Após 84 anos de tentativas, eu e uma amiga finalmente conseguimos nos encontrar para um bate-papo, num tradicional restaurante do centro de Santa Cruz. Enquanto colocávamos os assuntos de 84 anos em dia, eis que uma senhora surgiu, no corredor. Sorriu, parou ao meu lado e disse: “Você me lembra muito uma amiga minha, lá de Pelotas”.
Confesso que gostei da coincidência, pois tenho um carinho especial pela terra do doce.
E ali mesmo, ela contou brevemente a sua história e, sem hesitar, convidou para que eu fosse visitá-la em seu novo apartamento, também na área central da cidade.
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Para minha surpresa, no entanto, ela cantou o ENDEREÇO COMPLETO – nome da rua, número do prédio e do apartamento –, dizendo que era só aparecer quando quisesse. Sem pestanejar, a idosa repassou todas aquelas informações a uma estranha. Eu, no caso.
Naquele instante, se houvesse qualquer butiá nos meus bolsos, certamente teria caído. Fiquei em choque, preocupada com a falta de cuidado da senhora ao repassar uma informação tão confidencial. Tudo bem que eu não era motivo de preocupação, mas e os demais? A quem ela também já havia repassado a senha do cofre?
Pode parecer exagero, bobagem de quem ainda precisa aprender a levar a vida com mais leveza… E pode ser, também, que aquela senhora esteja lendo esta coluna, rindo da situação, na companhia de alguma visita que tenha conhecido hoje mesmo, no calçadão.
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Por falar em voz da experiência, há uma outra senhora, hoje minha cliente na área da beleza. Toda vez que visito sua morada, levando alguma encomenda, há um causo novo me esperando. Entre eles, eis o dito que mais gostei até então: “Minha mãe sempre dizia que coisa cara a gente compra para usar com a gente. Para limpar o chão, aí sim se compra coisa barata”. E, desde então, nunca mais parei de pensar nisso.
Mas por falar em coisa cara. Noites atrás estava numa pizzaria, saboreando as delícias da vida, quando notei um rapaz entrar no recinto. E o mais bonito: carregando um ramalhete de flores. Um embrulho dourado com uma hortênsia azul e duas rosas cor-de-rosa. Para minha sorte (e azar da minha ansiedade), o dito cujo acomodou-se na mesa ao lado. Tudo indicava, é claro, que estava esperando pelo seu par. E ali começou o meu martírio.
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Os minutos passavam, passavam e passavam, mas nada da companhia chegar. Eu não conseguia mais deixar de acompanhar a saga do moço. Entre uma fatia e outra, minhas indagações se multiplicavam: “quem ele está esperando?”, “será que a pessoa não vai vir?”, “que horas eles marcaram?”, “será que ele é um escroto e hoje vão dar o troco?”, “será que ele é daqueles guris inocentes e bondosos, prestes a levar o primeiro e decisivo fora da adolescência?”. Jornalistas e suas curiosidades…
Naquela altura do campeonato, possivelmente eu já estava mais interessada no jantar dele do que ele mesmo. Faltou pouco para eu ir lá perguntar o que estava acontecendo. Imagina ter que pedir mais uma pizza só para não precisar ir embora antes do desfecho? Ok, tudo bem que não seria tão ruim assim, mas POR QUAL MOTIVO DEMORAR TANTO PARA CHEGAR?
Eu já estava vendo lágrimas onde não existia; já estava elaborando mais uma crônica de desamor (o que eu domino, de certa forma); já estava preparando o textão sobre responsabilidade afetiva até que… A COMPANHIA CHEGOU! Ufa!
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E o melhor: também carregando um presente!
Dali por diante presenciei uma enxurrada de selfies de uma moça sorridente, apaixonada pelas flores, pela gentileza, pelo romantismo, pela pizza (e acho que pelo guri também).
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Por falar em presente, lá estava eu, numa das filas do caixa do supermercado. Confesso que, de vez em quando, até gosto de ter que esperar. Pelo menos assim descanso um pouco. Eis que então, em meio aos meus olhares para o além, as falas da mulher à minha frente chamaram a atenção. “Pode ver. Eu só compro o básico. Não tem nada de besteira. É só o que eu preciso mesmo”. E enquanto ela discursava, a moça do caixa não parava de registrar caixas de bombons, bolachas e outros chocolates. Desde esse dia, eu tenho refletido sobre o que é essencial pra mim.
E por falar em supermercado, se você está entediado, ou precisando de uma história, vá aos corredores. Não tem como sair de qualquer um deles sem um registro interessante de vida. E foi numa dessas que eu presenciei: o menino cometeu alguma peripécia e caiu no corredor. A partir dali, pai, mãe e filho (pelo menos presumi que fossem) deram início a uma onda de risos da qual até fiquei com vontade de participar. O homem chegava a segurar a barriga, de tanto gargalhar.
Que nosso 2026 siga assim: repleto desses momentos simples que podem render boas histórias. E memórias, é claro!
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