Desde que se distinguiu da escravidão, o trabalho tem sido mais do que um meio de vida. É também uma forma de dar sentido à existência. Por muito tempo, organizou o tempo, estruturou rotinas e ofereceu uma narrativa relativamente estável: estudar, conseguir emprego, fazer carreira, construir patrimônio e chegar à aposentadoria. Esse roteiro que marcou gerações já perdeu linearidade e consistência.

O mundo do trabalho passou por revoluções estruturais e sucessivas, principalmente após a pandemia do Covid-19. A promessa de estabilidade cedeu espaço à flexibilidade, e o que antes era exceção passou a ser regra. Contratos temporários, múltiplas ocupações e a constante necessidade de adaptação transformaram a relação entre indivíduo e trabalho.

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Trabalhar continua sendo essencial, mas deixou de seguir uma sequência de desenvolvimento lógica. Há um paradoxo nesse processo. Ao mesmo tempo em que o trabalho se torna mais instável, cresce a expectativa de que ele ofereça realização pessoal. Não basta mais ter um trabalho; espera-se propósito, identificação e reconhecimento.

Além dos desafios inerentes a qualquer trabalho, ansiedade incontida de clientes e de profissionais, bem como falsas promessas de sucesso rápido e liberdade irrestrita desmancham projetos que poderiam se concretizar como negócios consistentes.

A reinvenção do trabalho faz parte de uma transformação do próprio capitalismo, que passou a valorizar autonomia, criatividade e iniciativa – características antes associadas à crítica ao sistema. Atualmente, elas são exigidas como condição de sobrevivência no mercado. O trabalhador ideal é flexível, polivalente e constantemente disponível.

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Ao mesmo tempo, o trabalho se espalhou para além dos seus limites tradicionais. O teletrabalho, sem desmerecer suas indiscutíveis vantagens, derrubou as barreiras de tempo e espaço entre produção, aperfeiçoamento e descanso.

A mistura entre trabalho e vida pessoal se manifesta na tendência de rentabilização de hobbies, afinal, recai sobre todos a pressão das mídias sociais de ser produtivo o tempo inteiro. Toda essa reinvenção não pode desaguar em fragilização de condições mínimas de trabalho, informalização das relações de emprego e inviabilização da livre iniciativa pelo aumento de impostos e de custos de forma geral, entre outros fatores nocivos para todo o sistema econômico.

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Cabe aos contribuintes e integrantes da população economicamente ativa acompanhar com muita atenção o trâmite da proposta de emenda à Constituição da República quanto à redução da jornada de trabalho, assunto que deve ser debatido com extremo cuidado.

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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