Certo dia, estávamos em Rio Pardo, à beira do rio Jacuí, e uma pessoa que estava conosco sugeriu que eu poderia escrever um romance sobre aquele momento, aquela paisagem. Respondi que não era bem assim, que romance exigia muito mais do que uma fotografia momentânea. Na feira do livro de Santa Cruz do Sul, no ano passado, o amigo Mauro Ulrich me questionou se eu nunca tinha pensado em me aventurar num projeto mais amplo como, por exemplo, escrever um romance. Respondi que não, porque considerava que meu limite maior era a crônica, a que me dedico verdadeiramente desde que aceitei escrever esta coluna.
Escrever é um grande exercício humano. Pode responder a questões simples, práticas, corriqueiras, assim como pode enveredar pelos mais profundos sentimentos, pelos mais densos pensamentos ou desejos que habitam ou invadem nossa alma. Podemos escrever para os outros, mas também para nós mesmos, exercício que tantas pessoas faziam ao escrever seus íntimos e secretos diários, muitos deles destruídos antes de receber qualquer olhar alheio.
O nosso imortal, aqui no verdadeiro sentido de quem merece ser considerado como tal, Moacyr Scliar deixou esta clara e exata reflexão: “Um escritor não é apenas quem tem boas histórias para contar. É quem tem, muitas vezes, grande dificuldade com as palavras. Daí a necessidade de encarar a profissão como trabalho e um eterno exercício.” Essa compreensão não se limita apenas ao escritor literário, mas serve também, e muito, a qualquer professor que queira ensinar seus alunos a escrever. O bom texto nasce da insistência, da persistência, do exercício incansável da repetição. Drummond já advertia que escrever é, desde o amanhecer, lutar com as palavras, embora, ao final do dia, elas insistam em nos derrotar.
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Não existe gênero literário mais fácil ou mais difícil. Quem escreve tem que conhecer o limite até onde suas pernas o possam levar. Poesia, por exemplo, não alcança esse status numa frágil junção de rimas. Pode ser opaca, hermética, como pode também com a maior simplicidade derramar emoção imensurável. Veja-se esse breve poema de Carlos Drummond de Andrade. “Suas mãos. Aquele doce que ela faz/ quem mais saberia fazê-lo?/ Tentam, insistem, caprichando./ Mandam vir o leite mais nobre./ Ovos de qualidade são os mesmos/manteiga, a mesma,/ iguais açúcar e canela. / É tudo igual. As mãos (as mães?) são diferentes.” Quantas vezes já dissemos ou ouvimos dizer que esse sagu é bom, mas nada como aquele que minha mãe fazia. Na simplicidade dos versos do poeta, um grande manifesto de saudade e de amor.
O romance e a novela são gêneros mais espraiados, construídos, em geral, a partir de um conflito. Assim que este se apresenta, jogamos toda a nossa expectativa para como ele vai ser solucionado. O final pode estar a oitenta, duzentas ou oitocentas páginas, cabendo ao autor capturar o leitor até o desfecho. Há espaços, há tempo, personagens, cenários sociais, dramas psicológicos, tudo arquitetado por alguém que domina a linguagem e sabe contar bem uma história. O conto, gênero também maravilhoso, faz parte da mesma família.
Escrever faz bem para a alma. É uma forma muito generosa de preencher uma vida. Talvez seja um pouco exagerado dizer que esta se torna completa quando temos um filho, plantamos uma árvore e escrevemos um livro. Para não criar tormentos, dou uma sugestão: troque escrever um livro por ler um livro. Quanto ao filho, fica a seu critério.
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