Lissi Bender

Em tempo de recolhimento

Para os cristãos, a celebração mais relevante do ano é a Páscoa – a ressurreição de Cristo. Durante 40 dias que antecedem o evento, o povo cristão cultua a quaresma. Este período se inicia com o encerramento do carnaval na terça-feira, dando início a um tempo de recolhimento. A igreja convida as pessoas a se absterem de fartura, de grandes festas coletivas; a se voltarem mais para o mundo interior, para uma maior aproximação com o Altíssimo.

O Papa Leão XIV, em sua fala, recomendou a quaresma como um tempo de conversão e sugeriu o exercício da escuta – para ampliarmos nossa capacidade de ouvir mais a voz do outro. Para o pontífice, o jejum deve incluir jejum no uso de nossa linguagem, que não usemos palavras que machucam o outro; que não empreguemos linguagem ofensiva. Desse modo, o Papa nos convida a exercitarmos mais a fraternidade, para construirmos um mundo mais fraterno – ensinamento legado por Jesus.

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Vivenciar a quaresma, dentro dos preceitos cristãos significaria, então, recolocar o carnaval no período anterior à quarta-feira de cinzas. Aliás, é o que acontece na Alemanha, onde a folia se encerra à meia noite da terça-feira de carnaval. Lá o evento tem origem muito antiga, por meio dele se pretendia exorcizar os maus espíritos e afugentar o inverno.

O catolicismo incorporou essa festa pagã. Assim, desde a Idade Média – séculos XIII e XIV – Karneval/Fastnacht/Fasching (os termos remetem a diferenças regionais germânicas) é evento para festejar e consumir com fartura, seja carnes ou outros alimentos como os tradicionais Berliner (sonhos) também conhecidos como Krapfen. Festa e fartura antes do jejum da quaresma.

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No Brasil, o carnaval teria sido introduzido pelos imigrantes portugueses, nos idos do século XVII, como “Entrudo” (do latim – “introitus”), festa que antecedia a entrada da quaresma e era considerada sem regras, porque as pessoas se sujavam e molhavam mutuamente, o que teria gerado atos violentos. O primeiro baile de carnaval teria sido em 1840 no Rio de Janeiro. Já o carnaval com desfiles de samba teria se desenvolvido entre 1920 e 1930. Em Santa Cruz, lá pelos idos do final do século XIX e início do XX, o carnaval teria sido celebrado com influência germânica, pelo “Fastnacht”, uma antiga tradição com desfiles, máscaras e sátiras, antes do início da quaresma.

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Mas por que ela fala de carnaval na véspera de Páscoa, vocês devem estar a se perguntar. Vocês já repararam que, por aqui, o carnaval não termina na quarta-feira de cinzas? Que os desfiles, as festas coletivas continuam em meio ao período de preparação para a Páscoa? Que mesmo grupos de idosos fazem festa de carnaval durante esse tempo de recolhimento?

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Além disso, acontecem diversas festas para as crianças, durante a quaresma, nas quais a linda tradição germânica da procura de ovos pascais: “Ostereiersuchen” foi traduzida por “caça aos ovos”, caçar remete a perseguição, subjugação e morte. Morte para celebrar renovação da vida que está presente simbolicamente no ovo pascal, faz sentido? Em meio a tudo isso, como fica o legado cristão da Páscoa para nossas crianças? Se assim continuarmos, estaremos contribuindo para transformar a quaresma e a Páscoa em simples diversão e consumo.

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Carina Weber

Carina Hörbe Weber, de 37 anos, é natural de Cachoeira do Sul. É formada em Jornalismo pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e mestre em Desenvolvimento Regional pela mesma instituição. Iniciou carreira profissional em Cachoeira do Sul com experiência em assessoria de comunicação em um clube da cidade e na produção e apresentação de programas em emissora de rádio local, durante a graduação. Após formada, se dedicou à Academia por dois anos em curso de Mestrado como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Teve a oportunidade de exercitar a docência em estágio proporcionado pelo curso. Após a conclusão do Mestrado retornou ao mercado de trabalho. Por dez anos atuou como assessora de comunicação em uma organização sindical. No ofício desempenhou várias funções, dentre elas: produção de textos, apresentação e produção de programa de rádio, produção de textos e alimentação de conteúdo de site institucional, protocolos e comunicação interna. Há dois anos trabalha como repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações, tendo a oportunidade de produzir e apresentar programa em vídeo diário.

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