Em meio ao cantar dos pássaros, do movimento da água soprada pelo vento junto ao açude e de uma grande variedade de plantas, a sobradinhense de coração, Marta Passinato de Lima, 57 anos, dá vida a um sonho. E é assim, como “a realização de um grande sonho”, que ela descreve o seu “Pedaço do Céu”, nome dado ao empreendimento que surgiu de uma de suas maiores paixões: cuidar das plantas.
Natural de Selbach, Marta mudou-se ainda criança para a cidade de Campo Novo, no noroeste do estado. De família com raízes na agricultura, auxiliava os pais especialmente no plantio de soja, trigo e milho. A principal atividade desempenhada antes do destino lhe trazer a Sobradinho foi a produção leiteira.
Casada com Paulo de Lima e mãe de Vinicius e Luiza, com a oportunidade de trabalho do marido, a vida os trouxe para a terra do feijão, na Região Centro Serra, há quase 25 anos. Como atividades, Marta realizou por anos o trabalho em pátina, técnica de pintura em móveis, que também passam por um processo de lixamento, dando naturalmente aos itens um aspecto visual mais rústico e envelhecido, e produzia bolachas caseiras.
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Mas, o amor pela natureza e, especialmente pelas plantas, já estava enraizado em sua trajetória. Dando sequência ao que viu e aprendeu com sua mãe e avó, cada flor ou muda da árvore não é apenas mais uma, mas sim uma história. Seu interesse pela biologia, com ênfase na botânica, a levaram a pesquisar cada vez mais sobre a área.
Com a aquisição de uma área no Bairro Vera Cruz, próximo à residência, a família ganhou um novo espaço de lazer. Contudo, antes de se tornar o recanto que é hoje, foram necessárias muitas horas de trabalho e planejamento. O local se transformou completamente, ganhou cores, ganhou vida.
Primeiro, conforme recorda Marta, o trabalho do marido se concentrou na abertura do açude, aproveitando as vertentes do espaço, um sonho dele também. Enquanto isso, o serviço no entorno era iniciado, com o plantio das primeiras árvores frutíferas e arbustos. Uma construção em estilo rústico virou ponto de encontro da família. O local se tornou um paraíso para eles, que passaram também a receber os amigos. “Eles já nos incentivavam, dizendo que precisávamos abrir para que outras pessoas também pudessem conhecer”, revela a artesã.
A dedicação da família e o cuidado de Marta com as plantas que a cada mês floresciam no espaço, deram a ela uma nova motivação. “Cada plantinha tem um sentimento especial, porque tudo foi sendo trazido, o que já tinha aqui era a água, o mais importante. Reflorestamos o espaço, que foi mudando de cenário”, ressalta.
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O que ainda era um passatempo, ao ganhar ou adquirir as mudas e plantar, se tornou a sua rotina diária. “Tudo começou com as orquídeas, com as quais eu e minha mãe temos uma coleção pequena, e as suculentas.”
Com o incentivo constante dos familiares, em um domingo de Dia das Mães, ganhou de seu filho Vinicius um milheiro de potinhos para as suculentas. “Ele me disse: ‘Mãe, é para ti começar o teu negócio’. Deixei guardado por seis meses antes de começar a plantar. Eu e minha mãe Sélia já íamos muito em feiras e sempre trazíamos para adornar a casa, os jardins ou aumentar a coleção. Meu filho também percebeu, pois eu já fazia arranjos e usava a criatividade na hora de mesclar as suculentas, então me incentivou a fazer para vender”, conta Marta.
A primeira feira da qual participou como expositora, foi a convite de Juli Moraes, na época proprietária do Café Mistura Fina, uma das incentivadoras, assim como demais integrantes da Casa da Cultura e da Secretaria de Educação, Cultura, Turismo e Desporto de Sobradinho. Dali em diante o trabalho com as plantas não parou mais, e as encomendas foram se ampliando, seja para presentear, para decorar o lar ou para marcar datas especiais. “Na função das suculentas, procurando informações sobre melhor cultivo, substratos, adaptação das plantas, comprei um curso e nele a professora ensinava a fazer kokedamas. Muito curiosa, fui fazer. E depois que faz a primeira, não para mais. É um amor, uma beleza, é uma maravilha, gostoso de fazer, e sem contar que é um trabalho manual, artesanal, tu colocas a tua energia e o teu sentimento ali. É muito bom”, destaca Marta.
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A divulgação se ampliou com as plataformas digitais e no boca-a-boca, após Marta passar a receber visitantes no seu refúgio, inaugurado em setembro de 2021. “Nunca sonhei que um dia pudesse se tornar um negócio. Quando fiz a inauguração, me surpreendi, pois vendi muito naquele dia e as pessoas começaram a vir, e isso foi se espalhando, a rede foi aumentando. No início, tinha apenas um espaço físico, que era onde a família se reunia, e muitas flores e demais plantas no entorno. Fizemos então uma estufa para as suculentas, de produção própria e com práticas naturais de cultivo, e após ampliamos o espaço já existente, aproveitando de móveis de demolição, levando para este estilo mais rústico. Assim construímos a casa de flores, pois queria um local com cara de casa”, revela Marta, que hoje vê as netas também usufruírem do espaço, que conta ainda com o pomar iniciado em 2015.
Com o olhar artístico de Marta, cada cantinho virou um cenário a se admirar, e a registrar, na mente e em muitas fotografias. “As pessoas vêm conhecer, seja pelas kokedamas, seja pelo ambiente, para se desconectar, e há muita procura para ensaios fotográficos e encontros como os de fim de ano”, ressalta. As visitas ao Pedaço do Céu Suculentas podem ocorrer diariamente, exclusivamente sob agendamento, pelo telefone/WhatsApp (51) 99501-2845.
A artesã foi se especializando no trabalho com kokedamas, buscando novas formações e participando de feiras pelo estado, onde expõe e também aprende. “Sou pioneira na região a trabalhar com a técnica das kokedamas (que significam bolas de musgo), já tendo ministrado oficinas. Já fiz mais de 6.500 kokedamas, de tamanhos mini a maxi, e tenho todas elas cadastradas. É uma técnica maravilhosa, desenvolvida pelos japoneses, com a qual a maioria das plantas se adaptam, sendo a kokedama um cultivo ecológico e sustentável, que substitui o vaso plástico. Consiste em envolver as raízes e o substrato (terra) da planta em uma bola de musgo, causando menos impacto ao meio ambiente. Já testei mais de 250 espécies e são poucas que não se adaptam. Com o meu cultivo, vou fazendo meus testes, observando como a planta se adapta melhor, qual o sistema de luminosidade e de rega, até para orientar os clientes no cuidado, que é fundamental”, salienta, mencionando que seus cultivos, tanto das suculentas quanto das kokedamas, são ecológicos, sem uso de defensivos e adubos químicos.
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Ao unir seu amor pela natureza, pelas plantas, agricultura e artesanato, Marta se diz realizada. O cuidado e o trabalho são diários, e há ainda outros projetos para acrescer ao espaço que já é um destino turístico. “É prazeroso ver as pessoas chegarem e dizer: ‘Que energia boa tem aqui, que bom ficar aqui’. Isso não tem preço. É a realização de um sonho, realizado aos poucos. E se você tem um sonho, começa com o que você tem, porque o tempo vai passar do mesmo jeito. Futuramente, você irá colher os frutos.”
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