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Memória: do Lamento ao Vale da Salvação

Quem percorre o interior de Santa Cruz do Sul não deixa de observar que, nas placas indicativas com o nome das localidades, aparecem também suas antigas denominações, em língua alemã, criadas pelos imigrantes. Elas não eram oficiais, mas nascidas de observações feitas pelos moradores.

O cônego João Alberto Hickmann (1904–1982), que atuou em várias comunidades, aproveitou suas andanças e organizou uma coletânea desses topônimos. Em março de 1979, em entrevista à Gazeta, falou sobre esses nomes engraçados. Alguns possuíam conotação pejorativa e serviam para “zoar” outras localidades. É o caso de Linha Cerro do Baú, conhecida por Jammerthal (vale dos lamentos). Dizia-se que os colonos de lá eram chorões e viviam se queixando que a colheita foi ruim, que as vacas davam pouco leite e os porcos comiam muito e não engordavam.

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Linha João Alves chamava-se Rettungspikad (picada da salvação). O padre apurou que um morador endividado costumava bater de porta em porta para pedir dinheiro. Quando alguém o atendia, exclamava: “Jetzt bin ich gerettet!”. Ou seja, “agora estou salvo!”. Quarta Linha Nova tinha o apelido de Bataterberg (morro das batatas). Os colonos sovinas torravam batata-doce, moíam e misturavam com grãos de café, resultando em um líquido difícil de engolir.  

Outros nomes trazem informações relevantes sobre o nosso interior. Linha São João da Serra era conhecida por Kochloeffel (colher de cozinhar). Lá residiam colonos especialistas na confecção de colheres de pau, ideais para mexer os tachos de schimier e de banha. Já a picada que hoje é o Acesso Grasel em direção à Avenida Leo Kraether denominava-se Keesschmeapikad, pois abrigava produtores de leite, nata e requeijão que abasteciam os santa-cruzenses.

Zuckerrohrecke (canto da cana-de-açúcar) nos revela que, em Linha Nova, produzia-se muita cana e de lá vinham a cachaça, a schimier e o melado consumidos na cidade. Desde 2010, por iniciativa do então vereador Nasário Bohnen, essas curiosas denominações constam nas placas indicativas das estradas do interior.

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Pesquisa: Arquivo da Gazeta

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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Lavignea Witt

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