Cultura e Lazer

Três homens e um farol: Leonardo Brasiliense prepara lançamento de “Outras guerras”

Quem está familiarizado com o universo da navegação saberá bem o que significa um farol enquanto referência para evitar desvios de rota ou catástrofes. Em Outras guerras, romance que o escritor Leonardo Brasiliense lançará em abril, um farol no litoral Sul gaúcho cumpre a mesma função, mas não só. Ele é uma espécie de ilha na qual, por cerca de três meses, três homens se isolam em busca de redenção. Também eles parecem estar à procura de um porto em sua fuga de um passado que os deixa desconfortáveis. A obra encontra-se em pré-venda no site da Companhia das Letras e na Amazon, e estará nas livrarias a partir do dia 14 de abril.

É o terceiro romance que Brasiliense publica pela Companhia das Letras, após Peixe estranho, de 2022, e Roupas sujas, de 2017. Em 2010, lançara pela mesma editora o volume Três dúvidas, composto por três novelas. Naquele mesmo ano, vale lembrar, Leonardo foi o escritor homenageado da Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, sendo que na época residia na cidade (na mesma edição na qual o evento literário teve como patrono o baiano João Ubaldo Ribeiro). Em 2019, foi a vez de o próprio Brasiliense ser o patrono da feira.

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Natural de São Gabriel, Leonardo residiu em Santa Cruz de 2007 a 2011, atuando como funcionário da Receita Federal. Depois foi transferido para Santa Maria, onde mora atualmente, e onde se formara em Medicina pela UFSM. Além da literatura, dedica-se também à música e à fotografia. Mas é com seus livros que conquistou ampla projeção nacional, realçada com o Jabuti, o principal prêmio atribuído em realidade nacional, pelo seu livro Adeus conto de fadas, de 2006. Esse título foi vencedor ainda do Açorianos, destaque em âmbito estadual.

Brasiliense obteria um segundo Jabuti, desta vez por Três dúvidas, em 2010, enquanto Roupas sujas foi finalista tanto do Jabuti quanto do Prêmio São Paulo de Literatura. Com seus 13 livros já publicados, e aos 53 anos, ele se firma na condição de um dos principais autores contemporâneos da literatura brasileira, introduzindo em seus enredos, em narrativas curtas ou longas, um forte aspecto psicológico. Que, por sinal, se salienta nas trajetórias dos três personagens centrais de Outras guerras. Homens que, se estão encarregados de zelar por um farol, para que permaneça como guia náutico confiável, estão, eles próprios, à procura de um porto na deriva de suas vidas.

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“Tudo é presente, tudo é urgente, tudo se interliga”

Já na expectativa pela chegada às livrarias de seu novo romance, Outras guerras, o escritor Leonardo Brasiliense projeta agenda movimentada para o ano. Em entrevista à Gazeta do Sul, ele antecipa a divulgação desse novo trabalho.

“Em ano de lançamento de livro, a ‘vida literária’ se aquece, certamente. Há sessões de autógrafos, há bate-papo em clube de leitura, há entrevistas…”, frisa. Mas ressalta que em função de seus compromissos profissionais acaba tendo menos disponibilidade para participar de eventos. “Até porque já faz tempo que no Brasil esses eventos literários exigem que os escritores tenham CNPJ, e eu não sou uma empresa. Sou um carinha que acorda cedo e escreve por três ou quatro anos e depois manda para a editora e fica roendo as unhas até sair a aprovação do livro, uma pessoa bem física mesmo.”

Em relação a Santa Cruz, a manifestação de estima é total: “Santa Cruz está sempre comigo”, diz. E faz questão de citar que tem obras do artista santa-cruzense Joe Nunes próximas em sua rotina.

