Grupo Leia Mulheres completa seis anos de incentivo à leitura em Santa Cruz
Uma por todas e todas pelas obras de autoria feminina: Luana Ciecelski, Rosiana Kist e Ana Luiza Martins, do Leia Mulheres
No próximo dia 18 de março, uma iniciativa em favor da apreciação de obras literárias de autoria feminina vai comemorar seis anos de existência em Santa Cruz do Sul. Leia Mulheres: o nome já é, de pronto, um convite. E ele foi idealizado ainda em 2019, quando as três coordenadoras, Ana Luiza Martins, Luana Ciecelski e Rosiana Kist, se conheceram no ambiente de pós-graduação em Letras, na Unisc. Em comum, muito mais do que carregar a “ana” no nome, como brincam: em especial, a paixão pela literatura e pela leitura.
Na época, Ana era doutoranda, e Luana e Rosiana, mestrandas na instituição. Hoje, a primeira leciona língua portuguesa na rede municipal de ensino de Candelária, e as outras duas são doutorandas. Ficaram sabendo pelo professor Rafael Guimarães de um movimento de estímulo à leitura de obras de mulheres que existia em nível nacional, com grupos em diferentes cidades, como Porto Alegre. Logo se entusiasmaram e criaram um similar em Santa Cruz.
O primeiro encontro, em março de 2020, ocorreu no Café Dona Boleira. A ação presencial, veja só, foi interrompida ali mesmo: na semana seguinte, a pandemia levava ao impedimento das atividades sociais. Mas elas não se renderam: por dois meses, alimentaram a resiliência, aguardaram pela ocasião de iniciar encontros virtuais e logo retomaram as conversas e a interação, agora pela internet.
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Primeiro encontro do Leia Mulheres, em 18 de março de 2020
1o Encontro de Escritoras da Região, na Feira do Livro de 2025
Naquela primeira atividade, comentaram a novela Querido Arthur, da escritora gaúcha Lélia Almeida. Na seguinte, na retomada, ainda durante a pandemia, a atenção recaiu sobre Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Seguiam à risca a proposta original, que Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques conduzem no País (confira em leiamulheres.com.br): os integrantes podem ser homens e mulheres, mas os textos, só de autoria feminina.
O Leia Mulheres Santa Cruz do Sul, que Ana, Luana e Rosiana coordenam, promove um encontro mensal no último sábado do mês, às 16h30, em local itinerante. As reuniões de janeiro e fevereiro debateram, pela ordem, Mel amargo, de Joana Tartari Klein, porto-alegrense cuja família é originária de Santa Cruz, e Tempo entre costuras, da espanhola María Dueñas.
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No próximo sábado, 14, o Leia Mulheres organiza sarau em parceria com a Academia de Letras de Santa Cruz do Sul, na Casa das Artes Regina Simonis, alusivo ao Dia Internacional da Mulher, que transcorre neste domingo. Já no último sábado do mês, no dia 28, o encontro regular do grupo vai debater a leitura de A livraria dos achados e perdidos, da norte-americana Susan Wiggs. Interessados em acompanhar a programação regular do Leia Mulheres podem acessar o Instagram @leia_mulheres_scs ou fazer contato pelo e-mail leiamulheresscs@gmail.com.br.
O êxito da iniciativa nacional do Leia Mulheres é tamanho que o projeto foi finalista do Prêmio Jabuti, o mais importante da cena literária nacional, em 2025. Isso deu ampla visibilidade e reconhecimento à ação, criada em 2015 e inspirada na campanha ReadWomen2014, da britânica Joanna Walsh.
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Hoje, o projeto está em mais de cem cidades no Brasil e no exterior, com aproximadamente 400 mediadoras voluntárias. Em Santa Cruz, contam Ana Luiza Martins, Luana Ciecelski e Rosiana Kist, há muitas pessoas agregadas aos grupos de WhatsApp e de Instagram que acompanham as atividades. Em média, de dez a 15 participam dos encontros de debates. No Rio Grande do Sul, várias cidades têm ação similar, de Porto Alegre a Passo Fundo, Caxias do Sul e Encruzilhada do Sul. Há expectativa de promover maior aproximação entre esses grupos no Estado.
Em nível local, registrou sucesso o 1o Encontro de Escritoras da Região, que o Leia Mulheres promoveu na Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, em 2 de agosto de 2025. A iniciativa deu tão certo que a proposta é de organizar reunião similar na Feira do LIvro em 2026. O Magazine convidou Ana, Luana e Rosiana a comentarem suas preferências literárias. Confira.
Naturalidade, idade e formação: Santa Cruz do Sul, 38 anos, doutoranda em Letras e formação em Comunicação Social/Relações Públicas e em Letras.
Se tivesse de citar um livro escrito por mulher, qual seria? Um teto todo seu, de Virginia Woolf.
Três autoras de sua predileção: Difícil escolher apenas três, mas, hoje, Aline Bei, Mariana Salomão Carrara e Conceição Evaristo.
