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PERIGO CONSTANTE

Novo livro de Marli Silveira debate sobre a violência contra a mulher

Foto: Rodrigo Assmann

A escritora Marli Silveira, presidente da Academia de Letras de Santa Cruz

Novo livro da escritora, ensaísta e professora Marli Silveira, presidente da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul, ocupa-se de um dos grandes dramas da sociedade contemporânea: a violência dos homens para com as mulheres, e que assume inúmeras formas. Antes que o dia anoiteça – Ressentimento e feminicídio: uma contribuição, que chega sob o selo da editora Bestiário, de Porto Alegre (a R$ 50,00), propõe, em 150 páginas, reflexão ampla sobre aspectos sociais, educacionais, culturais e econômicos implicados, e que, de forma crescente no Brasil (com números simplesmente alarmantes no Rio Grande do Sul), descambam para atitudes agressivas de homens para com mulheres, dentro e fora do lar, dentro e fora de relações estáveis.

Marli possui ampla formação nas ciências humanas, com atuação em sala de aula, na pesquisa e na extensão. Já com mais de 30 obras, com destaque para poesia e ensaio, apoia-se agora em textos de autores como Heidegger, Nietszche, Agamben, Benjamin e Adorno, mas também em pensadoras de relevância, a exemplo de Judith Butler, Simone de Beauvoir, Sueli Carneiro, Mary del Priore, Jeanne Marie Gagnebin, Maria Rita Kehl (na qual encontra o conceito de ressentimento), Martha Nussbaum (uma das principais interlocutoras de Marli) e Marcia Tiburi (na qual também localiza valiosas informações e inspiração).

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Sobre a questão do ressentimento, como um elemento-chave na ação e na reação violenta dos homens para com as mulheres, ela ressalta: “O indivíduo ressentido é aquele que não consegue suportar a alegria do outro, que sofre justamente por estar preso a uma maquinaria ressentida que vai empurrando para o seu íntimo, este corpo sensível e atravessado pelos apelos e gestos do mundo, o desejo de provocar no outro a mesma dor que sente. Vai tensionando a sua própria vida a um processo contínuo de culpabilização do outro por ser escravo da sua fraqueza. E por sofrer dentro desse circuito retroalimentado pelas próprias figurações imaginárias ou situações para as quais é impotente, procura um agente culpado que seja suscetível de sofrimento. Ou seja, pelo interior do ressentimento, todo aquele que sofre procura fazer sofrer a outro, seja qual for o pretexto.”

ANTES QUE O DIA ANOITEÇA: ressentimento e feminicídio: uma contribuição. Porto Alegre: Bestiário, 2026. 150 p. R$ 50,00.

Olhares externos sobre a problemática

A abordagem teórica proposta por Marli Silveira desdobra-se em uma introdução ao tema, dois capítulos e uma reflexão em torno do título, chamando à urgência da adoção de medidas de contenção da violência e que se mostrem eficazes a curto, médio e longo prazos na relação entre homens e mulheres (restabelecendo um convívio respeitoso e harmônico em todos os ambientes). Há ainda duas contribuições externas, que enriquecem o ensaio. A primeira, o prefácio, é da filósofa e professora Laura de Borba Moosburger, enquanto o posfácio é assinado pela psicanalista, poeta e ensaísta Lea Lubianca Thormann.

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“Não podemos mais escamotear a realidade”

Uma seção instigante e impactante do livro Antes que o dia anoiteça, de Marli Silveira, é a chamada “Cartografia de casos históricos”, com reproduções de notícias e manchetes de jornais, revistas e sites nas quais transparece a extensão das agressões e das violências e, principalmente, dos assassinatos de mulheres, por companheiros ou homens em geral. É uma tragédia que abala toda a estrutura social (filhos, pais, avós, amigos e círculo parental). São impactantes 50 páginas de colagens, selecionadas pela doutoranda de Letras Luana Daniela Ciecelski, integrante do Grupo Leia Mulheres em Santa Cruz, em parceria com Marli.

Esse conjunto expande, de forma contundente, os dados estatísticos que a autora dilui ao longo da obra, e que dão conta da gravidade da tragédia social que se instalou em realidade de Brasil. Como ela salienta, em 2025 o país registrou mais de 1.500 casos de feminicídio, e adverte que, de todo modo, ainda é preciso considerar uma provável subnotificação. Ou seja, trata-se, aí, de casos consumados.

