Santa Cruz do Sul

Ações de acolhimento ajudam a mudar realidade de pessoas em situação de rua em Santa Cruz

O Albergue Municipal de Santa Cruz do Sul registra queda gradual no número de acolhidos. Em 2025, a média era de 90 pessoas em situação de rua por mês; atualmente, o índice caiu para cerca de 75 – uma redução de 17%. O resultado reflete a atuação da rede de assistência, saúde e segurança, que direciona esse público para tratamentos de saúde, reencontro familiar ou inserção no mercado de trabalho.

O tema é pauta constante do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM), fórum que reúne o Executivo, o Ministério Público e forças de segurança. Criada para articular ações de ordem pública e prevenção à violência, a instância monitora de perto as estratégias para garantir direitos individuais e a segurança na cidade.

A cooperação entre diferentes setores da administração municipal intensificou as abordagens e ampliou a rede de encaminhamentos. O trabalho, que envolve a Guarda Municipal e as secretarias de Saúde e de Desenvolvimento Social e Inclusão, foca no atendimento humanizado. A premissa é oferecer escuta qualificada e conectar os cidadãos aos serviços públicos adequados.

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Em Santa Cruz do Sul, o perfil predominante nas ruas é de indivíduos com uso frequente de substâncias psicoativas, como álcool e outras drogas. Esse consumo costuma fragilizar os vínculos familiares e está associado a fatores como desemprego, vulnerabilidade social e transtornos mentais.

Segundo a secretária Fátima Alves da Silva, o foco atual é compreender cada realidade para oferecer alternativas reais de superação. “As ações em rede envolvem acolhimento no albergue, encaminhamento para atendimento na rede de saúde – muitas vezes necessário em razão da dependência química – além de acompanhamento social para reconstruir vínculos familiares e reinserção na sociedade e no mundo do trabalho”, explica.

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As equipes de assistência notaram uma presença significativa de pessoas vindas de outros municípios, atraídas pela estrutura de serviços da cidade. Em 2025, foram emitidas 179 passagens intermunicipais para retorno às cidades de origem; nos primeiros meses deste ano, outras 30 já foram concedidas. Para a secretária Fátima, o encaminhamento ao município de origem é estratégico quando há suporte local ou vínculos familiares preservados.

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Equipe técnica auxilia nos atendimentos

Uma das medidas que impulsionaram a redução de pessoas nas ruas foi a contratação de novos profissionais. Pela primeira vez, o Albergue Municipal conta com uma equipe técnica própria, composta por psicóloga e assistente social, o que qualifica o processo de triagem e acompanhamento. Em 2025 foram 49 atendimentos e encaminhamentos para documentação, tratamento de saúde, emprego, qualificação para o mercado de trabalho e busca ativa de vínculos familiares. Só este ano já foram contabilizados 337 atendimentos e encaminhamentos.

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O cuidado que chega às ruas

O suporte a quem vive nas ruas integra a rede municipal de saúde em uma estratégia de cuidado e acompanhamento constante. Por meio de iniciativas como o Consultório na Rua, o Programa de Redução de Danos e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), equipes levam assistência direta ao público, oferecendo desde escuta qualificada e orientações até cuidados básicos e encaminhamentos médicos.

Essa articulação transformou a trajetória de José Roberto Rodrigues da Silva, o Leco. Natural de Encruzilhada do Sul, ele viveu por mais de uma década nas ruas de Santa Cruz. Aposentado após anos de trabalho em fumageiras, Leco viu o vício em álcool e drogas se intensificar após o fim de seu casamento. Com os laços familiares rompidos, passou anos em meio a conflitos e vulnerabilidade.

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A mudança começou com o trabalho das equipes de assistência e saúde. Quando foi encaminhado à Associação de Auxílio aos Necessitados (Asan), Leco estava debilitado e com a saúde fragilizada. O processo de recuperação foi gradual.

Hoje, aos 69 anos, a realidade é outra. Morador da instituição, ele recuperou o peso, mantém a rotina de refeições e segue rigorosamente a medicação sob supervisão profissional. Ao descrever a vida no local onde finalmente encontrou estabilidade, ele é categórico: “Não tem lugar melhor”.

Leco teve assistência que ajudou a mudar sua situação

Ministério Público acompanha ações sociais

O Ministério Público (MP) acompanha de perto as iniciativas voltadas à população em situação de rua em Santa Cruz do Sul. Para o promotor de Justiça Érico Barin, o trabalho desenvolvido no município apresenta resultados positivos graças à atuação articulada entre assistência social, saúde e demais órgãos envolvidos. Esta integração é considerada estratégica para proporcionar o suporte necessário aos cidadãos que precisam de algum tipo de atendimento em razão do seu contexto social.

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Segundo o promotor, as atividades seguem critérios técnicos e são conduzidas com organização, profissionalismo e respeito aos direitos dos atendidos. “A abordagem exige qualificação e equilíbrio, porque a violação de garantias pode ocorrer quando há constrangimento, discriminação ou tratamentos violentos – algo que não se verifica no modelo adotado aqui”, afirma.

Barin ressalta que o enfrentamento do problema precisa ser tratado com responsabilidade e sem simplificações. Para ele, incentivar ou romantizar essa condição significa perpetuar a vulnerabilidade social e ampliar os gargalos públicos. “Agir de forma técnica e responsável é também uma maneira de preservar os direitos desses cidadãos, ajudando-os a superar tal condição e retomar plenamente sua cidadania”, conclui.

