Colunistas

Não está nas placas

Há algum tempo, participei de uma prova de corrida em Vera Cruz. Admito que não conheço muito da cidade vizinha, mas admiro iniciativas que são desenvolvidas por lá.

Em meio aos passos, ainda nos primeiros metros do percurso, uma placa me chamou a atenção: Rua Clarice Lispector. Um sopro de brisa fresca. Interessante ver uma de nossas grandes escritoras homenageada como nome de via pública. 

Logo fui percebendo outras inscrições daquela redondeza: Avenida Iberê Camargo, Rua Moacyr Scliar, Rua Pixinguinha, Rua Barão de Itararé. Figuras fundamentais de nossa cultura, muitas não lembradas como deveriam. Não identifiquei a autoria das homenagens, mas fica aqui meu reconhecimento.

Publicidade

LEIA TAMBÉM: O peso da coroa

Penso aqui em Santa Cruz do Sul. A principal via de nosso Distrito Industrial, onde se instalam grandes empresas que representam desenvolvimento ao município, chama-se Avenida Presidente Castelo Branco – homenagem ao ditador que, entre seus  “memoráveis” feitos, assinou em 1965 o AI-2. Acabando com o sistema pluripartidário e sepultando a já fragilizada democracia brasileira.

De fato, não estamos acostumados a pensar muito sobre quem dá nome às nossas ruas. Afinal, muitos de nós mencionam diariamente o Marechal Floriano, o Tenente-Coronel Brito ou o Júlio de Castilhos sem nem ter ideia de quem sejam. Mas, ao denominar uma via pública, seu nome torna-se parte do cotidiano da população. Essa é a natureza de tal tipo de homenagem – fazer a pessoa ser lembrada pelas gerações seguintes.

Publicidade

Portanto, não é pequena a responsabilidade de quem decide o nome de nossas vias. Significa levar adiante alguém que merece seguir vivo na memória. É fundamental que nas placas estejam indivíduos que tenham um legado a ser deixado para as novas gerações que vivem e convivem naquele lugar. 

LEIA TAMBÉM: Todo dia uma nova história

No ano passado, 23 ruas santa-cruzenses receberam novos nomes em homenagem a pessoas já falecidas, por meio da indicação de vereadores. Em comum, todas as figuras tiveram trajetórias construídas no município e foram presentes na vida comunitária. Entre suas áreas de atuação, o meio empresarial, a atividade agrícola, o ensino e a cultura.

Publicidade

Já são avanços: enfim, nossas vias são denominadas em homenagem a pessoas que, de fato, construíram identificação com essa terra.

Em tempo: desde 2023, é lei em Santa Cruz do Sul que ao menos 30% dos nomes de ruas sejam em homenagem a mulheres. Uma forma de reparação histórica, diante de séculos de apagamento – basta observar, nenhuma rua do centro da cidade foi denominada em homenagem a alguma figura feminina. Ainda não chegamos a tal objetivo, mas já temos respaldo legal.

LEIA TAMBÉM: A importância de aprender a dizer não

Publicidade

Para termos uma cidade democrática e que faça justiça à própria história, é necessário que saibamos relembrar as pessoas certas. Placas são fragmentos da memória que construímos ao longo de séculos.

E é quase como uma contradição: ao mesmo tempo em que os nomes estão eternizados, eles muito pouco são associados a quem de fato se referem. Não adianta só estarem escritos nas esquinas, eles precisam se relacionar com a cidade de hoje. 

Em Porto Alegre, as identificações de ruas já contêm uma pequena introdução com informações históricas dos homenageados. É um bom caminho. Mas a valorização de nosso passado não passa só por aí; ela precisa ser contínua, difundida e reinventada. Podemos começar por algo tão simples quanto placas.

Publicidade

LEIA MAIS DA COLUNA FORA DE PAUTA

QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!

Karoline Rosa

Share
Published by
Karoline Rosa

This website uses cookies.