Santa Cruz do Sul

De um caso real ao Troféu Tipuana: a trajetória do filme “Girassóis”

Entre os 18 curtas-metragens exibidos na Mostra Competitiva Nacional do 9º Festival Santa Cruz de Cinema, foi Girassóis o que conquistou o principal reconhecimento da edição, ocorrida entre os dias 16 e 19 de junho. A produção carioca, dirigida por Miguel Chaves e Jéssica Linhares, recebeu o Troféu Tipuana de Melhor Filme, entregue pela atriz Pilly Calvin. O curta chamou a atenção do júri pelo seu retrato sensível e contundente sobre as relações de trabalho no Brasil contemporâneo.

A dupla de cineastas inspirou-se em caso real que ganhou repercussão nacional para contar a história de Zé (vivido por Wilson Rabelo, vencedor do prêmio de Melhor Ator), trabalhador negro e idoso. Terceirizado, é obrigado a permanecer na ativa para garantir o sustento da família, à medida que se afasta dela. O filme ganhou destaque por abordar temas como a precarização do trabalho, o envelhecimento da população trabalhadora, a desigualdade social e os impactos da escala 6×1 a partir dos personagens.

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Jéssica e Miguel estiveram em Santa Cruz e acompanharam o evento. Natural da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Jéssica, de 36 anos, construiu uma trajetória que passa pela escrita, maquiagem, atuação e cinema. Depois de estrear na direção durante a pandemia com Um Filme de Quarentena, ela assina em Girassóis seu segundo trabalho como codiretora, reafirmando um olhar voltado para histórias de forte impacto social e humano.

Codiretor e também responsável pelo roteiro e fotografia, Miguel Chaves atua no audiovisual desde 2009. Após iniciar a carreira na televisão, consolidou-se como diretor de fotografia em campanhas publicitárias e fundou a produtora Rebuliço, pela qual desenvolve projetos exibidos em importantes festivais brasileiros. Girassóis, lançado neste ano, estreou no Olhar de Cinema, onde conquistou os prêmios Canal Brasil de Aquisição e do Público.

Em entrevista exclusiva ao Magazine, Miguel Chaves e Jéssica Linhares comentam as inspirações para Girassóis, refletem sobre a conquista do principal prêmio do Festival Santa Cruz de Cinema e compartilham a experiência de apresentar a obra ao público gaúcho.

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Entrevista – Jéssica Linhares e Miguel Chaves, cineastas responsáveis por Girassóis

  • GazetaGirassóis aborda a exploração do trabalho por meio da história de um homem negro idoso submetido a uma rotina exaustiva. Qual foi a principal inspiração para a criação da história? Ela nasceu de experiências pessoais, de casos reais ou da observação das transformações no mundo do trabalho?
    • Miguel Chaves – Escrevi esse filme em 2020, em um dia. Vínhamos de um momento muito específico da história na esteira de um governo muito letal. Falamos muito do governo Bolsonaro, que foi muito difícil e pesado, mas penso que o governo Temer foi até mais letal em relação aos direitos, especialmente dos trabalhadores, sobretudo quanto à reforma trabalhista. Um dia abri o jornal e vi a notícia de um trabalhador que morreu em um supermercado e havia sido coberto por engradados e guarda-sóis. Achei isso muito simbólico do momento que estávamos vivendo, uma tragédia no quesito da humanidade. Conversando com a Jéssica, começamos a pensar nesse acontecimento para além dele. Começamos a pensar quem seria aquele trabalhador. Lembro que quando li as primeiras notícias, não tinha o nome dele. Estava acontecendo um apagamento ali: o mercado o apagou e ele estava sendo resumido a uma função, de representante comercial. Nós passamos a imaginar como seria a vida dele, se era pai, se era esposo ou cinema de alguém. Usamos o cinema para isso e imaginamos uma história possível. Queríamos muito que essa história fosse contada sobre um viés de vida, não só de morte. Porque ali era só um corpo, mas muito mais que apenas isso. Buscamos também refletir sobre o momento do País, a precarização do trabalho, essa uberização, a desumanização, os corpos idosos e a falta de perspectiva de aposentadoria. Mas queríamos contar uma história de uma pessoa com nuances, de um ser humano, que não se resumisse só à tragédia.
  • Girassóis saiu do 9º Festival Santa Cruz de Cinema como o grande vencedor, conquistando os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator. O que esse reconhecimento representa para vocês e para a trajetória do curta?
    • Jéssica Linhares – Receber o prêmio de Melhor Filme foi algo completamente mágico e inesperado. Fazer curta-metragem no Brasil é um desafio enorme. Muitas vezes, exige recursos próprios não apenas financeiros, mas também de tempo, dedicação e sonhos. Só quem realiza cinema sabe o quanto esse processo é custoso. Girassóis é um projeto que nasceu em 2020 e levou anos para se concretizar. Colher agora os frutos de uma semente plantada lá atrás nos mostra que todo esse caminho valeu a pena. Também reforça a importância da história que escolhemos contar. Esse reconhecimento é, para nós, um atestado de que nossa persistência em dar voz a essa narrativa e levá-la para a tela grande fez sentido. Acredito que a maior recompensa do cinema acontece justamente no encontro com o público. Sem dúvida, esse prêmio marca a trajetória de Girassóis e representa um momento importante para a nossa carreira, além de nos dar ainda mais confiança para continuar contando histórias que consideramos necessárias. Gostaríamos de lembrar que o Wilson Rabelo, grande ator e protagonista do nosso filme, protagonizou também Presépio, do diretor Felipe Bibian, que estava na seleção e foi por esse filme que ele ganhou o prêmio de melhor ator. Mais uma demonstração do grande profissional que ele é.
  • Quais lembranças vocês levam da cidade e desta edição do festival? Há algum momento ou experiência que tenha marcado vocês?
    • Miguel Chaves – Um dos momentos mais legais de fazer cinema é o encontro com o público. Estar em festivais te possibilita ver a reação do filme em tempo real. Vamos levar como lembrança a exibição com a sala lotada com perfis diferentes. Um filme que numa cidade que, possivelmente, seria muito mais difícil alcançar se não fosse o festival. É impressionante ver como o filme atinge as pessoas. Ficamos muito felizes pela produção do festival, tudo funcionou muito bem. Ela estava sempre muito preparada para nos receber e querendo nos agradar de uma forma muito especial. Tiveram as trocas também, conversas sobre os filmes e o diálogo com o público e outros realizadores, com pessoas de todos os lugares. As pessoas vindo falar que gostaram muito do filme e estavam torcendo para ganharmos, sabe? Gente que nunca havíamos visto e que não nos conhecia, mas estava torcendo pelo nosso filme porque gostou. Foram momentos e dias muito especiais em Santa Cruz do Sul.
  • O Festival Santa Cruz de Cinema tem se consolidado como uma vitrine importante para os curtas-metragens. Na visão de vocês, qual é o papel de um evento como esse para o fortalecimento do cinema brasileiro?
    • Jéssica Linhares – Acredito que toda forma de arte precisa de espaço, visibilidade e oportunidades para existir. E é justamente esse o papel de um festival como o de Santa Cruz: fortalecer o cinema brasileiro ao criar um ambiente onde diferentes histórias podem ser compartilhadas, discutidas e valorizadas. Tenho a impressão de que todos que passam por um festival como esse saem fortalecidos com novas referências, novas conexões e mais motivação para continuar fazendo cinema. Esse talvez seja um dos maiores legados de iniciativas como essa para a produção nacional.

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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Julian Kober

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