Cultura e Lazer

“A violência contra a mulher tem que ser um incômodo diário”: Morgana Kretzmann concede entrevista exclusiva à Gazeta do Sul

Um dos principais nomes da nova geração de autores brasileiros virá a Santa Cruz do Sul na terça-feira, 16. A romancista gaúcha Morgana Kretzmann, radicada em São Paulo, estará no Memorial da Unisc, bloco 46 do campus, a partir das 19h30, para proferir a palestra “O romance antes do romance: pesquisa, escuta e escrita de Água turva”. A atividade integra o Circuito Sesc de Literatura, é gratuita e aberta à comunidade, e tem apoio do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Curso de Letras da Unisc.

Além de escritora, Morgana é atriz, roteirista e produtora cultural, com formação em Gestão Ambiental. Seu primeiro livro foi Ao pó, de 2012, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de melhor romance de estreia, obra publicada pela editora Patuá. A segunda incursão pela narrativa longa foi justamente Água turva, de 2024, pela Companhia das Letras, em cujo enredo tematiza o Parque Estadual do Turvo, no Noroeste gaúcho.

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Conforme Morgana, que é natural de Tenente Portela, em muitas ocasiões ela e o marido, o gaúcho Paulo Scott, também escritor, realizaram visitas à área dessa reserva ambiental, à margem do Rio Uruguai, na divisa com a Argentina, para pesquisas visando a escrita desse livro. Em entrevista por telefone para a Gazeta do Sul, já na proximidade da vinda a Santa Cruz, a autora diz que uma de suas avós chegou a residir na cidade, bem como um de seus professores de referência na área ambiental, João Quoos, é natural daqui.

Água turva, o segundo romance de Morgana Kretzmann, de 2024, impôs-se no mercado editorial brasileiro como um thriller ambiental. O enredo leva o leitor a um parque, um ecossistema no interior do Rio Grande do Sul, o Turvo, localizado às margens do Rio Uruguai, junto à divisa com a Argentina.

Ali, a história de três mulheres, com suas missões e seus destinos, confluirá, envolta em forte tensão, que certamente marca comunidades no país e no mundo na atualidade, com seus interesses econômicos e de poder muitas vezes um tanto mesquinhos.

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Serviço

  • O quê: palestra “O romance antes do romance: pesquisa, escuta e escrita de Água turva”, da escritora gaúcha Morgana Kretzmann; entrada franca
  • Quando: na próxima terça-feira, dia 16, a partir das 19h30
  • Onde: no Memorial da Unisc, no prédio 46 do campus
  • Realização: Circuito Sesc de Literatura

Entrevista

Morgana Kretzmann
Escritora

Fale-nos um pouco de tua origem e trajetória de formação…
Nasci em Tenente Portela, mas me criei em Três Passos. Fui para lá com menos de 2 anos, então me considero mais trespassense do que de Portela. Lá, vivi até os 17 para os 18 anos. Minha família ainda mora lá, e vou para lá ao menos duas vezes por ano. É a família por parte de mãe. A por parte de pai está em Santa Rosa, Doutor Maurício Cardoso, Horizontina…

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És da cidade ou do campo?
Nasci no interior, no meio rural. Sou neta de produtores rurais, filha de uma mulher que era produtora rural e que depois se tornou professora. Nasci numa comunidade rural chamada Barra Grande, a uns 30 quilômetros da cidade. Hoje meus pais, Elemar e Juraci, moram numa localidade rural.

Mencionaste que uma avó paterna morou em Santa Cruz…
Isso. Ela nasceu na Alemanha e veio ainda criança, com poucos anos, para o Brasil, no início do século 20. E o primeiro lugar em que moraram foi em Santa Cruz. Ela até acabou sendo registrada em Santa Cruz. Mas minha avó não é Kretzmann, é Scheidt, e Schumacher. Por parte da minha avó, bisavó, somos judeus alemães. Já o Kretzmann é sobrenome adotado, pois meu avô foi adotado. O Kretzmann já surge lá em Três de Maio. Meu avô foi adotado por uma família de lá e conheceu minha avó, que também foi para lá. Casaram e ficaram ali. Até casar, minha avó foi Scheidt, Olga, o nome da jornalista que protagoniza Água turva, é uma homenagem a ela.

E depois de Três Passos?
Fui para Porto Alegre, e depois para o Rio. Morei também em Santa Catarina, onde me formei em Gestão Ambiental. Após, vim para São Paulo. O Rio passava por Copa do Mundo e Olimpíadas, e ficou inviável para a gente viver com mínimo de sossego, eu e o Paulo Scott, meu marido. O Paulo estava terminando Marrom e amarelo, o romance dele [cuja tradução para o inglês foi finalista do Man Booker Prize International], e eu estava terminando o Ao pó, meu primeiro romance.

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De maneira que o Ao pó foi efetivamente tua estreia…
Exato. Até então só tinha trabalhado como atriz e diretora de teatro, dramaturga. Já tinha escrito peças, feito coisas nessa área. No meio literário, o Ao pó foi minha estreia em todos os sentidos. E de imediato acabei sendo premiada, no Prêmio São Paulo de Literatura. Acho que tive sorte com a oportunidade de passar tantos anos pesquisando e escrevendo esse livro. Por ser o primeiro, não tinha pressa. Tive a sorte de ser publicada e pegar um grupo de jurados naquele Prêmio São Paulo que entendeu o livro, a história, a linguagem. É um livro muito diferente do que venho fazendo depois, é bem experimental. São vários fatores que se juntaram para que esse livro acontecesse e para que esse prêmio viesse.

