Não seria exagero definir que o santa-cruzense Cassionei Niches Petry, 47 anos, é… feito de livros. Sua vida confunde-se com a infinidade de leituras que realizou e, mais do que isso, com o empenho em difundir o gosto pela apreciação de obras de qualidade. De tanto ler e investir energia na divulgação cultural, tornou-se ele próprio autor. E a alguém que não o conhece, bastaria manusear o novo livro que ele está lançando para ter dimensão da profundidade e amplitude de seu olhar de mundo.
Em “Uma biblioteca na cabeça: ensaios de crítica literária” (2002-2012), pela editora Kotter, de Curitiba (PR), Cassionei reúne dezenas de artigos nos quais aborda textos de autores nacionais e estrangeiros, comentando-os. Esse processo tem relação direta com a Gazeta do Sul. Ocorre que praticamente a totalidade dos artigos foi originalmente veiculada em inserções nas páginas do jornal, como dicas de leitura. O volume, de 216 páginas, deve chegar às livrarias nas próximas semanas, e poderá ser adquirido ao valor de R$ 79,70.
Com graduação em Letras e mestrado em Letras – Leitura e Cognição pela Unisc, Petry atua como professor no ensino estadual, sendo vice-diretor do Colégio Estadual Professor Luiz Dourado, do Bairro Arroio Grande. Em paralelo, construiu uma referencial obra literária, que o levou à Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.
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Lançou dois livros de contos, Arranhões e outras feridas, de 2012 (o ano até o qual se estendem os ensaios agrupados em seu novo trabalho), e Cacos e outros pedaços, de 2017. Nesse meio-tempo, estreara em romance com Os óculos de Paula, em 2014. Suas narrativas longas mais recentes são Relatos póstumos de um suicida, de 2020, e Desvarios entre quatro paredes, de 2023.
Além das contribuições que envia, ainda hoje, para a Gazeta do Sul, Cassionei colabora com outros veículos, a exemplo do Riovale Jornal. Em tempos de jornalismo e divulgação digital, escreve com frequência para sites e revistas. Em todas as circunstâncias, lança mão do amplo acervo de referências da biblioteca que armazenou na cabeça. É um universo que, dentro e fora das salas de aula, estimula seus alunos e seus leitores a valorizar o melhor da literatura.
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Leia com exclusividade a apresentação de “Uma biblioteca na cabeça”, livro de ensaios sobre obras literárias que Cassionei Niches Petry está lançando:
“Este livro reúne boa parte das minhas críticas, resenhas e ensaios publicados em jornais, sites e revistas da internet. O título, Uma biblioteca na cabeça, é o mesmo do meu blog e se inspira em duas fontes. A primeira é o romance Auto de fé, de Elias Canetti, no qual o protagonista, o erudito Peter Kien, apaixonado por livros, é expulso de casa por Therese Krumbholz, governanta que se tornou sua esposa por cuidar com muito zelo de sua biblioteca de 25 mil volumes. Perambulando pelas ruas, ele entra em livrarias, compra livros imaginários e os guarda na cabeça, com medo de que sejam roubados.
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A segunda inspiração vem da série de ilustrações Library Head, de Paul Rumsey, na qual se vê uma cabeça formada por estantes de bibliotecas de diferentes formatos: hexagonais, com escadas, circulares etc. Um paraíso, segundo Borges. É o que tenho na cabeça: uma biblioteca, pois penso em livros e em literatura durante boa parte do meu tempo. É hora de colocar essa biblioteca em um livro.
O senso comum dita que “quem critica é quem não sabe fazer”. A velha analogia com o eunuco no harém também é repetida à exaustão. Para mim, no entanto, a crítica literária, assim como qualquer outro tipo de crítica, é sempre válida. O crítico pode até não escrever uma obra literária de qualidade; como leitor, porém, e um leitor que deve ler muito, ele sabe quando a obra é boa ou não. Conhece os mecanismos e sabe comparar os novos livros com os velhos. Quem desqualifica o seu trabalho só o faz quando o crítico escreve verdades que incomodam.
