Posiciono a cadeira. A imagem fica estranha. Procuro outra posição. Opto por afastar a cadeira e ficar em pé. Me observo e as perguntas se apressam: Onde ficou o cabelo escuro e revolto dos anos setenta? Onde aquele rosto juvenil de épocas transitadas? Onde os braços e pernas ágeis de tempos passados? Onde o tronco fortalecido de idades nem tão distantes?
Desnecessário argumentar, o que não impede constatar: o cabelo esbranquiçou, ficou mais fino e ao invés do aspecto revoltoso, apresenta-se ondulado como ondas que se quebrarão logo ali adiante na praia da existência; o rosto assumiu as rugas que as cicatrizes emprestaram, e se faz acompanhar pelo olhar um tanto mergulhado por entre as faces; os braços e pernas denotam uma certa flacidez que se acentua nos trejeitos; o tronco, de antigos orgulhos aprumados, reflete os 74 anos de idade. À imagem, ensaiada em diferentes posicionamentos, soma-se o menisco nunca bem refeito do joelho da perna direita e o rompido tendão de Aquiles da mesma perna, o que me obriga a um reequilíbrio instável forçando a perna esquerda. Não há como desconhecer as pintas que insistem em se multiplicar nas mãos e pele afora. Mãos de veias à mostra, quase inconvenientes.
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Se oportuna a constatação, esta não se faz unilateral. Vejo também um rosto mais expressivo, mesmo com a barba desgrenhada; os braços e pernas seguem prontos aos abraços e caminhadas de muitos percursos; o tronco prossegue me sustentando, em amadurecida postura, refletindo realizações e significativas convivências familiares, comunitárias, planetárias e cotranscendentais. Os prejudicados, o menisco e o tendão de Aquiles, já os absorvi como companheiros de trajetória, ou até melhor, como marcas de causas empreendidas e assumidas.
Sorrio perante mim mesmo. Quanto às lágrimas, procuro guardá-las como um segredo, ainda que nem sempre o consiga. Lágrimas irrigam por dentro. Todavia, vez ou outra, cada vez mais seguidamente, extravasam das profundidades para a superfície em alague apaziguante. Aprendi que chorar nos purifica, permite vertências que fluem futuridades. Futuros de toda ordem e origem, esperançosos apesar das mazelas, sofrimentos, desconfortos, mal-estares, insatisfações, incoerências, renúncias, esquecimentos, adoecimentos, precarizações e ansiedades. Ansiedades nem sempre desprezíveis, até porque se pode direcioná-las para propósitos mobilizadores. Quanto às dores, as há virtuosas, particularmente as impregnadas pela incomensurável saudade amorosa.
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Há tanto por pensar e fazer, bem mais do que a repensar e refazer, muito mais do que a se arrepender e culpar. Arrependimentos e culpas, por certo as temos, mas, por que nelas se fixar como se fossem planícies infindáveis, se o fluxo segue convidativamente acolhedor, se surpreendentes montanhas e vales nos aguardam com e para além de imagens?
Hora de deixar o espelho para prosseguir no mistério da vida.
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