E o problema não é, sob nenhuma hipótese, menor no Rio Grande do Sul, tendo em vista que até meados de junho 40 mulheres haviam sido vítimas de feminicídio no Estado neste ano. Por tais indicadores, além de todo o cenário de violências físicas e psicológicas, obras como a de Marli, ou similares, tornam-se de leitura urgente e indispensável.

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“São leituras duras, mas fundamentais”, comenta Marli, acerca do livro | Foto: Rodrigo Assmann

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Entrevista

Marli Silveira
Escritora e ensaísta

Em teu novo livro, acerca dos feminicídios, apontas a questão do ressentimento. Por que e de que forma ele se manifesta?
O tema dos afetos não é esporádico na minha obra, principalmente nos textos em que articulo categorias da Filosofia. Nos livros O pêndulo da angústia, Daseinspedagogia e Psicagogia da experiência estética, para citar alguns, indico a relação entre os afetos e a ética originária, a educabilidade e a condução estética de base ontológico-existencial, respectivamente.
Agora, em Antes que o dia anoiteça, procuro explicitar a relação entre o afeto do ressentimento e o feminicídio. Quando ancoramos nosso estudo na perspectiva nietzschiana, alargada pelas leituras psicanalíticas e antropológicas, reconhecemos as implicações desse afeto no gesto feminicida. A reatividade e a memória recalcitrante, para citar dois aspectos importantes, ambientam, circulam e atravessam a existência de homens violentos.
Disso não decorre que todos os afetados pelo ressentimento sejam feminicidas e que também pudéssemos ignorar outros aspectos importantes que concorrem para a potencialização da violência contra a mulher, como este sistema patriarcal e misógino que referencia e orienta o manejo cultural e existencial em que estamos inseridos.
Acredito, contudo, como tentei demonstrar na obra, que o ressentimento está implícito no gesto feminicida, inclusive, em pesquisas que reconhecem a dimensão afetiva que circula no espaço doméstico, esse humor aparece “agarrado” à circularidade referencial e autorreferencial. Podemos dizer que há uma gramática afetiva que circula e orienta comportamentos e modos de se compreender e visibilizar ou invisibilizar, produzindo e implicando a existência humana no mundo e no tempo. 
É importante ressaltar pelo menos duas outras questões: que o livro e a minha postura teórica não têm como mote psicologizar o feminicídio e a violência, mas reconhecer as implicações de afetos na e para a existência humana, e o que entendemos por afeto, ou seja, quais são os marcadores que orientam a nossa compreensão dos afetos. É importante que o livro seja lido.