O crítico também erra, é lógico. Só erra, entretanto, quem se arrisca a escrever sobre alguma obra inédita, quem aposta em um autor desconhecido e foge do conforto de analisar algo já consolidado. O crítico ousa pensar diferente e também tem suas preferências, as quais podem não coincidir com as de um leitor comum ou com as de outro crítico.
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Não se pode, no entanto, dizer que o crítico não é importante ou que sua opinião seja dispensável. Em prefácio à série Pontos de vista, o saudoso Wilson Martins afirma que a figura do crítico faz parte do que ele chama de “triálogo”, junto ao autor e ao leitor, fechando um circuito literário no qual os três “são entidades nominalistas, não pessoas reais (…) nas quais a literatura simultaneamente se hipostasia”, ou seja, fundamenta-se, conferindo realidade à ficção.”
UMA BIBLIOTECA NA CABEÇA: ensaios de crítica literária (2002-2012), de Cassionei Niches Petry. Curitiba: Kotter, 2026. 216 p. R$ 79,70. O livro encontra-se em pré-venda no site da editora.
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Em entrevista à Gazeta do Sul, Cassionei Niches Petry reflete sobre a condição e a importância do exercício da crítica. “Acredito que é repercutir o que a obra analisada traz sobre a condição humana”, frisa. “Isso é atemporal. Creio que todos os ensaios do meu novo livro vão por esse caminho, mesmo que tenham sido escritos há 15, 20 anos. Se não consegui transmitir isso, foi falha minha. Como escreveu Leyla Perrone-Moisés, ‘o tempo é também juiz dos críticos literários’”.
Aponta ainda seus temas dominantes ou de seu interesse. “O que me guiou num primeiro momento foram autores que me interessavam e determinados temas, como o realismo fantástico, a metalinguagem, a intertextualidade e o suicídio, tanto de personagens quanto dos autores que o cometeram”, salienta. “Em certo momento, comecei a flertar com a ficção científica, que depois foi sumindo da minha atenção, embora não a despreze totalmente.”
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E cita o esforço que realiza em sala de aula com literatura e indicação de leituras. “Como sou professor de língua portuguesa, levo muita literatura para minhas aulas. Recentemente, uma turma de 9º ano leu minicontos de, entre outros, Augusto Monterroso e Leonardo Brasiliense. Tento formar leitores. Quase sempre fracasso”, lamenta.
Gazeta do Sul — O que, na origem, te impulsionou ou te motivou ao exercício da crítica de livros?
Cassionei — A leitura de outros críticos em jornais e revistas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 me fez querer ser um deles, ainda mais quando soube que recebiam livros para resenha! Imaginava formar minha biblioteca dessa forma. Ledo engano. Jerônimo Teixeira, Luís Augusto Fischer, Carlos André Moreira, Marcelo Backes, Daniel Piza, José Castello, Wilson Martins, Miguel Sanches Neto (que escreveu: “Quando ninguém mais perder tempo com os livros, o crítico ainda não se dará por vencido. Escreverá para o prazer gastronômico das traças.”), para citar alguns, foram referências. No curso de Letras, tomei gosto por refletir e analisar sobre as obras lidas, embora nunca tenha seguido linguagem acadêmica. Aí entrei em contato com Antônio Cândido, Davi Arrigucci Jr., Leyla Perrone-Moisés e tutti cuanti. Críticos estrageiros? George Steiner, Harold Bloom, Northrop Frye. Ingenuamente, pensei que poderia fazer carreira como crítico e viver disso. “Uma doce ilusão”, como diria Gonzaguinha.
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O que mais diretamente te motivava na seleção das obras que irias abordar?