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Entrevista

Leonardo Brasiliense
Escritor

  • Estás com novo romance por chegar às livrarias, Outras guerras, pela Companhia das Letras. Qual o motivador para ambientá-lo no litoral Sul do Estado? Como é tua relação com essa área?
  • Em 2020, quando eu estava acabando de escrever o romance Peixe estranho (publicado pela Companhia das Letras em 2022), um colega de serviço me mandou uma reportagem do programa Fantástico sobre o Farol do Albardão, que fica entre Rio Grande e Chuí. O repórter entrevistou marinheiros que trabalham no farol e moradores da região, e duas coisas me fisgaram: o isolamento (lá só se chega pela areia, não há estrada, e a comunicação é apenas por rádio) e o trabalho constante daquelas pessoas para evitar que as casas e as instalações sejam soterradas pela areia (pois o vento forte não cessa). Naquele momento, eu soube que tinha um embrião de projeto nas mãos, que precisava contar uma história juntando esses dois elementos. Eu já conhecia a praia do Cassino, já a visitara por duas ou três vezes, já havia sentido na pele aquele vento e já havia me assustado com a imagem da praia infinita. Revivi tudo. Não é fácil descrever o que se sente, mas com certeza não é confortável. E desconforto é tudo o que um escritor precisa para começar um livro.
  • Ainda que o litoral sul gaúcho por si só tenha apelo, pelo isolamento, há forte carga psicológica nos três personagens principais de Outras guerras. Gostas de lidar com os temas em torno da psiquiatria e da psicanálise, não é mesmo?
  • Minha formação acadêmica toda orbitou em torno da psicanálise, é inegável que isso tenha alguma influência no modo como filtro a realidade (porque a realidade que percebemos nunca é crua, e sim uma interpretação de nossos aparatos cognitivos e afetivos). Mas, acima de tudo, as escolhas do artista são estéticas. E nessas escolhas eu pendo sempre para os temas atemporais. Me interesso pelas questões cotidianas, sim, me interesso: geopolítica, inflação no supermercado, saúde pública, que pedais de fuzz o guitarrista Scott Holiday usou no último disco da banda Rival Sons… Só que a vontade de contar histórias só vem quando a história possa ser relevante tanto no Brasil do século 21 quanto na Inglaterra vitoriana. E a psicanálise de fato lida com o inconsciente e o desejo, forças que não conhecem passado ou futuro: tudo é presente, tudo é urgente, tudo se interliga.
  • Os três personagens de teu novo romance lidam com os “fantasmas” do passado. A partir deles, tocas em questões sensíveis da sociedade atual?
  • Para mim, esse é maior ensinamento da psicanálise, da história, da física quântica e da gastronomia (risos): as grandes questões da sociedade atual são sempre as questões sensíveis da condição humana, mesmo que mudem os termos, a roupagem. Um personagem sob o microscópio impiedoso do escritor acaba representando toda a raça humana (é mais poético falar raça do que espécie, não é?). E o que mais diferencia essa nossa raça dos outros animais é a inserção no tempo.
    Uma pessoa nunca vive apenas no presente, sua dor tem causa e uma esperança de cura, ou uma desesperança, o que é pior. Um animal só tem dor, aqui e agora, ponto final. Esses personagens do Outras guerras vivem as consequências de seus passados e negociam com o futuro cada um à sua maneira: um foge de algo, outro persegue algo, e para o terceiro algo já aconteceu, ele é um penitente. No farol real, costuma haver apenas dois marinheiros, mas eu precisava de um terceiro personagem para completar essas possibilidades de relação com o passado e o futuro. E como meu farol é apenas baseado no Albardão, e não exatamente o Albardão, tomei essa liberdade poética.
  • Fale-nos um pouco de tua rotina profissional na atualidade. Que espaços a literatura e a arte ocupam nela, ou tendem a ocupar nos próximos anos?
  • A arte sempre pontuou minha interação com o mundo. Minha mãe conta que eu desmaiei com a notícia da morte do Elvis, aos 4 anos de idade (era fã); os filmes da “Sessão da Tarde” eram obrigatórios na infância toda; a literatura veio depois, acho que, pra valer mesmo, no começo da vida adulta. Não tem como retirar a arte sem todo o resto desmoronar. Já a parte de ofício é acidental, está aí enquanto durar a necessidade, e pode ser a escrita, pode eventualmente voltar a fotografia… Já a música, esta acho que é mais arraigada, impregnada. Não foi planejado o início, tampouco será o fim. Talvez eu me vá antes.
  • Tens vínculo já de longa data com Santa Cruz. Foste homenageado da feira do livro em 2010 e depois patrono em 2019. Que memórias ou lembranças mais permanecem de tua presença nesse evento literário?
  • Conheci muita gente que talvez nunca tivesse conhecido se não fosse a Feira do Livro de Santa Cruz. No caso do João Ubaldo, a amizade perdurou, trocávamos e-mails e ele me dava dicas profissionais e tais. O que mais me impressiona é o alto nível da feira: o elenco de escritores que já passou por aí é invejável para qualquer outra, de qualquer lugar, independentemente do tamanho da cidade. E a habilidade que vocês têm para manter contato sempre com tanta gente talentosa, de qualquer lugar do país e do mundo…
  • E como é tua relação com Santa Cruz atualmente? Ainda visitas a cidade?
  • Tenho ido pouco a Santa Cruz, especialmente depois da pandemia (acho que tenho ido pouco a qualquer lugar depois da pandemia, e depois vieram as enchentes, parece que a vida ainda não retomou o ritmo normal em nosso Estado). Mas Santa Cruz está sempre comigo, nas lembranças, nas amizades, e até fisicamente: tenho aqui na estante atrás do meu computador dois quadrinhos do artista santa-cruzense Joe Nunes. Morar aí por três anos moldou um pouco do que eu sou, não passou em branco.
  • O que tens lido ultimamente? Como tens acompanhado a cena literária e o que mais te chama a atenção?
  • Nunca fui ávido por novidades. Me formei leitor com os clássicos, e os contemporâneos sempre caíram em minhas mãos por indicação de alguém ou por me chamarem a atenção na prateleira da livraria (sim, ainda gosto de livraria física). Como essa Ottessa Moshfegh, que li há pouco: estava já saindo da livraria e vi o título, o mesmo de um filme que vira duas semanas antes na Netflix, Meu nome era Eileen; comprei, li, gostei, recomendo… Mas agora já estou com um Thomas Mann na cabeceira, é a vida. Se escritores como eu dependessem de leitores como eu, estávamos roubados. Então, acredito na acomodação espontânea dos desejos e que há lugar sob o sol para todos.

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Romar Behling

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