O medo não é apenas uma emoção individual, mas um elemento estruturante das sociedades contemporâneas. Como sugeriu Ulrich Beck, vivemos em uma “sociedade de risco” na qual ameaças deixam de ser externas e delimitadas para se tornarem produzidas pelo próprio desenvolvimento social. Nesse contexto, o medo não é reação excepcional, mas componente permanente da experiência coletiva.
A transformação dos riscos é central para compreender esse processo. Diferentemente das sociedades industriais clássicas, organizadas em torno da produção de riqueza, a sociedade contemporânea se estrutura em torno da gestão de incertezas. Crises financeiras, catástrofes ambientais, instabilidade geopolítica e riscos tecnológicos não podem ser plenamente controlados nem previstos. O risco, portanto, não é eliminado – é administrado.
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É nesse ponto que o medo adquire função organizadora. Ele não só paralisa, mas também orienta. Políticas públicas, decisões econômicas e comportamentos sociais passam a ser formulados sob a lógica da prevenção e da contenção. Segundo Michel Foucault, o poder moderno não se exerce apenas pela repressão, mas pela gestão da vida e dos riscos. Governar passa a significar, em grande medida, administrar incertezas.
Ao mesmo tempo, o medo se insere em circuitos de produção simbólica. Ele não decorre apenas de ameaças objetivas, mas de processos sociais que o amplificam e o estabilizam como percepção compartilhada. Nesse compasso, a modernidade descrita por Zygmunt Bauman revela uma condição de fluidez e insegurança permanente, na qual instituições perdem solidez e indivíduos são constantemente expostos à incerteza. O medo deixa de ser episódico e torna-se difuso.
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Essa difusão tem implicações diretas na organização do poder. A promessa de segurança passa a ocupar posição central na legitimação política, ao mesmo tempo em que amplia a aceitação social de mecanismos de vigilância e controle. O medo, assim, não apenas reflete a ordem social, mas contribui para sua reprodução, ao alinhar expectativas individuais e estruturas institucionais.
O medo opera como um dispositivo que articula risco, poder e organização em um mesmo sistema. Mais do que um fenômeno conjuntural, trata-se de uma racionalidade social. Compreendê-lo exige deslocá-lo do plano psicológico para o plano estrutural. É nesse nível que ele deixa de ser apenas experiência e passa a ser forma – uma forma característica de sociedades que já não conseguem prometer estabilidade, mas apenas gerir incertezas.
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