No início, como não tinha boa condição financeira para comprar livros (estudante, trabalhando como auxiliar de escritório e depois professor em início de carreira), geralmente me valia dos lançamentos disponíveis na biblioteca da Unisc. Acompanhava os veículos literários (impressos e digitais) para me atualizar e escolhia os livros a partir de meus interesses e da disponibilidade de exemplares na universidade. Também utilizei de “empréstimos” via internet, “baixando” exemplares em sites que disponibilizam livros em PDF. Boa parte das obras abordadas não estão na minha biblioteca particular.
Com o tempo, passei a comprar e cheguei a receber livros de algumas editoras e diretamente de autores, mas aí já estamos falando de textos que poderiam estar num hipotético segundo volume.
Em que medida o entendimento de um livro com uma apreciação crítica?
A perspectiva de compartilhar a leitura com outros leitores traz certa responsabilidade, afinal o crítico se expõe, por isso precisa fazer uma leitura atenta, pois não será perdoado caso se equivocar ou deixar à mostra suas fragilidades. E como o meu intuito nunca foi exatamente julgar, mas sim dar subsídios para o leitor ampliar a compreensão da obra, buscava outras referências e, com isso, também me enriquecia intelectualmente. Segundo o francês André Bazin, “a função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte”. Ele se referia à atividade de crítico de cinema, no entanto, podemos estender isso à literatura.
O volume abre com a resenha de O grau Graumann, do Fernando Monteiro, que “atribui” o Nobel de literatura a escritor nascido em Santa Cruz do Sul. Foi de fato primeiro ensaio, em ordem cronológica?
No âmbito do jornalismo cultural isso, pois já havia nesse momento desenvolvido ensaios no curso de Letras. Pena que o leitor santa-cruzense não tenha sentido o mesmo impacto que senti e não tenha procurado conhecer a obra desse estupendo autor pernambucano, que infelizmente já nos deixou. Tentei uma segunda vez, já com a coluna fixa que mantive na Gazeta do Sul, abordando outro romance do Fernando Monteiro que trazia o personagem Lúcio Graumann, porém falhei de novo. São momentos no qual o crítico nota que sua atividade não tem tanta relevância na comunidade em que está inserido, nem mesmo na comunidade letrada.
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Segues exercitando a crítica literária?
Até o ano passado ainda publiquei alguma coisa em sites para os quais fui convidado a colaborar (sempre de forma amadora) e também escrevi no blog resenhas de livros que recebi como cortesia de escritores que ainda prestigiam este escriba. De ficção, não escrevo mais nada há um bom tempo, tenho só alguns escritos inéditos. No mais, o que me ocupa profissionalmente é o trabalho na educação, como vice-diretor e professor em escolas da rede pública (estadual e municipal). O escritor e crítico está aos poucos se recolhendo. A Academia de Letras de Santa Cruz do Sul também me faz sair da toca. Cada vez mais, como o personagem do argentino Rodrigo Fresán, estou deixando de ser escritor e me tornando um “excritor”. Para que escrever se podemos apenas ler?
E como percebes a importância do ensaio e da divulgação literária, dessa mediação de autores e obras para o grande público? Em tempos de internet e outros recursos de exposição, como isso ocorre?
O texto escrito perdeu espaço para os comentários dos “booktubers”, campo no qual até me arrisquei, mas sem resultados. Há muita gente que ainda escreve na internet, há até mais espaço do que no tempo do impresso, porém tudo se perde no cipoal desse universo. A crítica não é mais relevante, é desprezada, não dita mais os caminhos. Cito outro grande crítico, o mexicano Christopher Domínguez Michael: “As redes sociais desvalorizaram o papel da crítica. Sei também que é uma questão geracional. Se um escritor de vinte e cinco anos publica um romance e eu escrevo um artigo sobre sua obra, minha opinião não terá muita importância para ele. Minha mensagem não chega até ele. O impacto das minhas opiniões só atinge quem está na faixa dos quarenta; abaixo disso, é um mundo completamente diferente. Não se trata mais de antipatia, mas sim da maneira sutil como o cheiro de naftalina se espalha…
A passagem do tempo é fétida.…”
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