Gisele Severo

Por que o ano só começa depois do Carnaval?

Todo mês de janeiro chega carregado de expectativas. Metas, promessas, listas, agendas novas e a cobrança silenciosa de que tudo recomece com energia total. Mas, na prática, o Brasil sabe: o ano ainda não começou. Ele está em suspenso. E, culturalmente, só ganha tração depois do Carnaval.

Longe de ser preguiça coletiva, essa percepção revela algo mais profundo. Somos um país marcado por ciclos intensos de fechamento e abertura. O fim do ano concentra excessos emocionais, encontros familiares, festas, gastos, frustrações e comparações. Janeiro surge como um mês de ressaca física e psíquica, mais voltado à recuperação do que ao impulso.

Há ainda o fator climático. O verão impacta diretamente o funcionamento do corpo. O calor excessivo interfere no sono, na concentração, no humor e na disposição. O organismo pede desaceleração. Exigir produtividade elevada nesse contexto é desconsiderar o básico: corpos cansados não recomeçam, eles precisam se reorganizar.

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O Carnaval ocupa um lugar simbólico central nessa equação. Não é apenas festa. É um ritual coletivo de liberação, um espaço socialmente autorizado para suspender regras, extravasar, brincar, exagerar e existir fora do controle. Psicologicamente, funciona como uma grande válvula de escape. Um momento em que o prazer deixa de ser culpa e vira linguagem.

Do ponto de vista emocional, o cérebro precisa de marcos claros para encerrar ciclos. O Carnaval cumpre essa função. Ele sinaliza que o excesso foi vivido, que o corpo teve voz, que o desejo teve espaço. Só depois desse ritual coletivo de descarga é que a ideia de rotina deixa de soar como punição e passa a ser escolha.

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Existe também um aspecto social importante. No Brasil, o ano começa quando tudo volta a funcionar de verdade: escolas, universidades, projetos, contratos, compromissos. Antes disso, tudo parece provisório. Há uma sensação de espera compartilhada, como se ninguém quisesse largar antes do sinal oficial.

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Talvez o problema não seja o ano que começa tarde, mas a expectativa de que sejamos lineares, produtivos e focados o tempo todo. O calendário emocional não obedece ao calendário gregoriano. Ele respeita pausas, rituais, clima e cultura.

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Quando entendemos isso, janeiro deixa de ser um mês fracassado e passa a ser o que sempre foi: uma travessia. Um tempo de adaptação, não de cobrança. Fevereiro, com ou sem fantasia, vira o verdadeiro portal de entrada.

No Brasil, o ano não atrasa. Ele amadurece.

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Guilherme Andriolo

Nascido em 2005 em Santa Cruz do Sul, ingressou como estagiário no Portal Gaz logo no primeiro semestre de faculdade e desde então auxilia na produção de conteúdos multimídia.

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