Poucos temas geram tanta ansiedade entre trabalhadores brasileiros quanto esta pergunta: o INSS vai acabar? A dúvida mistura desconfiança histórica com a turbulência recente de escândalos e reformas. A resposta curta? Não, o INSS não vai acabar. Mas a resposta precisa de mais explicações.
Para entender por que a pergunta existe, é preciso olhar para o cenário recente. Em 2025, a Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela CGU, revelou um esquema de descontos ilegais que afetou milhões de aposentados e pensionistas. Entidades sem qualquer estrutura ou serviço prestado receberam milhões sem autorização dos beneficiários. Para uma população que já desconfia das instituições, ver um escândalo desse porte emergir do órgão que deveria protegê-la foi um golpe duro na confiança, ainda mais que esse não é o primeiro rombo (alguém lembra da Jorgina?).
A pergunta precisa ser desmontada em camadas. O INSS como autarquia é apenas o operador do sistema. O que verdadeiramente está em jogo é a sobrevivência do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) – o sistema solidário que garante aposentadorias, pensões e benefícios a mais de 40 milhões de brasileiros. O sistema é baseado na solidariedade intergeracional: quem trabalha hoje financia a aposentadoria de quem já trabalhou. É um contrato social entre gerações, não uma poupança individual.
Publicidade
Essa distinção é fundamental para entender por que as propostas de substituição por capitalização individual representam uma ameaça real. Não é de hoje que setores do mercado financeiro defendem esse modelo – no qual cada trabalhador acumula recursos em uma conta individual gerida por instituições privadas. O argumento é de eficiência fiscal, mas as experiências internacionais contam uma história diferente.
O caso mais trágico é o Chile, pioneiro na capitalização pura desde os anos 1980. Décadas depois, multidões de idosos que contribuíram a vida toda receberam aposentadorias insuficientes para viver com dignidade – muitos precisaram voltar a trabalhar na terceira idade. A reforma do sistema tornou-se uma das principais bandeiras dos protestos de 2019. No Brasil, a proposta de capitalização foi incluída na proposta da reforma da previdência de 2019, mas retirada após forte resistência. O debate, porém, não morreu.
A capitalização transforma a previdência de direito social em produto financeiro – sujeito a inflação, crises e quebras. Os mais vulneráveis e os trabalhadores informais seriam os mais prejudicados, pois suas contas individuais acumulariam muito menos do que o necessário para uma aposentadoria digna.
Publicidade
Isso não significa que o INSS não enfrenta problemas sérios. A digitalização acelerada criou um novo tipo de exclusão: as filas das agências migraram para o ambiente digital, e a população mais idosa é frequentemente a que tem mais dificuldade com os canais online. A redução no quadro de servidores é outro ponto crítico – aposentadorias que levavam entre 45 e 90 dias passaram a demorar mais de 180 dias em alguns casos.
O caminho não é destruir o INSS, mas fortalecê-lo: recomposição do quadro de servidores, modernização dos sistemas, mecanismos eficazes de fiscalização e equilíbrio entre atendimento digital e presencial. Quanto à viabilidade do sistema, é preciso olhar para a arrecadação, mas isso já é assunto para outra coluna.
Voltando à pergunta inicial: o INSS vai acabar? Não. A previdência protege aposentados, trabalhadores incapacitados, famílias que perdem provedores, gestantes, pescadores artesanais e trabalhadores rurais. O que está em jogo é o modelo de sociedade que queremos construir: uma em que o risco da vida é compartilhado coletivamente, ou uma em que cada indivíduo está entregue à própria sorte. O INSS precisa de reforma, transparência e investimento – não de abandono.
Publicidade
LEIA MAIS TEXTOS DE JANE BERWANGER
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!
Publicidade
This website uses cookies.