Atestado de óbito de Carlos apontou morte por “causa natural indeterminada”
Há cerca de quatro meses, a família de Carlos Henrique Poeta dos Santos decidiu recomeçar. Depois de viver em Rio Pardo, os pais optaram por se mudar para Santa Cruz do Sul em busca de novas oportunidades.
A mãe, Elaine Aparecida Poeta Silva, de 37 anos, havia conseguido emprego em uma escola como auxiliar de limpeza. O pai, Carlos Alexandre Rodrigues dos Santos, 38, não precisaria mais se deslocar de Rio Pardo a Santa Cruz todos os dias para o trabalho como eletricista. Além disso, a família passaria a viver perto dos avós, tios e demais parentes.
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O que deveria ser o início de uma nova etapa acabou se transformando em uma tragédia que ainda parece difícil de compreender. Na madrugada do último domingo, 31, Carlos Henrique morreu aos 9 anos após passar por atendimentos em unidades de saúde do município. Desde então, a família tenta entender o que aconteceu durante os dias em que o menino apresentou sintomas, procurou ajuda médica e teve o quadro agravado até o desfecho fatal.
A Polícia Civil instaurou inquérito para investigar as circunstâncias do óbito. O alvará judicial autorizando a exumação do corpo para a necropsia já foi expedido, e o procedimento deverá ser agendado nos próximos dias junto ao Departamento Médico-Legal do Rio Grande do Sul. A investigação busca esclarecer a causa da morte e apurar se houve eventual negligência durante os atendimentos prestados à criança.
Enquanto aguarda respostas, a família tenta lidar com a ausência de um menino descrito por todos como carinhoso, alegre e apaixonado pela irmã mais nova. Chamado de “Carlão” pelo avô, Carlos adorava jogar no celular, gostava de estar cercado pela família e tinha hábitos simples que ficaram marcados na memória dos pais. Entre eles, o gosto por leite com chocolate acompanhado de bolachas.
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“Ele adorava. Era uma das coisas que mais gostava”, recorda a mãe. Segundo os pais, Carlos era uma criança saudável. A única cirurgia que havia realizado foi para retirada de adenoide. Fora isso, levava uma rotina comum para a idade. “Ele era muito querido. Não tolerava palavrão, fazia amizade com todo mundo e cuidava muito da irmã”, conta a mãe.
A irmã caçula, de 4 anos, ainda tenta compreender o que aconteceu. Segundo a família, ela sabe apenas que o irmão “foi para o céu” e se tornou uma linda “estrela brilhante”. Desde a morte, faz perguntas frequentes sobre ele e demonstra dificuldade para entender por que não voltou para casa.
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Segundo o relato da família à Polícia Civil e em entrevista à Gazeta do Sul, os sintomas começaram no dia 25, uma segunda-feira, quando Carlos e a irmã apresentaram vômito e diarreia. Enquanto a menina melhorou gradativamente, o quadro do garoto persistiu. Ele passou a se alimentar cada vez menos, queixava-se de dores pelo corpo e demonstrava fraqueza, o que levou os pais a buscarem assistência médica na sexta-feira.
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A família procurou inicialmente o Centro Materno Infantil (Cemai), mas não recebeu atendimento porque ainda não havia atualizado o endereço no cadastro do Cartão SUS. Encaminhado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Carlos recebeu medicação, hidratação e passou por avaliação. Os médicos informaram que o quadro poderia estar relacionado a uma virose ou síndrome gripal.
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Após o atendimento, o menino retornou para casa e apresentou aparente melhora. No dia seguinte, entretanto, acordou com fortes dores abdominais e fraqueza ainda maior, já sem conseguir ficar em pé sozinho. Diante do agravamento, os familiares buscaram a Casa de Saúde Ignez Moraes, o Hospitalzinho.
