Colinas é uma pequena cidade do Vale do Taquari. Pequena, mas encantadora. Os caminhos da vida me ligaram a esse lugar, quando ainda se chamava Corvo. Lá morava o moço Eldo Schöller que os insondáveis mistérios do destino tornaram namorado e depois marido de minha irmã mais velha.

Eldo era alfaiate, desses de agulhas e cortes minuciosos, que entregavam ternos impecáveis. Mesmo não tendo mais do que escolaridade primária, detinha um senso cultural e estético impressionante. A rodoviária, por onde por muitos anos passava o ônibus do Expresso Albatroz que fazia a rota Santa Cruz do Sul – Caxias do Sul, ficava perto de sua casa. Ali funcionava um bar e havia um salão de razoável espaço. Eldo arrumou um projetor e passava filmes para pessoas que jamais teriam acesso a esse objeto cultural.

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Na casa dele, havia livros e uma fantástica coleção de discos dos quais emergiam sons dominicais que enchiam a casa de alegria. Foi com ele que aprendi a amar para sempre as grandes orquestras de Bert Kaempfert, Billy Vaughn, Franck Pourcel, Paul Mauriat, Ray Conniff, entre outras. Não havia música menor naquela casa. Cada disco recebia cuidadoso carinho da flanela que removia qualquer resquício de pó antes de se submeter à agulha do toca-discos.

Quando apareceram os primeiros sobrinhos, Eldo não os deixou sem sonhos. No porão da casa, instalou uma singela oficina para fabricar inimagináveis objetos mágicos. Assim, um avião, preso ao teto por uma haste, voava sobre as cabeças de olhos magnetizados; um trem, com estações de cenários perfeitos, subia montanhas e descia vales; um relógio-cuco exibia bonecos fazendo reverências; homens que serravam lenha martelavam peças; bonecos que andavam de bicicleta; bonecas automáticas; carrinhos de vários tamanhos, tudo explodia encantamento.

No fundo do terreno, passava o trem de verdade. Seu apito avisava a chegada. Era hora de misturar a fantasia com a realidade, deixar o trem do porão e confrontá-lo com a realidade. De cima do barranco dava para ver o monstro saindo do pequeno túnel rebocando aquela fila de vagões se deslocando serra acima. Cena deslumbrante.

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Nas visitas, as crianças não queriam saber de nada, queriam descer ao porão porque ali morava matéria de sonho para o resto de suas vidas. E esse universo de incomensurável ternura acabou saindo do porão e se estendendo à pequena cidade que sabe encantar, como acontece na incrível paisagem para celebrar a Páscoa. As praças foram embelezadas, Eldo levou a topearia, esculpindo nos arbustos figuras irretocáveis. Uma dessas praças merecidamente lhe presta justa homenagem.

Minha irmã Loiva, recentemente falecida, fez a sua parte no exterior da casa. Cultivava um jardim da mais suave e variada beleza. E espalhou esse gosto para tantas outras casas da sua aldeia. Tinha especial dedicação às gérberas, muitas mudas das quais vieram parar aqui mesmo em nossa região. A casa ficava verdadeiramente no meio de um jardim, no qual cada planta, cada arbusto recebia constante cuidado, como filhos por demais amados. Com o mesmo esmero que dedicava à sua casa, envolveu-se generosamente na vida da comunidade.

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A vida não é eterna, os dois partiram. Agora, quando a vida é feita com amor, por amor, com generosidade, sua lembrança permanecerá para sempre. E o sentimento das crianças que mais resta na memória dos hoje adultos é de pura gratidão.

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Guilherme Andriolo

Nascido em 2005 em Santa Cruz do Sul, ingressou como estagiário no Portal Gaz logo no primeiro semestre de faculdade e desde então auxilia na produção de conteúdos multimídia.

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