Assisti com muito interesse ao recente filme Nuremberg, que tem como tema central a relação entre o nazista Hermann Göring e o psicólogo americano Gustave Gilbert. Os diálogos foram registrados em um diário, sem a formalidade do julgamento que então se desenrolava. Segundo o alemão, o que leva uma nação ao conflito é a habilidade de seus líderes de convencer a população de que há uma ameaça grave e de instigar, estrategicamente, o medo e o instinto violento entre pessoas que, no fundo, não desejariam a guerra ou a truculência.



Pouparei os leitores de análises geopolíticas sobre o Estreito de Ormuz ou sobre o fluxo mundial de energia. Profissionalmente, atuo na indústria de energia há décadas e vejo, espantado, a arrogância dos analistas de redes sociais, muitos dos quais se comportam como especialistas após assistirem a alguns vídeos curtos sobre os atuais conflitos e sobre a indústria petrolífera mundial.
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Há indícios de uma reconfiguração da ordem global. Os Estados Unidos, historicamente associados à defesa da democracia liberal, vêm sendo alvo de críticas internas e externas pelos sinais de erosão institucional e endurecimento do discurso político, com traços de autoritarismo e intimidação. Com a forma errática e a linguagem simples e egocêntrica que o caracterizam, há poucos dias o líder americano chegou a ameaçar uma civilização inteira (logo os persas!) com o extermínio, abrindo margem para interpretações de um possível chamado ao genocídio. Em outro rompante, criou um conflito até mesmo com o papa Leão XIV.
No mesmo eixo de tensão, vemos em Israel um líder envolvido em processos de corrupção que se perpetua no governo, sustentado por uma coalizão de extrema-direita. Analistas de política externa apontam que o capital moral de que o país desfrutava está se corroendo rapidamente. O sionismo, antes considerado um movimento nacionalista agregador, parece ter migrado para uma colonização ostensiva. Em vários cantos do planeta, antissemitas radicais podem estar sorrindo, sentindo-se justificados.
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Diante desse quadro, não percebo um movimento significativo de resistência ao avanço da ultradireita no mundo ocidental. Assistimos, em tempo real, à forma como democracias se desgastam e lideranças autoritárias emergem com apoio popular. Em comparação com outros momentos históricos, a vasta maioria da humanidade parece assistir, apática, a tudo isso.
Enquanto o Ocidente se desorienta, a futura maior economia mundial avança com velocidade surpreendente. Retornei ao país de Mao nos últimos dias, desta vez em férias com a família. Como sempre acontece, surpreendi-me com a modernidade, a organização e o irrefreável crescimento econômico chinês. Mais importante do que isso, admiro a conduta serena e equilibrada de Pequim nos últimos anos, apesar de não ser uma democracia como nós a definimos no Ocidente.
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Há críticas recorrentes à falta de liberdades políticas e ao controle da informação no modelo chinês. Porém, é inegável que o país alcançou avanços econômicos e tecnológicos impressionantes, superando rapidamente a Europa e os EUA. Ainda assim, não enxergo, tanto no governo quanto no povo, um exacerbado deslumbramento ou arrogância.
Defensores do sistema chinês argumentam que sua estrutura de governança, com mecanismos de consulta e organização em níveis locais, contribui para decisões mais orientadas ao desenvolvimento econômico e à estabilidade social. Não é um formato perfeito, mas, em muitos casos, favorece decisões em prol da população, priorizando a economia produtiva acima da especulação do mercado financeiro.
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A ideia de que os Estados Unidos se contentariam com a multipolaridade, limitando sua esfera de domínio à América Latina (que representa apenas 8% da economia mundial), é uma enorme ingenuidade. Mísseis americanos caem no Oriente Médio, mas talvez o objetivo principal seja tentar, desesperadamente, frear o avanço chinês, represando o petróleo destinado ao Sudeste Asiático.
Em Nuremberg, o cruel braço direito de Hitler nos lembrou que as guerras nascem antes do disparo das armas. Elas começam nas palavras, nos discursos, no medo inteligentemente criado. O comportamento descontrolado do presidente americano poderia gerar desconforto e constrangimento entre os apoiadores que desejavam um líder “antissistema”, mas temo que a reação de muitos seja justamente o contrário. Afinal, nada é mais antissistema do que alguém que se comporta, com frequência, de forma desarvorada, agressiva e imprevisível.
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