A final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha, no próximo domingo, 19, encerra um ciclo esportivo que foi promovido pela Fifa – a entidade máxima do futebol – como o mais inclusivo da história. Esse argumento se baseava na expansão do número de seleções participantes do torneio (48, no lugar das habituais 32) e na implementação de novos protocolos antirracismo.
Contudo, talvez sem nenhuma surpresa para muita gente, o balanço prático da Copa contradiz a retórica oficial. A competição foi marcada por recorrentes episódios de preconceito e xenofobia, direcionados majoritariamente a atletas negros sob a alegação de que “não pertenceriam” aos países que defendem.
Isso já é muito ruim, mas penso que há algo ainda mais alarmante. Além da manutenção do racismo estrutural no esporte, o preconceito deixou de se restringir ao anonimato das redes sociais ou ao comportamento de torcedores nas arquibancadas, embora isso também tenha ocorrido. Ele passou a ser manifestado publicamente por autoridades políticas de alto escalão.
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Dois episódios exemplificam isso de forma marcante. O primeiro envolveu a senadora paraguaia Celeste Amarilla, que utilizou as redes sociais para desferir ataques de cunho racista contra o atacante francês Kylian Mbappé.
O segundo partiu do ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que publicou um artigo de opinião afirmando que a seleção da França possuía um elenco de alto nível, porém “sem franceses”, em clara contestação à legitimidade e à identidade nacional dos atletas negros da equipe. O que mudou para que líderes políticos se sintam confortáveis para endossar discursos discriminatórios? A intolerância não é só obra de patetas nas redes sociais, está também enraizada nas esferas de poder?
Claro, nada disso chega a ser muito novo, infelizmente. Mas é importante destacar essas questões sempre porque, no meu modo de ver, elas ganharam pouca repercussão durante esta Copa do Mundo. Absortos na questão esportiva, torcedores, analistas e líderes de todo tipo quase nada falaram sobre episódios como os que atingiram jogadores da Holanda e da Alemanha. Atletas de minorias étnicas, exaltados diante de eventual sucesso das equipes, foram imediatamente alvos de insultos e rejeição identitária quando das eliminações.
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De uma certa forma, sabemos o que está acontecendo. A emergência de ideologias políticas extremadas – que condenam movimentos naturais da humanidade como a imigração – tornou tudo mais difícil para uma ampla gama de grupos. E criou situações estranhas como a dualidade de uma indústria que monetiza o discurso de diversidade em campanhas publicitárias mas, de outro, falha na proteção dos protagonistas, quando vemos federações internacionais e governos tratarem manifestações racistas como incidentes isolados.
Será que voltaremos à época em que essas atitudes eram amplamente condenadas, o que resultou em avanços importantes? Vamos conseguir andar para trás para obter algum avanço?
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