Temos muitos pássaros em casa. As gaiolas deles têm variados tons de verde. São altas, frondosas, algumas baixas, outras floridas, frutíferas e todas com uma virtude inegociável: amam a liberdade de seus habitantes. Cedo de manhã eles se perfilam sobre os fios de luz e agregados, olhos fixos no espaço onde costumam receber sua dose diária de milho quebrado. Saciados, voltam aos fios, um ao lado do outro, olhando para a casa visivelmente tomados de gratidão.
O predomínio absoluto é das pombas-rolas. É frequente, porém, a intromissão de outras famílias, com destaque para um canarinho amarelo e um reluzente anu preto. Não são bem recebidos, corridos a bicadas, tapas de asas e suaves pontapés. Entre as pombas, duas se destacam pelo tamanho e por suas atitudes. Sentam no meio dos pratos e não permitem a aproximação de concorrentes, que por momentos se contentam com o que as poderosas espalham. Observando-as atentamente, resolvi batizá-las de Prump e Netay.
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Prump implicou com o frágil canarinho amarelo. Mesmo invocando sua beleza, seu trinado suave, doce, agradável, inofensivo, Prump não quis saber. Se ao menos tivesses um bico capaz de perfurar rochas e fazer jorrar petróleo, disse. Só beleza não me interessa, não reverte em dólares. Além do mais, andas com companhias suspeitas, como os sabiás, os bem-te-vis, até com os inquietos tico-ticos. O que acrescentaria um beija-flor ao meu reino, com aquele bico comprido? Já um pica-pau, com aquele bico forte, talvez fosse bem-vindo.
O anu foi escorraçado. Mesmo com beleza ímpar, lustrosamente lindo, trabalhador, foi expulso do território, imigrante intrometido que era. Nos domínios de Prump e Netay, sempre se apresenta como perigo iminente. Ainda que haja comida e árvores para todos, é necessário se acautelar e impedir que outros interesseiros cheguem para dividir a riqueza. Palavras como solidariedade e compaixão não integram o vocabulário dos nossos reinos.
Netay é um pouco menor que Prump, sempre anda meio escondido atrás dele, tal como irmãozinho menor atrás do outro maior nos momentos de alguma briga iminente. Com aquela carinha disfarçada de generoso, bica os outros pelo prazer de bicar. Às vezes, para se divertir, arruma algum pretexto e joga pedra sobre as casas dos vizinhos, tachando-os de perigosos, terroristas ameaçadores. Joga pedras matando sem dó até mesmo os indefesos filhotes, incapazes de entender como seres da mesma raça conseguem semear tanto sofrimento, tanta dor e tanta morte.
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A natureza, em suas inumeráveis manifestações, é sempre linda, mas precisa do olhar amoroso do único ser capaz de fazer isso. Árvores, rios, montanhas, peixes, cachoeiras, tudo encerra encantos que preenchem a alma de luz e de paz. Vestidos com as cores mais vistosas, deslumbrantes, os pássaros se sobressaem pela incomparável exibição de beleza. Parece que nenhuma tinta vermelha alcança o vermelho exuberante da crista do cardeal. O azul da arara, o verde do papagaio, o amarelo do bem-te-vi superam qualquer catálogo de tintas da loja comercial. Até o joão-de-barro, com aquela roupagem cor da terra, é bonito.
Se pudesse escolher, gostaria que me visitassem apenas canários amarelos, no entanto as pombas, por seu olhar manso, continuarão a ser bem-vindas a cada amanhecer em nossa casa. Mas, que venham todos, de todas as famílias, partilhar o pouco que tenho a oferecer em troca de tanta satisfação que desembarcam em nosso pátio e principalmente em nossos corações.
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