Saúde e Bem-estar

Entrevista exclusiva: “A nossa Unimed tornou-se uma das maiores do País”, diz Nilson Luiz May

Um santa-cruzense é, na atualidade, uma das mais importantes lideranças do cooperativismo na área da saúde em realidade de Rio Grande do Sul e de Brasil. Aos 86 anos, o médico Nilson Luiz May preside a Federação Unimed/RS, coordenando as ações institucionais nessa respeitada organização de atendimento médico. A relação direta com sua terra natal foi curta, restrita a curto período na infância, tendo em vista que seus pais logo se transferiram para Caxias do Sul. Mas o imaginário que cerca a sua naturalidade é forte: seu pai foi um ídolo do Futebol Clube Santa Cruz no começo da década de 1940.

Em sua trajetória de formação profissional, seu Nilson tornou-se médico-cirurgião, especializado em aparelho digestivo, a partir da graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 1963. Duas décadas depois, assumiu a presidência da Unimed/RS. Mas sua curiosidade e qualificação não se restringiram apenas à área médica ou de saúde, por mais que tal especialidade requeira aperfeiçoamento constante. Rendeu-se, em paralelo (e seguindo os passos de vários outros colegas), às artes e à cultura, com uma carreira de escritor.

LEIA TAMBÉM: Nova Estratégia Saúde da Família é inaugurada no Bairro Bom Jesus

Publicidade

Em seu primeiro romance, Céus de pindorama, de 2000, apresentou seu estilo e seu modo de ler o passado e a realidade. Idealizou uma espécie de “carta paralela” ou alternativa à elaborada por Pero Vaz de Caminha no “achamento” do Brasil. Ali, revela sobre a nova terra informações que Caminha havia ocultado. A esse volume seguiram-se várias outras narrativas de ficção, entre novelas de fundo histórico a thrillers. Por sua vez, em Liderança duradoura compartilhou suas reflexões acerca de gestão.

É reconhecido como um especialista na obra do tcheco Franz Kafka, autor de O processo. Sua contribuição na área literária e cultural foi de tal forma relevante que ele foi eleito para a Academia Rio-grandense de Letras, bem como integra a Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina. Nesta entrevista exclusiva, concedida com o envio de áudios por WhatsApp, dr. May comenta sua relação com Santa Cruz, sua terra natal, e rememora sua carreira de médico e sua obra literária.

LEIA TAMBÉM: Novo livro de Marli Silveira debate sobre a violência contra a mulher

Publicidade

Entrevista

Nilson Luiz May
Médico e escritor

Gazeta do Sul – O senhor é natural de Santa Cruz do Sul. Como é seu imaginário pessoal em relação a essa cidade?
Nilson Luiz May –
Nasci na Rua Marechal Deodoro, a umas duas quadras de distância da praça, hoje parece que a casa tem comércio. Ali vim ao mundo no dia 15 de maio de 1940, com parteira em casa. Meus pais, falecidos, chamavam-se Armindo Rodolfo May, conhecido como Rudy na sua juventude, durante toda a sua vida profissional e de jogador de futebol, e Leolita Cecília Hohscheidt, de uma família também tradicional alemã. Meu pai faleceu com 60 anos, bastante jovem ainda, e a minha mãe com 105 anos. Ficou viúva durante 45 anos, sempre visitando ainda o esposo querido no cemitério. Meu avô chamava-se Adolfo Pedro May, na época um viajante de vendas, serviços, que se tinha muito naquele período, e que circulavam por todo o Estado.
Tive apenas uma irmã, que nasceu em Caxias do Sul, em 1945, e hoje mora em São Paulo: Rosa Maria May dos Santos. O marido dela trabalha na área de administração e gerência, e atuou durante muitos anos na Unimed Participações. Ela tem dois filhos.
Meu pai era jogador do F.C. Santa Cruz. Tenho fotos com ele, eu nenê, naquele período ainda do amadorismo, o Santa Cruz com aquela camiseta dos Plátanos, com listras verticais, brancas e pretas, e também a mesma camiseta de hoje. Meu pai comigo no braço, já com chuteira, fardado, atravessando a rua, porque naquele período eles se fardavam em casa, não havia um local próprio. E cada um ia para o campo, com mulher, com filho, como fosse, e lá se encontravam uns minutos antes de começarem as partidas.

