Depois de muito viver, pensar e escrever, o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin faleceu aos 104 anos, no dia 29 de maio. Sempre atento aos debates públicos, ele usava o Twitter com frequência. Expressava-se para ser entendido por todos, não só por seus pares no meio universitário. Ainda na época da pandemia, lembro de Morin tuitar o seguinte:

“Deveríamos buscar uma vacina contra a raiva especificamente humana, porque estamos em plena epidemia.” Referia-se à agressividade e violência que, aos seus olhos, pareciam aumentar em tempos de confinamento e restrições. Um rancor difuso em busca de alvos que, ao se transportar para a esfera política/coletiva, transforma-se em uma “lógica que só consegue discernir inimigos a serem combatidos e vencidos”.

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É a lógica do fanatismo, que Morin enfrentou durante toda sua vida. Morreu consciente de que estamos longe de uma vacina. “Não somos apenas possuidores de ideias, mas somos também possuídos por elas, capazes de morrer ou matar por uma ideia”, escreveu na autobiografia “Meus demônios”.

Edgar Morin nasceu contra todas as expectativas. Sua mãe havia contraído gripe espanhola e, como sequela, desenvolveu grave doença cardíaca. Os médicos a avisaram que não poderia ter filhos, pois o parto seria fatal. Quando engravidou, ela ainda tentou induzir um aborto, mas o feto resistiu mais do que o esperado.

Morin veio ao mundo estrangulado pelo cordão umbilical, na manhã de 8 de julho de 1921. “Nasci morto e fui reanimado pelos tapas ininterruptos do ginecologista que me manteve suspenso pelos pés durante trinta minutos”, recordou no livro “É hora de mudarmos de via – As lições do coronavírus”, lançado em 2020.

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Desde então, tornou-se testemunha e intérprete da história – que, assim como a vida humana, segue a trilha do imprevisível. O tempo lhe mostrou que ela é a explosão do inesperado. Acontecimentos cruciais, como a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa ou o ataque às torres do World Trade Center, não estiveram no radar imediato; foram surpreendentes. Seja bem ou mal, o novo nasce sem parar, ainda que estrangulado. Nada é estático.

Morin não cabe neste espaço, mas era necessário dizer algo a respeito. Para mim ele reforçou, mais do que qualquer outro, a noção de cultura como união do que está separado. “A cultura é, em suma, o que ajuda o espírito a contextualizar, globalizar e antecipar.”

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Daí suas reservas quanto ao pensamento especializado, compartimentado, que rompe o mundo complexo em pedaços isolados e “torna unidimensional o multidimensional”. Arquipélagos de certezas no oceano incerto.

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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