Cultura e Lazer

Bélgica: polarização em delicado equilíbrio – Parte 1

As campanhas romanas de dois milênios atrás deixaram marcas indeléveis na Europa. Uma grande quantidade de cidades, fronteiras entre países, hábitos, benefícios e, claro, certos problemas, pode ser rastreada até Júlio César e seus comandados.

Entre os países improváveis do mundo, destaca-se uma nação europeia que foi conquistada por romanos, ocupada pelos francos de Carlos Magno e pelos Habsburgos espanhóis, forçada a se juntar aos holandeses, invadida duas vezes pelos alemães no século XX e que sempre foi dividida em duas partes radicalmente diferentes.

No século I a.C., Roma teve que realizar pelo menos seis incursões militares para dominar as tribos conhecidas como os belgae. O próprio Júlio César os considerava o povo de maior bravura entre todos os gauleses. Após a conquista, os romanos construíram uma estrada, a Via Belgica, que separava as terras baixas ao norte, frequentemente inundadas, do sul, mais fértil e situado acima do nível do mar.

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Com a ênfase econômica e cultural dada à parte sul, também a cultura e a língua foram influenciadas. Enquanto no sul se desenvolveu uma língua latina, que posteriormente derivou para o francês, os povos ao norte da Via Belgica permaneceram com sua língua germânica, que evoluiu para o neerlandês. A religião também foi influenciada por essa divisão. Até hoje, o país segue dividido entre o sul (Valônia), predominantemente católico, e o norte (Flandres), onde a Reforma protestante teve maior impacto.

Além desses grupos, a Bélgica tem cerca de 60 mil pessoas que utilizam o alemão, também língua oficial, em uma região que a Alemanha foi forçada a ceder pelo Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial. A capital, Bruxelas, apesar de estar localizada em Flandres, é majoritariamente francófona, ainda que oficialmente bilíngue. Após a independência dos Países Baixos, em 1830, o país se tornou uma monarquia, com Leopoldo I, da dinastia de Saxe-Coburgo, como primeiro rei.

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A bravura notada há dois milênios por Roma foi sentida também no ocaso de outra potência europeia, a França de Napoleão Bonaparte. A batalha que determinou o fim do domínio napoleônico ocorreu em Waterloo, em território da atual Bélgica.

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A posição geográfica central e a neutralidade política fizeram da Bélgica uma zona de amortecimento entre França, Alemanha e Países Baixos, e também favoreceram o desenvolvimento de sua habilidade diplomática. Uma das consequências é o grande número de instituições regionais e globais atualmente presentes em Bruxelas. Além do Parlamento Europeu, que torna a cidade uma capital de facto da Europa, a capital belga abriga a sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), criada no contexto da Guerra Fria como contraponto ao bloco soviético do Pacto de Varsóvia.

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Modo belga

Recentemente, um impasse entre partidos da Valônia e de Flandres fez com que o país ficasse um longo período sem um governo plenamente formado (2018–2020).

Ainda assim, os belgas e suas instituições seguiram funcionando pelos 652 dias da crise política. Os impostos continuaram a ser recolhidos e o país não entrou em colapso administrativo. A eficiente federalização do território e a solidez de suas instituições facilitaram a gestão das diferenças internas.

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A arte, a arquitetura e a paisagem desse país densamente povoado atraem turistas de todas as partes. Cidades medievais como Bruges e Ghent, ou centros altamente desenvolvidos e ricos como Bruxelas e Antuérpia, polo portuário onde 80% dos diamantes do mundo são comercializados, são paradas obrigatórias para viajantes e turistas.

Uma estrada romana aberta há mais de 2 mil anos ajudou a moldar o destino de um país que soube transformar uma divisão geográfica e cultural em vantagem, apoiando-se na força da diversidade e no compromisso diante da constante ameaça histórica de invasões e de tensões internas.

Na continuação deste artigo, veremos um capítulo sombrio da história belga, capitaneado pelo segundo monarca, Leopoldo II: a violenta colonização do Congo.

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Guilherme Andriolo

Nascido em 2005 em Santa Cruz do Sul, ingressou como estagiário no Portal Gaz logo no primeiro semestre de faculdade e desde então auxilia na produção de conteúdos multimídia.

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