Armindo Rodolfo May, fardado para um jogo do F.C. Santa Cruz, com o pequeno Nilson no braço | Foto: Acervo pessoal

É um registro de uma época…
Meu pai era um homem magro e alto. Tinha a função de número 5, o que se chamava naquele período de center-half, hoje seria um centro-médio, um volante, algo assim. E certamente ele era um bom jogador, porque, em determinado período, chamou a atenção de viajantes que eram olheiros da empresa Eberle, de Caxias, uma grande empresa na época, de cutelarias, faqueiros e facas. Esta queria fazer um time de futebol, a exemplo do Renner, que poderia, de algum modo, difundir, divulgar a empresa pelo lado esportivo. Ele entrou na lista dos convidados, que foram buscados de diversos times do interior do Estado pelos viajantes olheiros.
E aceitou esse desafio. Mudou-se então para Caxias do Sul, quando eu tinha um ano e meio de idade. Com isso, nasci numa cidade tipicamente alemã e me criei numa cidade tipicamente italiana. Fiquei morando em Caxias com meus pais desde um ano e meio de idade até os 17 anos. Estudei num colégio muito bom lá em Caxias, o Nossa Senhora do Carmo, de irmãos lassalistas.
O pai continuou jogando lá por alguns anos, mas depois teve problemas de saúde na área do rim, e teve que abandonar o futebol. Porém, nunca abandonou o esporte: dentro da própria Eberle ficou responsável e presidente da parte esportiva. Coordenava vôlei, basquete, tênis, lutas, como me lembro da infância.

Publicidade

Depois de Caxias, o senhor se transferiu para Porto Alegre, isso?
Isso. Uma vez completada a formação em Caxias, em 1958 fiz vestibular para Medicina e passei na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com isso, me mudei para a capital.
Mas teve um episódio interessante, de acaso, de probabilidade: o prefeito de Caxias era o major Euclides Triches (1919-1994) e foi indicado como secretário de Obras Públicas. Como meu pai trabalhava na Prefeitura, Triches o convidou para alguma função em Porto Alegre, dentro da Secretaria de Obras Públicas, justamente naquele período. Portanto, a família conseguiu mudar-se também para Porto Alegre quando entrei na Faculdade de Medicina. Estamos falando de março de 1958, quando em maio, dia 15, um pouco adiante, eu faria 18 anos.
Em Porto Alegre, cursei a faculdade, período de seis anos, e me formei em dezembro de 1963, com 23 anos. Casei um pouco antes da formatura e, passado mais algum tempo, nasceu o primeiro filho. Eu poderia ter ficado em Porto Alegre; os professores, aliás, queriam que eu ficasse exercendo funções didáticas e fazendo outros cursos e me aperfeiçoando. Mas, como já era casado e tinha um filho, achei que deveria ir trabalhar no interior, que era o que eu gostava.
E aí já começa um primeiro ponto: eu estava muito influenciado por um romance da época, do Archibald Cronin [escritor escocês], chamado A cidadela, que falava sobre um médico na Inglaterra e suas dificuldades trabalhando no interior do estado. Com essa decisão, fui a convite; tinha um espaço aberto, estavam precisando de médico em Vila Progresso, um distrito de Lajeado, bem em cima do morro, cuja luz apagava às 10 horas da noite. Quando tinha alguma urgência, a gente tinha que operar com lampião.