Qual seu gênero de texto preferido? Romance/prosa.
Qual seu personagem literário inesquecível? Frankenstein, de Mary Shelley.
Qual livro e de qual autora fixa como meta ler em breve? Dezenas! Um deles é o novo livro da Marilene Felinto, Corsária.
Uma frase inesquecível que leu em livro recentemente, e de quem é: “A vida é feita de palavras, elas explicam e fazem nascer e morrer. […] Estar vivo é ser palavra na boca de alguém.” Socorro Acioli, em Oração para desaparecer.
De autoria masculina, qual seu livro preferencial? Cal, do José Luís Peixoto.
Que autora teve a oportunidade de encontrar e que jamais esquece: Lya Luft. Ela foi um dos temas da minha dissertação. Encontrei-a em uma das passagens por Santa Cruz do Sul, há mais de 20 anos.
Por que ler? Para compreender e questionar a realidade e os outros, porque desenvolve nosso pensamento crítico. Mas também porque literatura é arte e afeto, é encontro. É alimento simbólico que nutre sem pedir desempenho em troca!
Por que ler mulheres? Para além de dezenas de outros aspectos, pela herança intelectual que as mulheres podem deixar para a sociedade. Historicamente, o acesso ao conhecimento sempre foi negado a elas. Escrever, hoje, é um ato de existência e de liberdade.
Luana Daniela Ciecelski
Foto: Rodrigo Assmann
Naturalidade, idade e formação: santa-cruzense, 32 anos, jornalista formada, biblioterapeuta, mestre e doutoranda em Letras.
Qual livro escrito por mulher cita? Ao farol, de Virginia Woolf.
Três autoras prediletas: Mary Shelley, Sophia de Mello Breyner Andresen e Rosamunde Pilcher.
Qual gênero de texto preferido? Romances históricos e ficção atual.
Qual seu personagem literário inesquecível? A Manuela, de A casa das sete mulheres.
Qual livro e de qual autora fixa como meta ler em breve? A cachorra, de Pilar Quintana. E Mary Del Priori.
Uma frase inesquecível: “Não julgue cada dia pela colheita que tiver, mas pelas sementes que puser na terra.” De Água fresca para as flores, de Valérie Perrin.
De autoria masculina, qual seu livro preferencial? Tenho gostado muito de ler Ailton Krenak. A vida não é útil é um dos que eu destacaria.
Que autora teve a oportunidade de encontrar e não esquece: A Maria Valéria Rezende participou de um encontro online do Leia Mulheres. Foi muito marcante.
Por que ler? Como pesquisadora, sei que há muitos benefícios cognitivos e emocionais. Mas como leitora, mediadora e biblioterapeuta, sei que a resposta é sempre movida pelo pessoal. No meu caso, leio porque os livros “sempre me devolveram a mim”, como diz Carla Madeira em A natureza da mordida.
Por que ler mulheres? Porque as histórias que elas contam são carregadas de camadas da experiência humana que só as mulheres acessam, e, portanto, só elas podem colocar no papel (mas que homens podem ler e fazer o exercício de tentar compreender). Porque elas ainda enfrentam preconceito e consequências de um mundo historicamente construído por homens para os homens, e que torna muito mais difícil seu trabalho. Ler mulheres é fazer justiça.
Ana Luiza Martins
Foto: Rodrigo Assmann
Naturalidade, idade e formação: Santa Cruz do Sul, 44 anos, professora, doutora em Letras.
Se tivesse de citar um único livro escrito por mulher, qual seria? Um teto todo seu, de Virginia Woolf.
Três autoras de sua predileção: Adélia Prado, Socorro Acioli e Norma Mogrovejo.
Qual seu gênero de texto preferido? Poesia e os de não ficção que refletem sobre a condição humana em amplos aspectos.
Qual seu personagem literário inesquecível? Macabéa, de A hora da estrela, da Clarice Lispector. Foi uma leitura tão impactante na adolescência que sonhei com a personagem algumas vezes.
Qual livro e de qual autora pretende ler em breve? A fraude, de Zadie Smith
Uma frase inesquecível que leu em livro recentemente, e de quem: “As pessoas são maravilhosas, mas também são caóticas.” Carolina de Robertis, em O presidente e o sapo.
De autoria masculina, qual seu livro preferencial? Estrela da vida inteira, de Manuel Bandeira
Que autora encontrou, e que jamais esquece: Foi muito marcante ouvir, ver de perto e trocar algumas palavras com Marina Colasanti.
Por que ler? Ler é conhecer-se e conhecer o mundo. Os livros sempre foram, para mim, possibilidades de entender a vida e meu entorno.
Por que ler mulheres? Primeiro, por uma questão de justiça, considerando que as mulheres tiveram suas vozes silenciadas por muitos séculos. Depois, porque há milhares de escritoras maravilhosas!
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