Valesca de Assis

Como e por que me tornei gremista

Mais do que amar, eu adorava meu pai. Embora reconheça, hoje, que o trabalho duro de imprimir bons hábitos e corrigir rumos tenha ficado todo por conta da mãe, a Verdade, a palavra definitiva e mesmo os piores silêncios sempre vieram do pai, uma espécie de oráculo. É uma danação feminina essa de amar cegamente o pai. E mesmo quando uma mulher odeia o pai, esse ódio vem da mais profunda mágoa de amor. Assim sendo, jamais passou pela minha inocência que papai fosse capaz de me enganar. De outro lado, é muito antigo em mim um natural estado de compaixão: tudo o que é pequeno, frágil, abandonado, com fome ou dor me “chama” a amparar. Isso, por inato, não chega a ser uma virtude, mas me move. (Minha filha, quando pequena, dizia que eu era muito penajosa.)

Tais variáveis – o caráter compassivo e a confiança irrestrita – foram decisivas para escolher o Grêmio Foot-ball Porto-Alegrense. Pois um dia, chegada a época de torcer por um time da capital, perguntei: qual o time que anda perdendo mais, o Inter ou o Grêmio? O Grêmio! meu pai respondeu, o goleiro deles é muito frangueiro. Não era de todo mentira, mas o pai, colorado que era, também foi esperto, acrescentando que o Grêmio estava na lona, esmagado. Ele não precisou dizer mais nada: tomei para mim aquelas almas vencidas e as aconcheguei no meu quentinho coração de criança. 

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Mas não é que, pouco tempo depois, o Grêmio começou a ganhar uma partida atrás da outra, ano após ano, até chegar a ser Campeão Mundial?! Alguém até poderá concluir que, por causa disso, eu tenha passado a torcer para o Inter. Nada mais errado, embora com certa lógica. Acontece que uma pessoa pode trocar de quase tudo – emprego, casa, país, até de galáxia – mas nunca trocará o time pelo qual torce. Além do que, aprendi a gostar de ganhar. 

Como em qualquer caso de amor, não recebo flores todos os dias. O Grêmio às vezes me magoa com derrotas inexplicáveis e que me expõem a situações vergonhosas. As piores fases foram as de segunda divisão. Muitos, então, apostavam que eu desistiria. Apostaram mal! Depois de breves decepções, voltamos, o Grêmio e eu, ainda mais fortes, para a morada dos deuses, que era o Olímpico e, agora, é a Arena dos heróis. Confesso que ainda há altos e baixos, mas vida de gremista é assim mesmo: um eterno exercício de democracia. 

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A propósito, meu pai sempre foi um colorado fiel e deixou herdeiros: meus dois irmãos e um monte de netos e bisnetos, inclusive os meus!

Obrigada, sempre, por me lerem!

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Karoline Rosa

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