Ou seja, um período realmente desafiante para um início de carreira…
Exato! O meu começo, parece que estamos falando de séculos passados. Mas, de toda forma, passaram um pouco mais de 50 anos e as condições eram assim. Então, a medicina tinha que ser exercida com todo o conhecimento que se tinha aprendido na faculdade, sem ter exames de laboratório, sem ter raio-x, sem nada, e ainda com as dificuldades próprias. Com um médico único na região, não podia conversar com nenhum outro colega.
Fiquei apenas um ano em Lajeado e aí fui convidado para trabalhar em Marques de Sousa, outro distrito de Lajeado, mas mais próximo, já mais baixo, ficava a cerca de 20 quilômetros da cidade. Assim fiquei em Marques de Sousa, uma região alemã, durante dois anos. E aí fui convidado pelo doutor Günther Fleischhut, que era um médico tradicional de Lajeado, para trabalhar com ele no seu consultório. Então me mudei para Lajeado.
Com três anos de formação após a faculdade, na época não fiz residência, não precisava, a gente sabia tudo e tinha possibilidades muito maiores do que se tem hoje. Em três anos eu estava reiniciando minha atividade em Lajeado. Passados um ou dois anos, achei que precisava fazer uma especialidade, que não tinha feito antes, fui realizar as provas e a preparação e um período de prática. Acabei recebendo o diploma de especialista em aparelho digestivo. A partir daí, eu que fazia tudo, todas as ações anteriores, obstetrícia, cirurgias gerais, traumato etc. Passei a me dedicar a clínica e cirurgia do aparelho digestivo, que é esôfago, estômago, vesícula, colunas, reto etc.

Atuando ainda em Lajeado?
Minha vida profissional foi toda em Lajeado, desde 1967. Portanto, para a gente se localizar e não perder as datas, até aproximadamente 2003, 2004, o que nós vamos ver daqui a pouco, eu me mudei para Porto Alegre. Temos aí praticamente quase 30 anos de vida profissional nessa área. Não só na medicina, mas na participação da sociedade lajeadense, ocupando diversos cargos. Inclusive cargo político: fui vereador numa época, elegendo-me na primeira eleição de que participei, com 27 anos de idade.
Mas me desgostei dessa atividade política. Inclusive saí antes de terminar o meu mandato, um ano antes, e passei a me dedicar (já que tinha dentro de mim essa veia, entre aspas, política, mas a política associativa, né?, médica) à associação médica: local, nacional, e depois para a criação da Unimed. Esse período em Lajeado foi extremamente produtivo, e nasceram mais dois filhos. Então, em torno da década de 1970, pela metade da década, eu estava com Nilson Rodolfo, o mais velho, Ana Cristina, a segunda, e Juliana, a terceira.

Publicidade

Como foi esse período inicial da organização dos médicos?
Como disse há pouco, em 1971, por aí, eu era presidente da Sociedade Medicina do Alto-Taquari, com sede em Lajeado. Alguns médicos, doutor Günther, doutor Wilson Dewes e outros, ficaram sabendo que tinha sido criada uma cooperativa de médicos, de prestação de serviços, em Santos, no interior de São Paulo. E encaminharam para lá o Rogério Braga Lopes, que era um amigo nosso. Ele foi, verificou e trouxe a ideia de formação também de uma cooperativa nesses moldes, que ninguém conhecia ainda no Rio Grande do Sul. Pelo final de outubro, novembro de 1971, presidi a criação de uma das primeiras Unimeds no Estado do Rio Grande do Sul.
Nesse ano de 1971, nessa época, outubro, novembro, dezembro, foram criadas quatro Unimeds. A nossa, que se chamava Altomed, digamos, uma cooperativa do Alto-Taquari, que ainda não tinha o nome de Unimed, foi passado esse nome e regularizado para todo o País mais tarde. No começo eram a Altomed e outras em Ijuí, Erechim e Porto Alegre. Essas foram as quatro primeiras Unimeds do Rio Grande do Sul.
Eu não fazia parte da diretoria, nem do conselho, mas a partir de algum tempo fui me aperfeiçoando, conhecendo, melhorando o que, junto com os outros companheiros, seriam realmente as finalidades da Unimed. Acabei sendo eleito presidente em 1981. Eu era vice anteriormente, e em 1981 acabei presidente. Na época já se chamava Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo, porque tínhamos englobado a região toda do Vale do Rio Pardo, com um escritório regional, como até hoje, em Santa Cruz do Sul.

