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JOSÉ ALBERTO WENZEL

“Tchau, casinha”

Corria a tarde do dia 19 deste recente mês de abril. O sofrimento não dava trégua. Renovamos o contato com a dedicada médica oncologista que cuidava da Vera. A recomendação foi no sentido de reinterná-la ainda naquele final de tarde de domingo. A filha Aline tomou as providências do momento. Revisou os documentos, ajeitou algumas roupas. Comunicamos ao filho Rodrigo que estávamos nos preparando para a internação.

Todavia, algo comovedor aconteceu antes de sairmos do apartamento. Vera se acomodou na cadeira de rodas posicionada junto ao sofá da sala. Olhou ao redor. O fez com o carinho de quem habita. Não se apressou, também não demorou. Com o ar da decisão amorosa que sempre a acompanhara, respirou um pouco mais fundo e falou enternecida: “Tchau, casinha.” A dureza sofrida da tardinha assumiu a densidade da fala reveladora. Não recordo o que conseguimos dizer, até porque qualquer palavra seria muito menos do que Verinha acabara de pronunciar.

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Dissera “casinha” ao lugar onde a família se reunia, onde afagara os netos, onde buscara aconchego e distribuíra amor sem limites. Também dissera “tchau”, o que poderia acenar para um breve retorno. Ela sabia. Nós é que não entendemos suficientemente, talvez nem pudéssemos imaginar como seria nossa casa sem ela.

Como é sabido, uma semana depois da internação, no dia 26 de abril, ela seguiu em frente. À semelhança das palavras que poderíamos ter dito no dia 19, continuamos não as encontrando. Impressiona como a experiência da morte tem a força de tudo relativizar. A um tempo nos alavanca para os cuidados necessários, por outro nos submerge profundamente.

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Mesmo perante os acolhimentos reconfortantes como “descansou”, “todos têm sua hora”, “cumpriu sua missão”, “força”, “seguiu em frente”, permanece a questão decisiva: como compreender a morte? Nos basta identifica-la às pulsões ao modo do contraponto ou complementariedade à vida, ou quem sabe, em completude à própria existência? Onde vão parar nesse processo as grandes teses, os termos e formulações que se pretendem síntese da realidade?

Mesmo as expressões fundantes que sábios, pesquisadores e pessoas em geral têm erguido como princípios (água, terra, fogo e ar; vibração, átomo, célula e organismo; espírito, inconsciente, altruísmo, solidariedade e vontade; mudança, evolução, endossimbiose e cosmogênese; ecossistema e sustentabilidade; elã vital, relatividade geral e convergência ascendente; proporção áurea, energia e massa à velocidade da luz…) nos iluminam, de fato, perante a morte? Cada um de nós poderá acrescentar suas considerações, especialmente frente às confluências em torno da Vida, Paz, Amor, Deus e suas manifestações.

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Ao escrever “Morte e natureza: ensaio coexistencial” (Editora Gazeta, 2022), mergulhamos na percepção da morte. Fomos além. Dissemos que continuamos a degradar a natureza e nos infelicitar por não entendermos a morte, ou melhor, por percebê-la como passagem desvinculante do ambiente natural. Encaminhamos, na obra citada, a reflexão no sentido de que se existimos, é porque coexistimos e assim também “cotranscendemos”, com o que morte e natureza interagem transgressora e auspiciosamente, o que nos convoca para uma inovadora síntese coexistencial.

Sim, precisamos de uma abrangente síntese de registro multiversal, que não se engesse em usuais palavras, teses ou fórmulas. Eis-nos promissoramente desafiados. Aliás, o que são para você a morte e a vida? Verinha, teu “Tchau” não foi uma despedida, foi um convite afetuoso para o conhecimento da vida/morte, até porque transcendes em coexistencialidade que nos conforta e mobiliza naturalmente.

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