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Homenagem a Orelha

Especialmente na semana passada, o Brasil chorou por Orelha, o adorável cachorro comunitário que foi morto de forma tão covarde quanto cruel. Entre todas as informações a que tive acesso a respeito da barbaridade que ocorreu, a melhor análise sobre o fenômeno por trás do ocorrido (seja pelo prisma sociológico, filosófico ou antropológico) foi a do advogado Fabiano Kingeski Clementel.

O professor Clementel, baita ser humano, foi paraninfo da minha turma de formatura em Direito pela PUCRS. Com a mesma empatia crítica e interdisciplinaridade com as quais nos ministrava teoria e prática do Processual Penal, Clementel compôs a seguinte reflexão:

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“O Cão Orelha, Kant e Singer: um espelho da ‘nossa’ humanidade. A notícia do cão Orelha, em Florianópolis, não pede análise fria. Ela atravessa. Não é mais um caso – é um espelho. Daqueles que a gente evita encarar por muito tempo, porque devolve um rosto que não gostamos de ver. Orelha não falou, não se explicou, não se defendeu. Mas sentiu. E sentir basta para importar. Animais sentem dor, medo, angústia – isso não é poesia, é realidade.

Como lembraria Peter Singer, a capacidade de sofrer é o que torna alguém moralmente relevante. O resto são narrativas que inventamos para seguir adiante sem mudar de caminho. Kant, mesmo preso ao seu tempo e ao seu antropocentrismo, intuiu algo simples e profundo: podemos medir o coração de um homem pela forma como ele trata os animais. Não porque os bichos sejam iguais a nós, mas porque a crueldade nunca é seletiva. Ela começa pequena, cotidiana, quase banal – e, sem que se perceba, vai moldando quem a pratica.

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Talvez por isso a memória convoque figuras incômodas da história, de relatos de violências extremas precedidas por gestos menores, ignorados, normalizados. Não como regra, não como destino, mas como sintoma. Quando a dor do outro vira entretenimento, algo essencial já se rompeu.

Orelha era, para muitos, um símbolo de empatia, desse amor quase idílico que projetamos nos animais – e que me remete ao meu Romeu. Mas ele não virou símbolo da maldade por escolha. Pelo contrário: virou porque sofreu. E o modo como reagimos – se transformamos essa dor em reflexão ou em espetáculo – diz mais sobre nós do que sobre qualquer agressor.

No fim, ele não foi apenas um cão. Não é bandeira, não é metáfora. É de um ser vivo que sentiu medo e dor que se trata, e a maneira como lidamos com histórias assim revela, sem disfarces, o tipo de humanidade que estamos cultivando. Talvez seja isso que filósofos, cronistas e até o silêncio dos animais tentem nos dizer há séculos: não é sobre eles. Sempre foi sobre nós. E essa história, infelizmente, ainda está sendo escrita.”

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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