Psicanalista Heitor Jorge Lau indaga sobre as motivações para que dezenas de árvores estejam marcadas em Rio Pardinho
Rio Pardinho, interior de Santa Cruz do Sul. Sexta-feira, 3. O relógio marcava 18 horas quando o psicanalista Heitor Jorge Lau, de 64 anos, saiu de casa, localizada na Linha Nove Colônias. Ele imaginava repetir um ritual comum: depois de cuidar dos animais, caminhou pelo acesso à propriedade. Contudo, algo chamou a sua atenção: um tronco de uma das árvores da estrada estava marcado com a letra C, em tinta vermelha. Poucos metros adiante, deparou-se com outra. Depois, mais uma.
O psicanalista destaca que as marcações foram feitas sem qualquer aviso. “Foi na surdina. Meus cachorros não viram ninguém. Se houvesse algum caminhão ou movimentação, teriam percebido.” A curiosidade rapidamente deu lugar à preocupação. Na manhã seguinte, a habitual caminhada pela estrada ganhou um novo propósito. Com uma câmera fotográfica na mão, Lau foi registrando as marcações espalhadas pelos dois lados da estrada. Percorreu dois quilômetros e se deparou com as letras C e P em pelo menos cem árvores, algumas com mais de 30 anos e 20 metros de altura.
Chamou a atenção do morador o fato de que muitos dos exemplares marcados formavam a vegetação nativa de encostas. “Isso é o que segura o morro. Se tirar essas árvores, em dias de chuva, a água desce em uma velocidade e uma quantidade sem precedentes.”
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Ao voltar para casa, dividiu a preocupação com a esposa, a gestora de projetos Nelza Lau, de 63 anos. Passaram o fim de semana pensando em quem poderia ter realizado as marcações e o motivo disso.
“Nós nos assustamos muito. Não tinha ninguém, nenhuma assinatura, nenhum aviso, nenhuma placa. Quando chegamos em casa e encontramos uma situação dessas, pensamos: será que quando voltarmos não vai ter sobrado mais nada?”, enfatiza Nelza.
A partir dali, o casal começou uma corrida por respostas. Os primeiros contatos foram com vizinhos e a subprefeitura de Rio Pardinho. Segundo o poder público, a ação não havia partido do Município.
Levantou-se a hipótese de que poderia ser uma manutenção na rede elétrica. O casal, entretanto, estranhou a justificativa. “Aqui nem rede passa”, lembra Nelza.
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Heitor encaminhou as imagens à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que busca verificar se as marcações pertencem à concessionária responsável pelo fornecimento de energia. Enquanto aguardavam retorno, o clima era de angústia. “No sábado e no domingo, os nervos ficaram à flor da pele. Não sabíamos se, de repente, alguém apareceria para começar os cortes”, desabafa o morador.
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Na segunda-feira, o casal buscou ajuda da Câmara de Vereadores. Horas depois, recebeu informação de que a concessionária fazia um levantamento técnico para avaliar a implantação de uma nova rede de distribuição de energia na zona rural de Santa Cruz. Em nota, a empresa informou que as marcações tinham finalidade exclusivamente técnica e nenhuma árvore seria removida sem as autorizações legais necessárias.
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Apesar do alívio imediato provocado pela resposta, a informação abriu uma nova frente de questionamentos. “Respiramos aliviados porque as árvores ganharam mais um dia de vida. Mas começamos a nos preocupar com esse novo projeto”, admite Nelza.
O casal quer entender quem solicitou a rede, quais critérios embasam a obra, quem serão os beneficiários, qual o traçado previsto, quais impactos ambientais e econômicos foram avaliados. E querem saber por que a comunidade não foi informada previamente sobre o estudo.
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Para a família Lau, a discussão vai além da vegetação. “A paisagem faz parte da economia de Rio Pardinho. O turismo rural depende desse ambiente. Nós queremos desenvolvimento, mas um desenvolvimento sustentável”, afirma Heitor.
O casal enfatiza que não é contrário à ampliação da infraestrutura. Contudo, defende que intervenções desse porte sejam conduzidas com transparência e ampla participação da comunidade. “O que nos incomoda não é discutir um projeto. É descobrir que ele existe somente depois que as árvores já estavam marcadas”, frisa Nelza.
Desde aquela sexta-feira, a rotina de Heitor e Nelza mudou. Qualquer barulho de caminhão na estrada acaba com a tranquilidade do casal, que interrompe o que está fazendo e vai conferir. “Se aparecer alguém para cortar aquelas árvores, vou querer saber quem autorizou, onde está o projeto, a licença, a ordem de serviço”, garante Heitor.
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Na avaliação de Nelza, o impacto maior foi perder a sensação de segurança no lugar que ela e o marido escolheram viver. “Vivemos aqui acreditando que existe uma ordem, regras e respeito pelo espaço onde moramos. De repente, aparece alguém, marca centenas de árvores, e ninguém sabe quem foi ou por quê. A tranquilidade ficou para trás. Tiraram a nossa segurança.”
Enquanto aguardam novas informações, as letras permanecem pintadas nos troncos. Para o casal, essas marcas deixaram de representar apenas um levantamento técnico. Tornaram-se o símbolo de dúvidas que, até agora, continuam sem resposta.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade (Semass) informa que tomou conhecimento das marcações após ser procurada por moradores da comunidade. Conforme a secretaria, até o momento não há pedido de licenciamento ambiental protocolado referente ao manejo de vegetação na área. A Semass ressalta que poderá analisar tecnicamente uma eventual intervenção após a apresentação formal do projeto e da documentação exigida pela legislação.
A pasta diz que seguirá acompanhando o caso e permanece à disposição para prestar esclarecimentos à comunidade, acrescentando que buscou informações junto à concessionária assim que foi procurada pelos moradores. O promotor Érico Barin afirmou, nessa sexta-feira, 17, que o MP acompanha o caso e verificará se houve alguma ilegalidade.
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Em nota enviada pela assessoria à Gazeta do Sul, a CPFL RGE informa que as marcações encontradas em árvores de Rio Pardinho são parte de um levantamento técnico para avaliar a implantação de nova rede de distribuição de energia elétrica na zona rural de Santa Cruz do Sul. A concessionária frisa que o projeto ainda não tem previsão de execução.
Conforme a empresa, as equipes apenas identificaram visualmente árvores que, futuramente, poderão necessitar de manejo vegetal para viabilização da obra. Ela ressalta que, até o momento, não houve poda ou supressão de vegetação e o trabalho feito em campo tem caráter exclusivamente técnico.
A CPFL RGE acrescenta que, após a conclusão dos estudos, deverá encaminhar à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) um pedido de autorização para eventual manejo vegetal. A empresa afirma que qualquer intervenção na vegetação somente ocorrerá após a emissão das licenças ambientais previstas na legislação.
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