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Por onde, em tua avaliação, a sociedade deve começar um real e eficiente enfrentamento da violência contra a mulher na sociedade contemporânea?
Percebemos alguns movimentos na sociedade, entre eles, e de um lado, uma crescente apresentação da mulher, ocupando lugares e posições que eram reconhecidos como masculinas. De outro, um processo inverso, uma espécie de resistência, inclusive odiosa, de grupos e pessoas que se articulam existencialmente a partir de afetos que alimentam e retroalimentam práticas e discursos violentos, preconceituosos e avessos às mulheres. Como existências “fracassadas” que não podem voltar no tempo para refazer experiências e organizam suas vidas a partir de certo compromisso para que a vida dos outros, que consideram menor e/ou responsável pelo seu fracasso, sejam igualmente esmagadas.
Em termos gerais, pode-se dizer que há uma circulação de afetos impeditivos do vigor existencial que decorre, do ponto de vista cultural, dessa contínua exposição à falta de uma orientação segura, com papéis determinados, em que prevalece um desejo de se voltar ao passado, de se repetir scripts e experiências. O ódio está para o ressentimento como a alegria para a compaixão. Percebemos também outro movimento: certa parcimônia por parte daqueles (daquelas) que se sentem confortáveis nos seus nichos, socialmente percebidos como intelectual e ideologicamente solidários e corretos. O caso do feminicídio expõe a complexa e dura realidade de se alastrar por todos os matizes culturais, econômicos, formativos etc., mesmo que existam grupos e contextos mais vulneráveis. É como reconhecer que todos os homens são potencialmente violentos e as mulheres matáveis.
Tem outro dado, e é assustador, que também se dirige a outras formas de violência: a localização antropológica. A violência contra a mulher ocorre dentro de casa ou nos espaços e relações que ela mantém. Não é por acaso que Marcia Tiburi faz uma leitura do lar/espaço doméstico pelo recorte de Agamben, inserindo o corpo da mulher no âmbito do homo sacer e da vida nua. Como um corpo reduzido e confinado, desamparado e matável. 
São leituras duras, mas fundamentais. Então, creio que um dos primeiros passos é o reconhecimento de que somos uma sociedade violenta, que desde muito agride e é implacável contra as mulheres. Que a história e a vida das mulheres se confundem com a violência. Talvez um segundo passo seja no sentido de (re)abotoar a formatividade aos princípios humanísticos. E aqui não falo apenas do espaço da escola, mas de todos os espaços pelos quais circulam afetos, discursos e práticas que orientam a nossa disposição existencial. Enquanto o manejo compreensivo de nós e do mundo estiver atrelado a orientações violentas e desprovidas de ética, embebido de afetos embrutecedores e alargados pelas bolhas covardes que confundem e empobrecem a socialidade humana, continuaremos orbitando contextos aterrorizadores.
É preciso que a gente se diga; enfrentar e se colocar em jogo. Também sou, também somos violentos.
Que tipo de discursos ou de espaços, em sociedade, têm sido mais coniventes com a atuação agressiva dos homens, em tua percepção? Como se contrapor a eles ou desarmá-los (esses discursos)?
Se olharmos debaixo para cima (como exercício de pensamento), compreendendo que somos constituídos pelo que nos acontece, pelos sentidos advindos dessa trama antropológica, poderíamos considerar, talvez com desníveis, que todos os espaços são violentos.
A violência não é apenas física; em muitos casos a violência física representa o ápice de um sistema e programa continuados de esgarçamento humano. A própria sociedade, para poder suportar a dinâmica desigual, castradora e fracassada, empurra para certos contextos e grupos a visibilização da violência, tornando aceitáveis e toleráveis situações e mortes.
Não podemos fugir ou escamotear a realidade; não podemos continuar invisibilizando e naturalizando violências e desumanidades.
“Quantas experiências ainda serão necessárias para se saber que já não temos mais tempo para comparar violências e medi-las pelos padrões de suportabilidade do lado que escolhemos”, como escrevo no livro.

Por que, em tua avaliação, o maior rigor das leis não tem sido suficiente para estancar o problema? É porque a questão está além?
No caso da violência contra a mulher, muitos são os aspectos envolvidos e tal complexidade acaba impondo uma barreira importante na efetiva abrangência das leis e dos programas que atuam para contrapor esse quadro. Eu acrescentaria ainda outro ponto nessa discussão: o empobrecimento da mulher. Há um processo continuado de empobrecimento da mulher, empurrada para situações de vulnerabilidade econômica, social e cultural, tornando-se vítima em potencial da violência.
A proximidade com a extrema vulnerabilidade tem sido um fator fundamental tanto na captura da mulher pelo crime quanto pela miséria e pela sujeição social. Os afetos e o sistema patriarcal, combinados ao lar como esse espaço em que há a autorização para se matar mulheres, potencializam a violência. De outro, precisamos reconhecer a importância e a necessidade dos marcadores legais e de programas voltados às mulheres, pois sem eles a realidade seria ainda mais dura e violenta.

Como seria ou o que esperarias, para o futuro, de uma relação mais harmônica, saudável, positiva e proativa entre homens e mulheres?
Há em mim uma disposição para sonhar e imaginar outros mundos, mas já não sei se temos mais tempo. Há um cansaço humano orbitando os espaços dos sonhadores e todos/todas que um dia defenderam a vida. Os discursos e a cultura de violência arrastam a humanidade para o precipício, um simples sopro nos empurrará para a queda e o colapso de um projeto de humanidade. No fundo, se pensarmos bem, somos no mínimo “cúmplices” de alguma forma de violência. Reconhecer, quem sabe, seja um suspiro.  

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