Elenor Schneider

O tropeiro, a filha e o revólver

Há muitas histórias em nossa memória que, por algum acaso, reaparecem e, se não capturadas imediatamente, voltam ao reino das nuvens perdidas. Recordo hoje um acontecimento de quando talvez eu tivesse dez anos ou pouco mais. Os meus olhos captaram a cena que até hoje me comove.

Meu avô paterno tinha matadouro e açougue. Meu pai seguiu o mesmo caminho. Essa profissão cedo me colocou em contato com tropeiros, esses que conduziam tropas que viriam abastecer os abatedouros espalhados na rota que percorriam. Um deles, o Totonho Lopes, vinha de Passo do Sobrado, os demais desciam as serras, vindos de Júlio de Castilhos, Tupanciretã, Jacuizinho, até o vale do Taquari, em jornadas de inimagináveis aventuras ou desventuras. Nestor Fernandes era uma dessas personagens.

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Hoje, não se veem mais tropas nas estradas. Com tanto trânsito, seria inviável tocar dezenas ou centenas de animais por caminhos abarrotados de carros e caminhões. Os caminhões-boiadeiros cumprem esse papel, apagando uma paisagem que marcou profundamente a cultura gaúcha. Há inúmeras histórias e músicas que evocam com toque saudoso essa realidade. Romantizadas, as letras nem sempre revelam a vida dura que essas pessoas enfrentavam. Andar sob sol escaldante, sob chuvas finas ou torrenciais, em dias congelantes, dormindo mal sobre pelegos em galpões estropiados, comendo refeições básicas, longe das famílias, sem contato, tangiam o gado cansado, triste, assim como muitas vezes eles também.

O ponto final de alguns tropeiros era Estrela, portanto no outro lado do rio Taquari. Não existia a ponte que atualmente liga Lajeado ao município vizinho. A travessia era feita de barca no local chamado Passo de Estrela, que voltou à cena em 2024, quando o bairro inteiro, então já muito mais crescido, foi varrido para dentro das águas furiosas que tanto sofrimento espalharam por todo o vale.

Um tropeiro, de menor trânsito na região, chegou com sua tropa ao Passo. Iniciou negociação com o barqueiro, mas não se acertaram quanto ao valor. Decidiu, então, atravessar a nado – ele, os peões e o gado. O rio não estava alto, mas isso é desnecessário quando uma desgraça se avizinha. Os companheiros relataram que o cavalo do patrão teria tropeçado numa pedra e os dois – cavalo e cavaleiro – foram tragados pelas águas traiçoeiras, ainda que previsíveis.

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Três dias depois, pouca distância abaixo, o corpo emergiu, alguns pescadores o resgataram, depositando-o sobre os cascalhos da curva do rio em Cruzeiro do Sul. Era domingo e nossa família tinha ido à missa. Quando soubemos do resgate, acho que só meu pai e eu descemos à margem. Lá estava o gaúcho, com seu traje típico, suas botas, o rosto já um tanto carcomido pelos peixes. Ao lado dele, agachada, uma moça acariciava o pai sem vida. Cuidadosamente retirou o revólver, ainda preso à cintura, e com o máximo zelo, com o mais doído carinho o secou, guardando-o na pequena valise que trazia, criando uma lembrança inesquecível.

Não quero ressaltar a presença da arma, certamente comum entre os chefes das tropas, mas a dolorosa cena que despertou um choro discreto, vindo do fundo do poço de uma alma machucada. O inesperado fim da viagem daquele tropeiro, daquele pai feriu não só o coração da moça, mas de todos que testemunharam o destino final da tropa perdida.

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Guilherme Andriolo

Nascido em 2005 em Santa Cruz do Sul, ingressou como estagiário no Portal Gaz logo no primeiro semestre de faculdade e desde então auxilia na produção de conteúdos multimídia.

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