Ele tem 91 anos e um pique de dar inveja. Independente, não precisa de ninguém para se deslocar aonde deseja. Um fim de semana que outro, por exemplo, pega o carro e vai até Porto Ferreira, balneário onde tem uma casa de lazer. Quando está em Santa Cruz, acorda, liga o rádio – faz questão de estar sempre bem informado – e depois de um café da manhã reforçado, dá início à restauração de carros antigos, um dos seus principais hobbies. Simpático que só ele – os olhinhos chegam a ficar pequenos por causa do sorriso estampado no rosto –, seu Olintho de Oliveira contagia. Vai ver, esse é um dos motivos que fizeram desse senhor um dos taxistas mais conhecidos no município. As outras razões pela fama, é ele mesmo quem ressalta. “O cliente bem atendido sempre volta. Esse foi o legado que procurei incorporar no meu trabalho”, comenta todo orgulhoso.
E o legado desse santa-cruzense passou de geração para geração. Hoje, três netos também são taxistas. E mais: trabalham no mesmo ponto adquirido pelo avô ainda em 1978, o Charrua, hoje Praça da Bandeira. “Para mim, é uma satisfação muito grande enxergar ‘gente que é da gente’ tocando esse negócio que me trouxe tantas alegrias. Me sinto plenamente realizado”, diz. Mas a sua história com os carros e passageiros é bem mais antiga. Começou em novembro de 1954, quando o termo “táxi” nem havia chegado em terras brasileiras – falava-se em “auto de praça”.
“Ali o sol começou a brilhar. Comprei um Ford 1941, reformei e comecei a circular pela cidade.” Com memória de dar inveja, seu Olintho lembra com precisão dos detalhes. Da numeração da placa – 156718 – à rotina de ligações recebidas através do telefone de manivela. “A cidade era pequena, então todo mundo se conhecia. Foram décadas de muito gosto pela profissão”, relembra.
Publicidade
A dedicação de seu Olintho, aliás, rendeu-lhe até prêmio. Em 1981, recebeu pela Prefeitura de Santa Cruz a medalha de motorista-padrão, acompanhada de honra ao mérito na qualidade de motorista profissional de táxi. “Foi um dia muito emocionante. Vi o reconhecimento do meu trabalho”, lembra, enquanto mostra o documento emoldurado e a medalha bem guardada dentro de um saquinho plástico.
E dessa forma, no embalo das memórias acerca dos milhares de quilômetros rodados não só em Santa Cruz do Sul, mas nos municípios vizinhos, seu Olintho não tem dúvidas: “Se em outra encarnação eu voltar, quero ser taxista”.
Publicidade
Além de profissional, um paizão
Pai de Carlos Moacir, 66, Isis de Oliveira, 64, Maria de Lurdes da Rosa, 54, filha adotiva, e Antônio, que faleceu em 1986, Olintho de Oliveira também assumiu a criação do neto Marco, 33 (filho de Antônio). De família humilde, o motorista, quando ainda nem havia chegado à maioridade, fazia de tudo para ajudar os pais.
Segundo ele, a família morava no interior de Encruzilhada do Sul, em Linha Serrinha, e decidiu se mudar ao município vizinho em busca de mais oportunidades. “Minha mãe contava que lá quase não havia assistência médica, tanto que uma irmãzinha minha faleceu quando estavam buscando atendimento.” No ano em que completou idade para trabalhar, ingressou como estafeta em uma fábrica de tintas. Um ano depois, aos 14, tornou-se torneiro mecânico. “Consegui ir bem no ofício, tanto que adquiri um terreno e fiz uma casa para meus pais”, lembra. Olintho é viúvo de Maria Lurdes Tumé de Oliveira, tem 11 netos e três bisnetos.
Publicidade
“Hoje eu sou o conselheiro”
Seu Olintho cumpriu sua missão enquanto taxista até completar 84 anos. E só parou porque os filhos, já preocupados com o avançar da idade, sugeriram que era hora de descansar. Depois do “aposento” do trânsito, tratou de cuidar da administração do ponto da Praça da Bandeira, que hoje conta com cinco táxis e nove motoristas. “Toda noite eu dava uma passada lá para dar uma controlada”, lembra.
Com o passar dos anos, o condutor foi repassando os seus conhecimentos de administração e condução do negócio. “Hoje eu sou o conselheiro. Quando o pessoal aqui tem alguma dúvida, entram em contato. É tão bom saber que eles confiam, né?”, comenta.
Publicidade
E o neto Marco, um dos taxistas, assina embaixo. “O meu avô consegue reunir duas importantes qualidades: bom exemplo de trabalho e caráter. Hoje tenho certeza de que os nossos clientes voltam, pois se identificam com o tratamento dos motoristas. Esse valor foi ele quem nos ensinou”, observa.
This website uses cookies.