Gestos cotidianos podem perpetuar a vulnerabilidade

Zerar o número de cidadãos em situação de rua não é uma meta factível – nem almejada – em Santa Cruz do Sul, devido a fatores complexos, como a dependência química. Diante dessa realidade, a estratégia é identificar, acompanhar e oferecer caminhos de reinserção social.

As equipes da Guarda Municipal realizam rondas pela cidade e abordagens frequentes a essa população. O objetivo é encaminhá-la ao albergue municipal, onde poderá receber a assistência necessária. Porém, muitos optam por permanecer nas vias públicas por diferentes motivos, como as regras do espaço, o uso de substâncias ou preferência pessoal.

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“Somos insistentes, abordamos os mesmos indivíduos inúmeras vezes. A ideia é que eles se sintam desconfortáveis com nossa persistência e acabem aceitando o acolhimento”, explica o secretário municipal de Segurança e Trânsito, Reginaldo Martins Brito de Campos. Para ele, a própria sociedade pode contribuir para que os vulneráveis optem pela oferta dos serviços públicos.

“Embora motivado pela compaixão, oferecer esmolas contribui para que as pessoas permaneçam nas calçadas. Ao longo do dia, elas conseguem pequenas quantias nas esquinas e nos semáforos, garantem o sustento imediato e acabam não procurando alternativas de acolhimento e reintegração.” Repetir esse gesto diário, mesmo bem-intencionado, segundo o secretário, pode consolidar um ciclo, já que o assistido passa a contar com uma renda informal. Por isso, ele defende que a forma mais efetiva de ajudar é por meio da rede de assistência municipal, que oferece abrigo, acompanhamento social e acesso a serviços de saúde, proporcionando meios concretos para superar essa condição.

Membros do Gabinete de Gestão Integrada Municipal possuem cronograma de avaliações e planejamento das atividades | Foto: Évelin Nyland/Divulgação

Entre quedas e recomeços

As trajetórias de Paulo Roberto Garcia da Rosa e de Mateus de Almeida Castro mostram que, mesmo após anos de desabrigo, a retomada de uma existência digna é possível quando há acolhimento, persistência e apoio da rede assistencial.

Aos 68 anos, Paulo Roberto Garcia da Rosa, o Pelé, hoje leva uma rotina tranquila na Associação de Auxílio aos Necessitados (Asan). Natural de Santa Cruz do Sul e dono de um bom humor contagiante, ele resume a nova fase com simplicidade. “Agora estou tendo uma vida de rei.”

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Ele trabalhou em diferentes frentes ao longo dos anos – pintura predial, chapeação e serviços de carga e descarga –, mas o vício em álcool acabou desorganizando sua história e também um relacionamento afetivo. Acostumado à dureza do cotidiano nas calçadas, diz que aprendeu a se adaptar. “Para quem vive ao relento, qualquer cama é cama.” Mesmo assim, afirma que nunca chegou a passar fome. “As pessoas sempre levavam comida. Quem tem boca vai a Roma.”

A mudança, porém, não ocorreu repentinamente. Ele passou diversas vezes pelo Albergue até aceitar ajuda definitiva. Nesse período, criou vínculos com os profissionais e com outros atendidos. A coordenadora da unidade, Tamires Maciel, pedagoga e educadora social há sete anos, lembra que foi um processo longo e desafiador. “Buscávamos ele todos os dias no Caps para evitar recaídas. Fizemos de tudo para mantê-lo sóbrio até convencê-lo de que a rua já não era um lugar adequado”, conta, acrescentando que vê-lo bem cuidado na instituição é motivo de satisfação para quem acompanhou de perto o percurso.

Paulo da Rosa passou a viver na Asan e recorda do período que esteve nas ruas | Foto: Évelin Nyland/Divulgação

Suporte que fez a diferença

Outra história marcada por perdas e superação é a de Mateus de Almeida Castro, 66 anos, o Maninho. Durante muito tempo, trabalhou na construção civil e se orgulha do ritmo que mantinha na profissão.

A relação com o álcool, no entanto, alterou sua trajetória. O casamento terminou e ele acabou sem teto. Foram anos difíceis, marcados por violência, problemas de saúde e uso prolongado de substâncias. “Na rua foi só ladeira abaixo”, resume. Ele relata que sofreu agressões e hoje tem a visão comprometida por causa de uma pedrada.

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Maninho foi atendido pelo grupo de Redução de Danos da rede de saúde, passou pelo Albergue Municipal, pela Utravarp e também pelo Caps AD, onde permaneceu em acompanhamento por oito anos. No período de vulnerabilidade, sobrevivia recolhendo recicláveis com um carrinho e contando com a solidariedade dos moradores.

Por muito tempo, resistiu às abordagens. “Antes eu não entendia o que queriam me dizer. Eu explodia, não queria sair da rua”, recorda. Aos poucos, foi aceitando o auxílio. Com o suporte dos profissionais, conseguiu organizar o cotidiano, alugar uma pensão e aprender a administrar a aposentadoria por invalidez. Hoje, tenta manter uma rotina estável. “Primeiro separo dinheiro para pagar o aluguel, comprar comida e quitar as contas. Só depois penso em outra coisa.”

Apesar das dificuldades e da saudade da convivência com os amigos de outrora, Maninho sabe que precisa seguir em frente. “Sinto falta das conversas porque às vezes fico muito sozinho. Mas tenho que aceitar a vida.”

Mateus de Castro recebeu atendimento do grupo de Redução de Danos | Foto: Évelin Nyland/Divulgação

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Guilherme Andriolo

Nascido em 2005 em Santa Cruz do Sul, ingressou como estagiário no Portal Gaz logo no primeiro semestre de faculdade e desde então auxilia na produção de conteúdos multimídia.

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Guilherme Andriolo

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