E acabou virando referência, não é?
A nossa Unimed tornou-se uma das maiores áreas de todas as Unimeds do Estado. Hoje, temos em torno de quase 60 municípios fazendo parte da Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo, com suas duas sedes, uma em Lajeado e outra em Santa Cruz do Sul. E nunca houve tentativa maior de separação das duas regiões, porque aí nós ficaríamos com duas Unimeds médias. Hoje temos uma Unimed grande, os médicos sempre compreenderam muito bem isso e acabaram fazendo um acordo, um acerto político para manter a grandeza dessa nossa Unimed.
Fui presidente durante quatro anos de mandato, de 1981 a 1985. Em 1985 mudamos o estatuto, e o período de mandato passou para três anos. Daí fui presidente, pela segunda vez, de 1985 a 1988.
Tínhamos no estatuto que só podia haver uma reeleição, e o que me sucedeu foi o doutor Lídio Rauber, de Santa Cruz. A partir daí, sempre fizemos essa alternância, presidente em dois mandatos de Lajeado e nos dois mandatos seguintes, de Santa Cruz. A Unimed progrediu e vocês todos sabem o que ela representa hoje, as construções que fez, o número de beneficiários que tem. O modelo que essa nossa Unimed tem no Brasil é muito reconhecido.
Nesse ínterim, a Federação das Unimeds do Rio Grande do Sul, um órgão de segundo grau que coordena todas as Unimeds do Estado, estava numa administração muito frágil, muito fraca. O pessoal não se dedicava a isso e um grupo de Unimeds, 18, 19 aproximadamente no Estado, achou que deveria fazer uma chapa de oposição à estrutura que tinha outra chapa na federação e me escolheram como candidato a presidente, junto com boa representatividade.
E nas eleições de 1985 fui eleito presidente também da Federação das Unimeds do Rio Grande do Sul. Veja então, Romar, se considerarmos isso, sou presidente da federação há 40 anos. E houve uma progressão da federação muito grande, proporcionalmente assim, maior do que se poderia sequer imaginar, graças aos grupos de pessoas capazes que fui escolhendo no decorrer do tempo. Aos poucos, tivemos que ter dedicação exclusiva à federação, tanto que, como falei há pouco, em 2003, 2004, me mudei para Porto Alegre. Porque não dava mais para administrar a federação assim, um dia por semana, dois, aí passei a ter dedicação integral à federação nos últimos 20 anos, ou seja, metade do período do meu mandato.

E também se apresentou a literatura…
Como mencionei, desde os tempos de juventude, sempre fui ligado aos livros. Comecei a constituir uma pequena biblioteca, com cinco ou seis volumes, depois tinha 30, e, decorrendo o tempo, passei a cem livros, depois 200… No decorrer de todas essas décadas que me levaram, desde juventude, até essa idade atual de 86 anos, tenho uma biblioteca com número superior a 6 mil volumes de literatura. Não estamos falando em nada de medicina ou de técnica.
Essa biblioteca está perfeitamente organizada no computador, com divisões que eu mesmo encontrei para uma biblioteca particular, que é diferente daquelas divisões de biblioteca pública. Eu já fiz, inclusive, palestras para bibliotecárias mostrando esse meu sistema, que eu mesmo descobri e criei, de como se pode fazer uma classificação de biblioteca particular. É um pouco complicada, mas ela tem um sentido de aprendizado.
À medida que eu vou classificando, vou estudando e apresentando as divisões e o estudo daquele tipo de literatura, seja ela brasileira, internacional, inglesa, francesa, alemã etc., ou africana, por exemplo, literatura africana do norte, literatura africana subsaariana do sul, que a gente divide em línguas inglesas, francesas etc, e de língua portuguesa.

