Na estrada que leva a Gramado Xavier, na zona serrana do Vale do Rio Pardo, um minimercado é parada quase obrigatória de viajantes ou moradores locais. Com características típicas de interior, pequenino e aconchegante, o lugar oferece atendimento personalizado, em especial, aos clientes de todo o dia. Mas tem uma regra curiosa: ali não se deve falar em política.
Arranca-rabos entre defensores de Temer e Dilma ficam do lado de fora. Discussões sobre as eleições municipais devem acontecer bem longe. E o motivo, segundo os proprietários, Isabel Oliveira Castro e João Laerto de Oliveira, é justo: eles querem evitar brigas. “Não queremos desmerecer o assunto, tampouco dizer que não é importante falar sobre política. A questão é que o pessoal estava se ofendendo muito por aqui”, conta Isabel.
Faz dois meses que o casal decidiu colar dois cartazes nas paredes externas do minimercado, para que o recado seja visto antes de o cliente entrar. Segundo a comerciante, o problema começou assim que foi dada a largada para um campeonato de futebol local, em um campo ao lado. Era nos intervalos ou antes mesmo de a partida começar que a confusão ganhava forma. “Não chegou a ocorrer briga física, mas era muito bate-boca. O pior é que às vezes eles acabavam até nos envolvendo na discussão. Foi aí que decidimos elaborar o cartaz”, explica Isabel.
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Preocupado, Oliveira não quis ofender a clientela ao divulgar o recado. Foi por isso que evitou usar a palavra “proibido”. Nesse embalo, ele se deslocou à área urbana da cidade, pediu a ajuda de uma funcionária do Sindicato dos Trabalhadores Rurais – onde imprimiu o cartaz – e tratou de pensar em uma mensagem firme, educada e que fosse direto ao ponto: “Por gentileza não falar em política. O proprietário agradece”.
A decisão acabou recebendo elogios. Até hoje, muitos viajantes que param no local se surpreendem com o aviso pitoresco. “Não sei se vale um parabéns. Eu até estava com medo da reação das pessoas, mas foi a solução que encontramos”, comenta Oliveira. Aliás, para ele e a esposa é importante, sim, discutir sobre a situação política do País e do município, além de debater as deficiências nas áreas da saúde, educação e agricultura. “Eu acho injusto com aqueles que sabem conversar pacificamente, sem ofender partido A ou partido B. O recado só foi dado para evitar algo mais sério.”
Fica até quando?
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A poucos meses das eleições municipais, Isabel e João Laerto de Oliveira não sabem até quando os cartazes devem permanecer fixados no estabelecimento. A ideia inicial era deixá-los por ali até que o campeonato de futebol chegasse ao fim, pois trata-se do período em que o minimercado recebe mais movimento. Com a chegada da campanha eleitoral, fase de ânimos mais acirrados, eles repensam a ideia. “Vamos deixar e ir sentindo o clima. Cidade pequena você sabe como é, a política não é muito fácil, não”, diz ele.
A julgar pelo comportamento observado nos últimos dias, o aviso vem apresentando resultado positivo. “Nunca mais presenciamos nenhuma discussão. Acho até engraçado que às vezes um que outro puxa o assunto, mas daí vão lá pra fora”, finaliza Isabel, em tom divertido. A expectativa dos comerciantes é que as discussões por lá se acalmem e que, em um mundo ideal, se possa conversar abertamente sobre esse assunto que pauta o cotidiano e rege a vida de milhões de brasileiros.
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