Pela atualidade da temática do Ao pó, teu romance de estreia, como têm sido retornos mais recentes, até em função desse cenário dramático que o Brasil vive, de agressões e violências contra a mulher?
Realmente, os feminicídios no Brasil, principalmente no último ano e no início deste ano, têm vindo com números alarmantes. É uma coisa sobre a qual a gente precisa muito falar. O número de feminicídios no Rio Grande do Sul também cresceu muito. É assustador a gente ver notícias relacionadas a isso quase todos os dias. Vivemos num mundo muito perigoso para a mulher. Está muito perigoso ser mulher.

Como vês essa naturalização da violência contra a mulher, com tanta informação hoje disponível?
É um assunto que precisa ser discutido, ser falado; e muitas vezes é incômodo, tanto para mulheres quanto para homens. Mas cada vez mais precisa, sim, ser discutido. Só tem um jeito de enfrentar, e que é, efetivamente, colocando ele na mesa: não existe outra forma de você conseguir, de algum modo, mudar esse cenário. O incômodo com a violência contra a mulher não pode se acomodar a ponto de acharmos que é melhor não falar sobre isso. Tem que ser um incômodo diário. Para a gente cada vez querer falar mais.

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E o Água turva começaste a escrever em que momento?
O Água turva comecei a escrever em 2019, mais ou menos por essa época. Já estava com a ideia do Clube Verde, já tinha escrito alguma coisa, tinha o Ao pó e me surgiu a ideia do Água turva, rascunhei ele, escrevi as primeiras cenas. De todos os meus livros, escrevo sempre o começo e o final. Sempre faço isso. Esse é o meu método, digamos assim, se é que posso chamar de método. Então, já tinha isso, e aí comecei a fazer as minhas visitas ao Parque Estadual do Turvo. Claro, já muito tinha ido, meus avós moravam em frente à unidade de conservação. Quando eu era pequena, todos os finais de semana estava lá, nas férias estava lá.
Depois que meus avós se mudaram para o interior de Três Passos, para ficar mais perto dos meus pais, acabei indo pouco para o Turvo. Então, eu e o Paulo resolvemos passar a frequentar mais. Sempre que a gente ia para o Rio Grande, aproveitava e ia até o Turvo, até o Salto do Yucumã.

Já em pesquisas para o enredo?
Comecei a fazer entrevistas sem ninguém saber que eram entrevistas. Ficava lá conversando com os funcionários, com os guarda-parques. Era uma imersão naquele universo, naquele ambiente. A gente atravessava o Rio Uruguai de barca há décadas. Depois que o livro foi ganhando forma, a Companhia das Letras comprou os direitos, e a pesquisa também já foi ficando mais séria.

O romance tem vários núcleos narrativos…
Sim, pelos quais você pode fazer essa leitura. E é legal isso porque, na verdade, não está centrado em uma personagem. São três personagens principais, três protagonistas, mas é claro que, como em toda e qualquer obra de ficção, sempre vai ter uma protagonista que se destaca, que é a chave. Mas é um livro com três protagonistas fortes, com seu próprio destino. Elas não dependem uma da história da outra; muito pelo contrário, as três são uma coisa só, praticamente. Então, se não existisse uma delas, não existiria a história. Por exemplo, se a Preta não existisse, não haveria o Água turva. Se a Olga não existisse, idem. Ou seja, a história não depende só da Chaya. Ela depende dessas três mulheres.

E tem tratativas para que o romance ganhe as telas, não é?
Sim, a gente vendeu os direitos para virar série para a Maia, uma produtora aqui de São Paulo. São pessoas incríveis, tivemos uma reunião ótima. A gente sabe que toda a questão de audiovisual, não só no Brasil, na maioria dos países, demora. Não tem muito o que falar por enquanto, a não ser o fato de que foi realmente vendido para virar uma série e estou torcendo, muito empolgada com isso. É uma ótima produtora, são pessoas muito competentes que compraram os direitos.

Como está o interesse no exterior, para traduções?
O livro hoje está, mais ou menos, em 15 países. Considerando que é meu segundo romance, é uma alegria. A gente conseguiu entrar no maior mercado mundial, que ainda é hoje o americano. E na segunda maior editora do mundo, que é a HarperCollins. O livro sai lá agora em julho, em pré-venda, e em agosto estará nas livrarias.

E em que projeto trabalhas hoje?
O Bela Tristeza, meu próximo romance, se passa em 1989, numa pequena cidade de interior que fica na fronteira entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Uma cidade fictícia, que se chama Bela Tristeza. O livro trata de comunidades de produtores rurais, de terra, de safra. O livro tinha o título de Safra de sangue antes. E trata também de perda. Da perda de uma mãe, que vem a perder um filho numa dessas safras, numa dessas colheitas.
É muito focado nessa mãe, na perda dessa mãe. Muito focado numa frase do Freud, que diz que a solidão cria laços. Essa mãe tinha tanto medo dessa solidão, tanto medo de perder um filho e ficar nessa solidão, que ela criou laços que as pessoas… não vou contar para não dar spoiler, mas as pessoas vão entender lendo o livro. Ela criou laços bem inusitados. E desses laços vem a tentativa de cura para essa tragédia.

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Romar Behling

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Romar Behling

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