Carlos chegou à unidade muito debilitado e com as extremidades frias. Mesmo medicado, permaneceu horas em observação com dores, episódios frequentes de vômito – inclusive com aspecto de sangue – e incapacidade de urinar, até que uma pediatra assumiu o caso e solicitou exames. Mais tarde, o menino passou a demonstrar alterações de comportamento, relatando que o coração estava disparado. Segundo a mãe, a equipe de saúde insistiu por diversas vezes sobre a situação do Cartão SUS da criança durante o atendimento.
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Apesar da insistência dos familiares, os pais foram informados de que os laudos não apontavam alterações que justificassem a internação, e exames de imagem não foram solicitados. Carlos recebeu alta e precisou deixar o hospital em uma cadeira de rodas. Pouco após chegar em casa, o menino desmaiou.
Os familiares retornaram imediatamente ao Hospitalzinho, onde Carlos deu entrada desacordado. A equipe de plantão, sob a responsabilidade de outro médico, iniciou os procedimentos de emergência.
Por volta das 23h30, a família foi informada de que o estado de saúde do menino era grave. Cerca de uma hora e meia depois, veio a confirmação da morte. Segundo os pais, a Guarda Municipal chegou a ser acionada pela unidade de saúde.
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Ainda durante a madrugada, por volta das 4 horas, pouco tempo depois do falecimento, a mãe procurou a Polícia Civil para registrar ocorrência. Carlos foi velado na Capela Halmenschlager da Ressurreição no domingo e sepultado no Cemitério Municipal de Santa Cruz.
Enquanto aguardam o resultado da investigação, Elaine e Carlos Alexandre tentam lidar com a dor. Na casa onde a família planejava construir uma nova vida, permanecem as lembranças do menino que gostava de brincar no celular, que cuidava da irmã pequena e sonhava apenas em continuar vivendo a infância.
Entre lágrimas, a mãe afirma que transformou o luto em uma busca por respostas. Em meio à dor, ela tenta encontrar algum significado para a tragédia que atingiu a família. “Talvez ele tenha vindo a este mundo para fazer justiça por muitas outras crianças. Se isso servir para evitar que outra família passe por uma dor como essa, já vai ter valido alguma coisa.”
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Investigação
Após o registro na Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA), a investigação passou a ser conduzida pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).
Segundo a delegada Ana Luísa Aita Pippi, os prontuários dos atendimentos já foram entregues à Polícia Civil e integram o material que será analisado durante o inquérito. A exumação do corpo para necropsia é considerada fundamental para esclarecer a causa da morte. Conforme a delegada, familiares já começaram a ser ouvidos e outras pessoas ainda prestarão depoimento.
O que diz a Prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Santa Cruz informou que irá instaurar processo administrativo para apurar os fatos. “O município de Santa Cruz do Sul se solidariza com os familiares pelo ocorrido e, como provedor e fiscalizador do contrato com o Grupo Hospitalar Ana Nery, que é gestor do Hospitalzinho, abrirá processo administrativo para apurar os fatos”, diz o posicionamento.
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A administração municipal acrescenta que, caso seja constatada negligência, tomará as medidas cabíveis. “Se for constatado que realmente houve negligência no atendimento, o município agirá com responsabilidade e cobrará da instituição a reparação devida, conforme contrato firmado com a prestadora do serviço.”
Apuração interna
O Grupo Hospitalar Ana Nery, responsável pela gestão do Hospitalzinho, informou que instaurou uma apuração interna para analisar detalhadamente todas as circunstâncias do atendimento prestado.
A instituição afirmou que está colaborando integralmente com as autoridades, fornecendo toda a documentação e as informações solicitadas para o esclarecimento dos fatos. O grupo também reiterou seu compromisso com a transparência, a ética e a qualidade da assistência prestada.
Por respeito ao paciente, aos familiares e ao sigilo das informações em saúde, o hospital informou que não irá comentar detalhes do caso enquanto as averiguações estiverem em andamento.
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