Publicidade

“O passado é o nosso edifício”

O senhor estabeleceu grandes amizades no ambiente literário?
À medida que vou avançando, vou estudando e aprendendo literatura, porque isso é o que me interessa e estudo há mais de 40 anos. Entre as grandes amizades junto à literatura, eu citaria, sem ordem de grandeza, de maior ou menor, três pessoas. O escritor, que é médico também, com quem convivi e participamos de diversas palestras juntos, Moacyr Scliar. Meus primeiros contos, inclusive, que tenho hoje guardados, são rabiscados com instruções dele ao lado. Ele dizia “essa palavra não serve”; tenho diversas correspondências e contos junto com o Scliar, já falecido.
Outro: Armindo Trevisan, um poeta maior, vivo, com 93, 94 anos hoje. Seguidamente eu o encontro, conversamos desde a época do Prêmio Apesul, que ganhei, e foi ali que vim a conhecer em 1980, 1982, por aí, o Trevisan. Um grande amigo, um grande poeta.
E o Antônio Hohlfeldt também, que conheço desde os tempos em que eu publicava artigos no “Caderno de Sábado” do Correio do Povo. Tenho mais de 150 artigos e ensaios sobre literatura, que estão no meu currículo, e eles eram publicados inicialmente no “Caderno de Sábado” do Correio do Povo, que hoje existe, mas está completamente diferente do que era naquele tempo. O Hohlfeldt trabalhava ali, depois foi vice-governador e trabalhou no Theatro São Pedro, junto com a dona Eva Sopher. Toda essa trajetória estive sempre acompanhando, junto com ele. Na semana passada, iniciamos um curso na Casa da Memória da Federação, onde ele, semanalmente, ministra palestras sobre literatura do Rio Grande do Sul.

Em sua escrita, como os temas foram surgindo?
A minha produção literária hoje está em dez livros, entre romances, novelas, contos, um de crônicas e um sobre liderança duradoura, por causa desse tempo todo que tenho na gestão. E participações em antologias junto com outros escritores, tenho 11, e, mais recentemente, um artigo sobre os médicos e as artes, onde faço toda uma recuperação dos médicos que foram escritores de certo renome na história do Rio Grande do Sul. Essa foi uma pesquisa muito interessante.
Na vida, fui seguindo etapas. Durante algum período me dediquei à literatura africana de língua portuguesa, com muitos trabalhos publicados, e depois escolhi dois autores que achei mais interessantes para meu gosto, aos quais passei a me dedicar com maior intensidade, estudando não só suas biografias, mas os ensaios e livros sobre eles e suas obras. Esses dois autores são Albert Camus, que escreve em francês, nascido na Argélia em 1905, e Franz Kafka, que escreve em alemão, nascido em Praga (hoje República Tcheca), em 1883. Esses dois merecem um lugar especial na minha biblioteca.

Dois mestres, portanto…
Tenho mais de 80 livros sobre eles, para que possa fazer palestras etc. Aliás, sobre Kafka, recebi recentemente um reconhecimento da Embaixada da República Tcheca no Brasil, com sede em Brasília, o que me deixou muito satisfeito. A própria embaixadora esteve no Theatro São Pedro, e tivemos a oportunidade de conviver. Fui convidado para ir a Brasília fazer palestra lá também.

E novidades por chegar?
Sim! Após três anos de trabalho terminei um novo livro, do qual estou falando pela primeira vez, para ti, amigo e sempre atento à minha vida médica, profissional e, principalmente, na literatura. Esse livro vai chamar-se “A marqueza do final dos tempos”. Marqueza com Z. O Z na capa vai ser destacado porque tem um sentido, tem um significado.
Esse livro abrange 130 anos de história do Rio Grande do Sul, porque começa na época de Dom Pedro II, em 1867, em Viamão. Passa-se num asilo e três personagens principais vão contar suas histórias, cada um por um caminho diferente, desde que eram jovens e como chegaram ali. O asilo, para mim, pela profissão, permite conhecer a finitude, os problemas, as doenças, as lembranças e o que acontece lá dentro. Vai ter até um crime nesse asilo ficcional que criei.
Fiz desenhos do asilo, medidas, e uma série de coisas. Acho que vai ser um livro interessante, com um final surpreendente. Os capítulos são curtos e a descrição, a narrativa é o que se chama em literatura de looping, que significa que os capítulos vão e voltam no tempo.
Por exemplo: tem um capítulo de 1867, o seguinte pode ser 1945, o outro 2000, o outro 1968, e assim vai. Vai intercalando, porque aí fica um certo suspense entre uma coisa e outra. O que não impede que o leitor, se quiser saber a história de um dos personagens, leia o capítulo 3, depois o 8, depois o 14, depois o 22, e acompanhe a história dele.

Muito instigante!
Nessas intercalações em relação ao passado e ao presente no asilo, uma série de coisas acontecem. E vai um recado especial acerca da Gazeta do Sul: pelo que me recordo, não sei exatamente o tempo, mas lembro de muitas décadas passadas, sempre a Gazeta do Sul se fez presente na comunidade de Santa Cruz e de toda a região.
Sem o passado não temos história. Tem uma frase que uso frequentemente, no sentido de que o passado é o alicerce do nosso edifício. Não é saudosismo, não é falar que no meu tempo era melhor, não tem nada disso. É a estrutura do edifício, o alicerce, a base de tudo. Em cima dessa estrutura conseguimos crescer, criar o segundo andar, o terceiro, o 10º, o 20º, e chegar no mundo atual com a inteligência artificial e uma série de coisas que têm questões também negativas, mas fazem parte do mundo atual. A frase é assim: o navio do futuro está ancorado no céu do passado.
Então, com isso, nós progredimos. Nós temos que ter nossos museus, nossos guardados, nossas assinaturas, as cartas, os quadros, tudo para que a gente rememore, relembre, veja como crescemos. Aquilo ali é não só uma reverência, mas é em cima disso que construímos o edifício e o navio do futuro.

Como é sua rotina hoje?
Continuo na presidência não só da federação, mas do sistema cooperativo empresarial Unimed RS. Crescemos muito, temos oito vertentes, e a Casa da Memória nos liga à cultura. Continuo estudando literatura intensamente, e é o que muito me ocupa e o que considero, assim, um duplo ofício, né? Talvez trípulo, sendo administrador, médico e o tempo que tenho para continuar estudando literatura.
Houve o falecimento da minha primeira esposa, a mãe dos meus filhos, e também da minha filha em 2005. É um sofrimento inimaginável perder um filho. Fazia 21 anos.
Hoje estou casado com a Jaqueline, que me acompanha há muito tempo e é um amparo, ajuda-me muito nas minhas ações. Sempre digo que as palavras que não se transformam em ações são palavras inúteis. Na família, com o falecimento da Juliana, entraram meu neto, Júlio, que é veterinário e faz parte da composição da família, e a minha neta Sofia, que é filha da minha filha Ana. Temos assim uma estrutura familiar tranquila, de afetos, e nos encontramos e falamos e nos reunimos todas as semanas, sempre junto com a Jaqueline.

Estante de Nilson Luiz May

BOSQUE DA SOLIDÃOPorto Alegre: Scriptum,248 páginas
CÉUS DE PINDORAMAPorto Alegre: WS editor, 2000. 123 páginas
LIDERANÇA DURADOURAPorto Alegre: Scriptum,227 páginas
O LEÃO DA CALÁBRIAPorto Alegre: Scriptum,300 páginas

LEIA AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO PORTAL GAZ

QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!

Romar Behling

Share
Published by
Romar Behling

This website uses cookies.